O Sal da Terra

20160324

Estamos a viver a semana Santa, uma das mais duras e intensas de que me lembro, com muitas notícias de dor, de tristeza, de muitas mortes, de sofrimento, mas também de ódio, mágoa, raiva, revolta e desespero. Uma semana marcada por um Eclipse Penumbral da Lua, em que muitas das nossas sombras foram iluminadas por uma radiosa e, também um pouco, dura tomada de consciência de caminhos, de escolhas, de sementes plantadas que agora dão os seus frutos.

Contudo, eis que chegados os dias mais importantes da Páscoa, que nos levam a debruçar sobre o verdadeiro significado deste momento. A Páscoa não é um evento religioso, exclusivo de qualquer religião ou linha de crença. Na verdade, é muito anterior às religiões como nós as conhecemos, até porque a Páscoa é uma energia ritualística que vivemos em cada novo ciclo, por nós aberto pelo Equinócio da Primavera, o início do Ano Astrológico, que nos pede o seu verdadeiro significado, a Passagem.

Iniciar um novo ciclo, mudar e transformar, seja o que for, pede-nos que saibamos largar padrões, libertarmo-nos de apegos, de conceitos, de ideias pré-formatadas, de estruturas que, na verdade, apenas nos consomem e, lentamente, nos destroem. Ao longo da nossa vida, assim como em cada ciclo que vamos vivendo, estruturas se criam, muitas vezes construídas por cima de outras que já lá estavam e que achamos que continuamos a precisar. Na ânsia, na necessidade extrema de ter um chão onde pisar, vamos construindo chão em cima de chão, com a satisfação de estarmos mais perto dos nossos objectivos, do tecto que definimos para nós. O problema é que, sem nos apercebermos, o espaço para nos movermos, pois o tecto não sobe, mas o chão, sim, vai-se tornando mais apertado, mais difícil, mais sufocante. Presos aos nossos conceitos e estruturas, deixamos de ser nós, deixamos de poder estar e pé, apenas podemos estar curvados, ou até mesmo deitados.

Então, em todos os tempos, é preciso fazer esta passagem, percebermos que para avançarmos, para podermos cumprir o nosso caminho, para mudarmos a nossa vida, para transformarmos o mundo que nos rodeia, há coisas que temos de deixar para trás, que apenas nos pesam e em nada nos auxiliam a subir a montanha que nos leva à Luz que, na verdade, está dentro de nós, mas que só pode ser revelada quando nos propomos a escalar cada pedaço do trilho, a subir cada degrau da nossa escadaria, a reconhecer a nossa Centelha Divina. Cada passagem implica uma missão maior, simbolizada e materializada pela saída dos Judeus do Egipto, após a passagem do Anjo da Morte que cumpriu a décima praga, o sacrifício dos primogénitos; simbolizada e materializada pela morte de Jesus, primogénito de Maria, Deus Filho de Deus Pai, que se deu em sacrifício com a própria vida terrena para a purificação da humanidade, para que Ele próprio se tornasse o Cristo, protector e orientador da Humanidade.

Em cada novo ciclo que se abre, há uma reflexão a fazer, uma purificação a abraçar, compreendendo, afinal, se estamos bem, se estamos felizes, se estamos a dar valor ao que realmente é valioso nas nossas vidas, se estamos a cumprir o nosso caminho ou se, por estruturas que criámos, que nos ensinaram a criar, que nos disseram que eram as correctas, mas que não nos preenchem o coração daquilo que mais precisamos, de Amor, de Alegria, de Fé, de Felicidade, de Esperança, na verdade, estamos presos e, cada dia mais, vazios de nós mesmos. Essa percepção, essa compreensão, que está a ser potencializada pelos Eclipses que vivemos neste mês, pede também acção, libertação, quem sabe até um sacrifício. No entanto, o que é esse sacrifício comparado com o nosso coração pleno, o nosso propósito a ser cumprido, a sentirmo-nos vivos e não em sobrevivência, amarrados e presos pelo que é do mundo.

Apenas com essa consciência e com a vontade, a persistência e a determinação que reside em cada um de nós, poderemos cumprir aquilo que a Páscoa pede, o nosso próprio renascimento, o resgate da nossa Essência Divina, o reconhecimento do nosso caminho, para podermos também compreender e cumprir as palavras do Mestre: «Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. / Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; / Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.» (Mateus 5:13-15)

Boa Páscoa

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