A Sabedoria das Árvores

20150824

Desde sempre que as árvores me fascinam, e com a minha maior dedicação às questões espirituais, esse fascínio intensificou-se e transformou-se numa profunda admiração e amor. Não só pela sua majestosa e imponente beleza, que se eleva do chão para os céus, mas também por elas serem dos seres mais antigos neste planeta, essências que fazem parte da construção primordial da vida na Terra e que têm em si mesmas algumas das consciências mais sábias do mundo terreno.

Acredito que temos muito a aprender com as árvores, para além de tudo aquilo que já sabemos, e não só em termos científicos. Lembremo-nos, por exemplo, da forma como adaptamos o seu ser a muitas técnicas de meditação e sintonização, coisas tão simples mas, ao mesmo tempo, tão poderosas.

Somos espíritos a viver uma experiência terrena de crescimento, evolução e ascensão, que têm como objectivo o retorno ao Todo e, com todo o processo vivido, trazer algo de novo a esse Todo, fazê-lo crescer, transformá-lo. Para poder cumprir esse processo aqui na Terra, como qualquer árvore, precisamos de nos manter ligados para, verdadeiramente, usufruir dessa energia. A Terra é uma grande mãe que nos acolhe no seu leito, que nos alimenta e nos supre, mas o ser humano esqueceu-se que precisa de ser como a árvore e, primeiro que tudo, criar raízes e ligar-se às bases que verdadeiramente os sustentam.

São as raízes que ligam a árvore à Terra e que a mantêm segura, forte e conectada à fonte de alimento físico. Também nós, ao nos ligarmos à Terra, ao respeitarmos os seus ciclos, ao amarmos esta nossa casa, retiramos dela o que precisamos para nos alimentarmos, para podermos estar protegidos e seguros. Quando nos ligamos à Terra, conectamos a nossa essência à essência do espírito da Terra e, assim, mantemos as condições para cumprir o nosso propósito.

Muitas vezes, encontro no meu caminho e no meu trabalho pessoas que não estão ligadas à Terra e que, numa total desidentificação da existência terrena, desenvolvem difíceis processos pessoais, emocionais, mentais e físicos, muitas vezes não compreendendo o porquê da sua existência. Tão simplesmente, não aceitam o propósito de vida terreno, acham que é um castigo ter de viver na Terra, desligam-se progressivamente e, assim se mantendo, um dia, ao libertarem-se da encarnação, com certeza, muitos deles terão de voltar à Terra noutras formas, noutros desafios, para concluírem e aprofundarem um caminho que eles mesmos escolheram enquanto espíritos.

A ligação à Terra, sem vivência do lado mais sombrio da tridimensionalidade, como o apego, o medo, a ganância e a posse, é parte da aceitação do nosso propósito de vida, é uma parcela essencial da transformação do nosso espírito. Quando vivemos ligados a esse lado mais negro, adensamos a energia do nosso corpo e começamos a desligar-nos da Terra, como se as raízes se retraíssem e lentamente secassem a árvore. Ela não deixa de ser matéria, simplesmente deixa de viver. Da mesma forma, quando estamos presos a essas vivências, deixamos de viver e passamos, simplesmente, a sobreviver.

Da mesma forma, os ramos e a copa dirigem-se para o alto, para o céu, ligando-a à fonte de vida que o Sol é em cada dia. Em cada momento, sem uma mente racional, a árvore dirige toda a sua essência para a contemplação da fonte de toda a vida, aceitando o calor que ela lhe dá, recebendo em si mesma o dom que lhe é oferecido. Quando nós, humanos, nos ligamos ao alto, conectamos a nossa essência à Fonte, activamos e acendemos a nossa centelha divina. Quando dessa Fonte estamos desconectados, passamos a viver apenas para as coisas do mundo e, mais uma vez, apenas sobrevivemos pelo alimento que a Terra nos dá, tornamo-nos gananciosos, com medo de perder o que, achamos, conseguimos obter e possuir.

Sem raízes e sem copa, o tronco de uma árvore é apenas um pedaço de madeira e, da mesma forma, sem estarmos em perfeita ligação com a Terra e com o divino, somos apenas um corpo, uma espécie de zombie que por aqui vagueia. O tronco é, como nós, um canal entre a Terra e o divino e entre o divino e a Terra, um veículo para a grande missão que é ser uma árvore aqui neste planeta. É no tronco que a sabedoria da árvore se materializa e é nesse mesmo tronco que se manifesta o tempo e o caminho que ela percorreu. Uma parte cortada revela uma dor do passado, enquanto uma casca mais grossa nos mostra o efeito do tempo. Ainda assim, é nesse tronco que a sabedoria se acumula. É nesse tronco, nos galhos que se estendem dele, que os pássaros fazem o seu ninho, que encontram protecção e que, também aí, novas vidas se geram. É na base do tronco, debaixo da copa, que os animais se aninham, protegendo-se da chuva e descansando.

Quando tudo está no seu lugar, o vento vem e sopra forte, mas as raízes profundas mantêm a árvore no seu lugar, abanando um pouco, cedendo até, mas sem rasgar a terra e cair face à dificuldade. Na copa, muitas folhas podem soltar-se, aquelas cujas ligações são mais fracas e não mais necessárias, mas as que fortemente a árvore criou, não se quebram. Eventualmente, um ou outro galho se pode partir, mas nada do que é realmente necessário irá, certamente, perder-se.

Espectadoras silenciosas da vida à sua volta, sobreviventes milenares das mais diversas e difíceis condicionantes que a Terra e o ser humano lhes trouxe, as árvores são, também elas, essências especiais que fazem parte de um Todo em ascensão. Quando nos ligamos a elas, recebemos a sua sabedoria, acalmamos e apaziguamos o nosso espírito, o nosso coração, partilhamos da sua energia e, em cada momento, recebemos também a sua energia de cura. Elas são, duma forma muito simples, os primordiais espíritos da Natureza, que transmitem os seus ensinamentos a todo o tipo de xamãs e que tanto, mas tanto, têm para nos ensinar.

Por isso, admiro tanto as árvores e gostaria de, um dia, ser como elas e aceitar serenamente o caminho da vida, abraçando cada vento, cada tempestade, todos os dias, sem reclamar nem queixar, absorvendo a sabedoria que cada momento e cada experiência traz, compreendendo que nasci no local certo e na hora exacta, que à minha volta tenho tudo o que necessito, sempre, elevando sempre os meus braços aos céus, agradecendo o que Deus me dá em cada dia e ligando-me, respeitando e amando a Mãe Terra, em cada momento. Acredito, pois sinto, a cada dia, tudo isto mais profundamente no meu coração, que estou no caminho certo para ser uma árvore. E tu?

Boa semana!

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