A Estátua de Sal

20160224

Boa noite!

Nos últimos dias, uma pequena história das escrituras tem estado constantemente na minha mente, uma história que foi referida pelo Mestre num episódio e que povoa o nosso imaginário, a da mulher de Ló, transformada em estátua de sal. Nestes últimos dias também, a última Lua Cheia do ano astrológico, que em Peixes termina o seu percurso, sintetiza as aprendizagens e prepara-nos para um novo ciclo, trouxe-nos a energia de fecho, de final, de integração e transformação.

Quando os anjos de Deus entraram em Sodoma para retirar Ló e a sua família da cidade que iria ser destruída, corrompida pelo pecado, disseram-lhes que, de forma alguma, poderiam olhar para trás. Contudo, a mulher de Ló olhou, e ao fazê-lo, transformou-se numa estátua de sal. Esta história, como tantas outras, é uma metáfora que, olhada com os olhos da alma, mostra-nos uma das mais fortes verdades da vida, a de que largar o passado e seguir o nosso caminho implica termos a capacidade de não olhar para trás, pois ao fazê-lo estamos a prender-nos ao passado, a ter pena e a lamentarmos o que vivemos, o que não fizemos, o que poderia ter sido diferente.

Encerrar capítulos e fechar ciclos implica assimilar e integrar tudo o que vivemos, encarar cada lição e cada aprendizagem, compreender o caminho feito e assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas. Quando o fazemos, o passado é apenas uma parcela de um caminho, uma semente plantada e cuidada que deu um fruto, e por isso estamos preparados para dar um passo em frente num novo trilho. Fechar um ciclo não implica seguir caminho, essa é uma escolha que cada um de nós faz, assim como a mulher de Ló fez. Na verdade, ela fechou um ciclo, mas não integrou a missão desse caminho, cristalizando no que, no seu íntimo, considerava mais precioso e cujo símbolo era Sodoma.

Da mesma forma, encerramos capítulos nas nossas vidas, fechamos processos, terminamos relações, saímos de determinados trabalhos, mas não avançamos, pois ficamos, tantas vezes, cristalizados, a olhar para um passado, presos a ele, sem conseguir compreender que tudo tem o seu tempo e o seu espaço e que cada caminho que nos é apresentado foi delineado por nós, em cada escolha que fazemos, em cada decisão tomada. A tridimensionalidade que ainda vivemos na Terra tem um propósito e um significado, pois a variável tempo, tão relativa em outras dimensões, neste estágio que é o nosso planeta, é uma das condicionantes mais preciosas e essenciais do nosso propósito na Terra, a aprendizagem e consecutiva evolução. Sem o tempo, sem o passado, não seríamos capazes de ter a noção que o desapego é a essência da libertação do nosso Ego e da sua comunhão com o nosso Eu, o perfeito alinhamento que só pode ser feito através do perdão, da compaixão, do mais profundo Amor.

Por isso, o Mestre, naquele momento, junto aos seus discípulos, disse: “Lembrai-vos da mulher de Ló.” Quando queremos crescer e evoluir, temos de nos libertar do passado, do que nele vivemos, não o esquecendo, mas integrando-o e ao que a experiência nos ensinou, ao que a vida nos trouxe, sem mágoa, sem medo, sem rancor, tão simplesmente compreendendo que não podemos chegar à luz sem passar pela sombra, que, para podermos ir mais longe, para podermos cumprir o nosso propósito, em cada momento, temos de nos confrontar com quem somos, com as nossas opções e escolhas. Nesse momento, somos também levados a olhar para nós, a rasgar os nossos véus, deitar abaixo as velhas estruturas e criar novas. Tudo está nas nossas mãos como uma escolha, como um assumir de uma responsabilidade, na mesma dimensão do nosso passado, simplesmente com uma vibração diferente, se assim quisermos.

Fechar um ciclo para abraçar outro implica transcender na compreensão de um percurso feito, de forma a que tudo o que vivemos seja matéria de base, alimento para um novo caminho. No Tarot, é a vivência do Diabo, cumprindo o seu propósito maior de descobrir a nossa força e o nosso poder, de sermos levados a confrontar-nos com o nosso lado mais negro e escolher o que pretendemos alimentar em nós, que nos leva à Torre, o rasgar do véu, o quebrar das estruturas podres do Ego, o libertarmo-nos, através da aceitação, através da Fé, do que o mundo da matéria nos traz, o medo, o apego, a dúvida, a inveja, o materialismo. Apenas através da Fé poderemos elevar a Esperança e viver em plena vibração do Amor. Apenas vibrando em Amor poderemos seguir sempre em frente, sem olhar para trás, compreendendo que tudo o que vivido foi teve um propósito, sem nunca dele ficarmos reféns, sem nunca nos transformarmos em sal.

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