O Fio da Memória

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O nosso cérebro é uma das mais maravilhosas “máquinas” que existem e que, obviamente, está inserida noutra extraordinária, o nosso próprio corpo. O cérebro e o seu funcionamento são o reflexo micro de uma dimensão muito superior, a do Universo, da dinâmica profunda e especial que ele contém. Dentre as muitas capacidades do cérebro, a da memória é absolutamente fantástica e exemplar, foco de estudos e reflexões, de citações e obras completas. No entanto, acredito que, ainda que a memória esteja muito ligada a questões do funcionamento cerebral, nós contemos outro nível da sua manifestação, tão ou mais importante que a componente mental dessa dimensão.

Como a consciência, a memória (e, no fundo, consciência e memória podem, de alguma forma, ser equiparadas) está dividida em três dimensões, em três parcelas, que se unem e se conjugam. Por um lado, uma dimensão mental, focada em algo mais concreto, ligada especialmente ao tempo e à sua linearidade, marcada pela definição concreta de acontecimentos, situações, pessoas e características. Por outro, uma dimensão emocional, muito mais profunda e importante, ligada à água que existe em nós, ao nosso corpo emocional e, fisicamente, ao corpo físico através das células. Por fim, uma dimensão energética, ligada ao nosso “corpo” espiritual, a que mais reflecte a “realidade”.

Ao longo dos tempos, fui percebendo, até mesmo pela minha própria vida, que a memória mental tem uma característica muito peculiar, a de poder ser altamente falível, não por não nos lembrarmos de determinadas coisas ou do seu momento ou características concretas, mas sim pela modelagem que, muitas vezes, inconscientemente, fazemos das nossas memórias. É muito vulgar encontrar pessoas, tal como eu, com poucas memórias de infância, que têm apenas instantes, como fotografias, ou nem isso, que demonstram a necessidade do cérebro eliminar determinados acontecimentos para protecção da própria sobrevivência da pessoa, não preparada para lidar com aquele tema. Da mesma forma, encontro pessoas cujas memórias não se alinham com o que, por exemplo, o seu próprio mapa astral reflecte, demonstrando uma dissociação entre a percepção, as emoções vividas e o impacto ou função energética.

A memória emocional é a que mais vamos conter através da mente e do ego, filtrando-a e incutindo-a de registos que, muitas vezes, não são reais, não por não serem verdadeiros, porque o são, para um determinado momento, espaço e nível de consciência, mas sim porque não estão ajustados com o propósito energético da situação, do acontecimento, da vivência. Muitas vezes, esse não ajustamento é precioso, é uma barreira profunda e essência de sobrevivência que não podemos descurar ou tentar quebrar rapidamente. No entanto, o grande propósito da nossa vida é o cumprimento do espírito em nós, o que pede a vivência plena em termos de aprendizagem e de crescimento que cada situação nos traz, que pede, no fundo, o resgate de nós mesmos, e tal só pode ser feito através de sabermos quem somos.

Quando unimos a memória emocional à energética, coisas maravilhosas acontecem, libertamos registos desta vida, de vidas passadas e de tantas coisas que carregamos em nós, pois em cada célula está a memória de vidas e vidas, não só as nossas, como as que antes de nós aqui estiveram, através dos nossos pais, avós, bisavós e tantos que, antes de nós, aqui estiveram e nos definiram, sem sequer saber que, um dia, existiríamos. Fazer este trabalho é resgatar a nossa Alma na sua integridade, na sua plenitude, mas tal só pode fazer quando nos respeitamos e honramos, quando quebramos os elos negativos e pesados, fazemos perdões, aceitamo-nos e aos outros, curamos feridas e, assim, amamo-nos.

A memória, no fundo, não é um simples registo temporal, não é composta de acontecimentos ou vivências, é energia que perdura, que fica guardada, que só é possível de aceder quando trabalhamos sobre nós mesmos, quando aceitamos, compreendemos, e honramos tudo o que nos compõe e nos define. A memória é emoção, é amor sublimado ao nível do espírito, que nos pede para entendermos que também somos parte daqueles que antes de nós vieram, essas mães e esses pais, esses avós, bisavós, trisavós e todos os que antes deles existiram, que se doaram, da mesma forma como nós nos devemos doar para criar legados e permanências. Honrar e respeitar, assim como amar, não implica aceitar ou resignar, mas implica reflectir, integrar e libertar, cumprindo um propósito que cada um de nós trouxe.

Na nossa interligação, como um fio que nos une, auxiliamo-nos uns aos outros, cumprimos propósitos, libertamos energias e curamos feridas, propondo-nos a vivenciar questões por vezes dolorosas, por vezes destruidoras. Quando o fazemos, propomo-nos também a, ao trabalhá-las, libertar todos aqueles que delas, através de nós, fazem parte, curando linearidades familiares, karmas e bloqueios, deixando um legado, uma memória, mais plena, limpa e integrada, mais subtil. Nesse momento, coisas maravilhosas acontecem e percebemos que a mais forte memória, aquela que mais importa, é a que nos une para além da vida, a que nos liga para além da matéria, a do amor, que ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço, que dignifica a beleza do que é ser-se humano num percurso terreno.

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