O Silêncio

20151201

Boa tarde!

Se pararmos um pouco para ouvir o mundo lá fora, no meio de todo o ruído de carros, fábricas, conversas e afins, conseguiremos ouvir um brutal, inquietante e angustiante silêncio vindo dos que são injustiçados, violentados, ostracizados, dos que passam fome, que precisam de um carinho, de um abraço, de uma palavra amiga, dos que se sentem vazios por dentro, pois a vida que tanto tempo procuraram, o caminho que lhes ensinaram, não trouxe, no fundo, aquilo que lhes tinha sido prometido.

Esse é um silêncio que, com o passar do tempo, se transforma em dor, em sofrimento, em medo, que se deturpa e consome a vida, que nenhum grito que se possa largar vai resolver ou trazer libertação. Quando olhamos “lá para fora”, é isso que vemos, tantos e tantos consumidos por esse vazio, manipulados pelas suas próprias sombras, sofrendo silenciosamente de um mal que não conseguem identificar.

Depois, o corpo físico começa a responder, a mente começa a dar sinal, as doenças surgem, gastam-se rios de dinheiro em remédios, mas nada soluciona o problema, pois não se sabe de onde ele vem, actua-se sobre um corpo, sobre as ligações eléctricas do cérebro, mas esquece-se do que mais essencial todos nós somos, uma alma, um espírito. Culpa-se o mundo que nos rodeia, as exigências profissionais, pessoais, a poluição e tudo o mais, mas esquece-se que, na verdade, apenas fomos nós que deixámos de respeitar, há muito tempo, o nosso ser.

Nos últimos dias vivi um momento de maior recolhimento, que me permitiu não só trabalhar questões minhas, os meus próprios silêncios, dando-lhes voz, recordando-me da minha essência e do meu verdadeiro Eu, como também ser privilegiado com a bênção de ser testemunha desse mesmo processo noutros seres, noutros irmãos, almas que rasgaram os limites do corpo físico e extravasaram a sua Luz. Nos últimos dias tive maior consciência deste mesmo silêncio que nos rodeia, que anseia por se fazer ouvir, que nos afecta a todos, sem excepção, mas que a muitos ainda vai destruindo, vai consumindo, pois nem sequer existe a consciência de que ele lá está.

Este silêncio de que aqui escrevo é carente de amor e perdão, de aceitação plena e de reconhecimento do seu próprio Eu, dos caminhos que foram feitos, da responsabilidade que esses mesmos caminhos nos trouxe, é carente de Luz e de Fé. Quando a Fé preenche os nossos corações, somos gratos e compreendemos que tudo o que vivemos está no sítio certo e na hora exacta, que as respostas às nossas questões só chegam quando estamos preparados para as receber, não quando incessantemente gritamos por dentro essas mesmas perguntas. Quando o fazemos, há um silêncio que se ocupa de dúvida, de revolta e de dor, ao invés de se revelar e ser percebido, compreendido e, dessa forma, trabalhado.

Quando a Fé reside nos nossos corações, há uma Esperança que se transforma em chave mestra, que nos abre os caminhos para que possamos, se assim quisermos, caminhar neles. Quando nos permitimos a isso, há um Amor que passa a habitar em nós, um Amor maior, o Amor por nós mesmos, o primeiro amor que precisamos de cultivar nas nossas vidas. Apenas dessa forma podemos encontrar caminhos que antes pensávamos serem impossíveis de trilhar, que antes olhávamos como densos e destruidores, sem compreender que para chegarmos à luz no fundo do túnel temos que o atravessar, na plenitude de toda a sua escuridão, enfrentando todos os nossos medos, mas tal só pode ser feito com Fé.

Neste fim-de-semana também, fui recordado de uma história da passagem do Mestre pela Terra. Quando, numa noite, depois de curar muitos enfermos e de fazer o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, o Mestre ordenou aos seus discípulos que entrassem com os barcos no mar e fossem à frente dele para o outro lado, enquanto Ele despedia a multidão que tinha ficado, para depois ir orar para o monte sozinho. A noite caiu e o vento soprou muito forte, os barcos, no meio do mar, balança com as ondas e os discípulos tiveram medo. Jesus dirigiu-se a eles, andando sobre as águas, e vendo o seu vulto, os discípulos tiveram medo. O Mestre disse-lhes para não temerem, pois era Ele, e Pedro disse-lhe: “Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas”. O Mestre assim o fez e Pedro saiu do barco e deu passos em cima das águas, mas o vento forte e o mar agitado trouxeram-lhe medo e ele começou a afundar-se, clamando por Jesus. O Mestre estendeu-lhe a mão, salvando-o, dizendo-lhe de seguida a frase que todos conhecemos: “Homem de pouca fé, porque duvidaste?”

É a Fé que tudo move, que tudo muda, que aquieta os silêncios e apazigua as almas. É a Fé que une as mãos separadas, para que o Amor possa vencer as guerras e as disputas. É a Fé que nos eleva o espírito e nos recorda que há silêncios que não calamos, é verdade, mas que temos a possibilidade de ouvir, sem reprimir, de encarar para crescermos, para compreendermos que tudo se vence, que nenhum obstáculo é intransponível para aquele que acredita em si mesmo, no seu caminho, nas suas capacidades, que tem Fé e acredita que o caminho que está a viver faz parte do seu propósito de vida, que nada existe por acaso, mas que nada existe sem Amor.

Boa semana!

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