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Quíron em Carneiro – A Chave da Afirmação

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Olhar os tempos que vivemos é ter a consciência profunda e concreta de que vivemos um momento de trabalho sobre limites. A face mais visível deste trabalho é o ambiente crispado e contundente que se vive no panorama económico, social e geopolítico a nível mundial, onde nada nem ninguém fica imune. Compreender este tempo implica uma reflexão profunda sobre esta questão dos limites, em todas as formas como ela se manifesta, algo que não é simples nem fácil.

Desde há poucos anos para cá que se sente tudo, como se costuma dizer, no fio da navalha. Desde a necessidade de criar muros e definir fortemente fronteiras, até ao ímpeto nacionalista que assola o mundo duma forma assustadora, tudo tem levado à amplificação dos níveis de populismo. Todos os dias somos confrontados com o despoletar dum irracional sentimento de fragilidade e de ameaça à identidade, demonstrado pelos impulsos separatistas, pela manipulação das populações e do jogo psicológico que, do panorama político, económico e social, se reflecte num estímulo ao medo.

O trabalho dos limites é um dos mais difíceis, pois ele está intrinsecamente ligado ao trabalho de Saturno, à compreensão e à aceitação da mestria que este planeta nos traz. Saturno é quem nos traz à realidade da matéria, quem nos mostra que, neste plano, precisamos de respeitar o limite, sob pena de perdermos a nossa integridade. No entanto, a nossa relação com a matéria, enquanto seres humanos, está muitas vezes ligada à diabolização, à culpa, à manipulação, ao pecado, fazendo com que tenhamos um problema efectivo para resolver e que, ao atingir um determinado nível, leva-nos aos extremos do nosso ser e de tudo o que existe em e ligado a nós.

Saturno está agora em Capricórnio, trazendo-nos o trabalho da aceitação do que foi construído ao longo do tempo, a tomada de consciência da nossa responsabilidade individual e colectiva desse trabalho e a restruturação das bases que identifiquemos necessárias. Do ponto de vista espiritual, Saturno ensina-nos e relembra-nos que nos propusemos a um trabalho na dimensão terrena, pelo que o condicionamento da matéria necessita de ser trabalhado, pois a encarnação é a entrega à manifestação do espírito neste plano e, para isso, temos de aprender a viver de forma plena, respeitando a beleza, a riqueza e a mestria do elemento Terra.

Os céus têm-nos proposto trabalhar muito o elemento Terra, trazendo-nos uma profunda necessidade de revisão da forma como lidamos com toda a matéria, começando pela própria percepção da Terra, não como um simples planeta, mas sim como um Espírito Vivo, uma Alma maior que nos acolhe, nutre, alimenta e permite que nela possamos evoluir, ao mesmo tempo que, connosco, ela evolui. Por isso, hoje, em cada dia mais, e ainda bem, estamos a falar de clima, da preservação da natureza, das espécies, de ecossistemas, num profundo alerta para o tanto que há a fazer. Esse trabalho tem sido mais profundo, pois o seu tempo de estruturação está mais próximo do final e, como tal, há muito que é preciso reajustar e reequilibrar.

No entanto, em todos os momentos, há uma chave que nos auxilia a trabalhar, que abre as portas e nos permite orientar para novos caminhos e novas descobertas. Essa chave é Quíron, um elemento trabalhado desde os anos 70 na Astrologia, mas que tem uma poderosa função e que, ao olharmos para ele atentamente, poderemos compreender o que nos está a solicitar.

"A Educação de Aquiles por Quíron" - Fresco por Herculeano (Museo Archeologico Nazionale, Nápoles)
"A Educação de Aquiles por Quíron" - Fresco por Herculeano (Museo Archeologico Nazionale, Nápoles)

Do ponto de vista mitológico, Quíron é um Centauro especial, superior aos seus pares, filho de Cronos (Saturno) com uma ninfa, Filira. Metade homem e metade cavalo, Quíron foi abandonado pela mãe, que o recusou pela sua aparência, e adoptado por Apolo (o Sol), que dele cuidou. Apolo ensinou-lhe a sabedoria profunda de tudo o que existe, fazendo com que se tornasse um Mestre, douto em medicina, astronomia, astrologia, filosofia, artes e poesia, mas também desenvolvendo respeitadas capacidades de oráculo. Toda a sua sabedoria fez dele mestre e tutor de muitos dos heróis da Grécia antiga, como Aquiles, Jasão, Teseu ou Héracles.

Contudo, é a sua morte que o coloca verdadeiramente no plano astrológico. Numa rixa iniciada num jantar aquando da visita de Héracles ao seu mestre, Quíron é acidentalmente atingido por uma flecha envenenada, lançada pelo seu discípulo. Sendo imortal, Quíron entra num profundo sofrimento, pois ainda que fosse capaz de todos curar, não o conseguia fazer consigo mesmo. Para cessar o seu sofrimento, Quíron sacrifica-se e, através dum acordo entre Héracles e Zeus (Júpiter), troca a sua imortalidade com a vida de Prometeu. Em sua honra, Zeus transforma-o numa constelação, a de Sagitário.

Astrologicamente, Quíron é a ponte entre Saturno e Úrano, entre o limite do conhecido e a entrada no desconhecido, a vivência kármica da ferida que carregamos ao longo do nosso percurso, algo que conseguimos projectar e fazer muito bem nos outros, mas que, para nós, somos incapazes de o fazer. Quíron é uma ferida que não pode ser curada, que tem de ser integrada, com a qual necessitamos de viver, para que ela se torne a nossa própria transformação e nos dirija para o nosso propósito maior. É ele, com a evidência desta ferida, que nos recorda de que somos um Espírito encarnado numa vida terrena, num propósito de evolução e desenvolvimento. É Quíron que nos lembra que não somos um corpo, que o corpo é apenas o veículo para que o Espírito se possa manifestar neste plano.

Quando passamos para um ponto de vista do trabalho da humanidade e a sua repercussão para o mundo em que vivemos, Quíron, no seu ciclo, revela-nos as feridas que a humanidade, através das sociedades que a compõem, tem de trabalhar, trazendo-nos uma espiral de evolução que conecta uma amplitude de gerações, unindo-as num propósito. O ciclo de Quíron leva entre 49 e 51 anos, meio século dum trabalho profundo, com vista a elevar as consciências individuais, assim como da humanidade no seu todo.

(…) Quíron em Carneiro pede-nos a tomada de consciência da presença no aqui e no agora, nas nossas vidas, e o assumir da encarnação como um poder profundo de manifestarmos o nosso Espírito no seu esplendor. Se a nossa força não se manifestada, ela é depositada no outro e hipotecada em nós, levando a caminhos muito perigosos.

Quíron é, sem dúvida nenhuma, uma chave, e, nos dias que correm, precisamos de tomar atenção ao seu trabalho, até porque ele está no signo de Carneiro desde 2018, tendo voltado durante alguns meses a Peixes, mas no início deste ano integrou a energia do primeiro signo do Zodíaco em definitivo, onde estará até 2027 (ainda que com uma ligeira passagem em Touro durante o ano de 2026). Quando um planeta volta a Carneiro ele inicia um novo trabalho de integração, arrancando um novo ciclo de aprendizagem da espiral da sua evolução e, por isso, necessitamos de aprender com o que ele nos está a ensinar agora.

Quíron em Carneiro traz-nos o evidenciar da ferida da afirmação e da encarnação, dando o primeiro passo para o trabalho profundo da elevação do sentido da identidade no seu caminho para a manifestação da individualidade. No fundo, quando Quíron transita em Carneiro, ele mostra-nos que chegou o momento de dar mais um passo na evolução da percepção de nós mesmos e da compreensão do veículo da encarnação que é a presença num tempo e num espaço, através do corpo, como uma forma de cumprir as revelações que foram trazidas pelos signos anteriores. Dado que Quíron tem uma trajectória irregular, o seu tempo nos vários signos é diferente, sendo que em Carneiro é onde ele passa mais anos, e o seu signo complementar, Balança, é onde passa menos tempo, menos de um ano.

Quando nos debruçamos para o tempo presente, com Quíron no início de Carneiro, vemo-nos na manifestação de quem somos, na necessidade profunda duma afirmação da nossa identidade, da nossa vontade, do nosso propósito. Quando não o fazemos por nós, alguém o fará, e isso, quando Quíron está em Carneiro, é o despoletar duma impotência, do nosso espírito guerreiro, da nossa força interior. Então, Quíron em Carneiro pede-nos a tomada de consciência da presença no aqui e no agora, nas nossas vidas, e o assumir da encarnação como um poder profundo de manifestarmos o nosso Espírito no seu esplendor. Se a nossa força não se manifestada, ela é depositada no outro e hipotecada em nós, levando a caminhos muito perigosos.

No século passado, Quíron esteve em Carneiro em dois momentos cruciais da nossa história. O primeiro foi na fase final da Primeira Guerra Mundial, entre a Primavera e o Verão de 1918, quando os Aliados começam a derrotar as tropas alemãs em toda a linha e precipitam ao final da guerra. No entanto, se quisermos encontrar o momento que mais se assemelha ao que vivemos hoje, necessitamos de ir a 1968, quando Quíron entrou, a 1 de Abril, em Carneiro, alimentando um movimento que, em um mês, mexeria com sociedades ao longo de todo o mundo, o Maio de 1968.

FRANCE. Paris. 3th arrondissement. Rue Beaubourg. Segunda, 13 de Maio de 1968. Alunos e Trabalhadores em protestos, da Place de la Republique até Place Denfert-Rochereau (14th). © Guy Le Querrec/Magnum Photos

Para termos noção e percepção, a 2 de Maio de 1968, jovens universitários iniciam protestos contra posturas conservadores, alimentados pela necessidade de uma mentalidade mais fresca, mais actualizada perante os hábitos castradores da sociedade daquele tempo, assim como pelo que se passava no mundo, nomadamente a Guerra do Vietnam, solicitando uma renovação de valores e de consciências. Em poucos dias, um simples protesto estudantil levou a uma resistência, com actuação da polícia e a estabilização dum, praticamente, estado de guerra em plena Paris. A meio de Maio os trabalhadores também se juntam, fazendo uma greve geral de proporções gigantes, pedindo melhores condições de trabalho. Tudo isto levou à convocação de eleições antecipadas por Charles de Gaulle.

Ainda que, nessas eleições, as forças conservadoras tenham saído vencedoras, o movimento que aí foi iniciado mudou os contornos do mundo, atravessando fronteiras e oceanos, dando início e juntando-se a outros movimentos. Independentemente das opções ou preferências políticas, da opinião de que o resultado levou a situações que, hoje, mostraram-se complexas e, em algumas situações, catastróficas, a verdade é que foi este tempo que abriu portas a muitas mudanças e alertou para a necessidade de uma renovação de valores e de conceitos, para a consciência dos direitos e liberdades individuais, algo que foi elevado durante os anos 70 do século XX, com um movimento libertador a todos os níveis.

Hoje, cerca de 51 anos depois, temos Quíron nos mesmos graus iniciais de Carneiro onde estava em Maio de 1968, e temos também jovens mobilizados para a transformação da sociedade. Em Hong Kong, jovens manifestam-se para a reconquista da democracia, deste lado do mundo, Greta Thunberg, uma jovem de 16 anos, dá a cara e mobiliza inúmeros jovens por todo o mundo ocidental, a manifestarem-se em prol da consciência acerca das alterações climáticas e da necessidade da mudança dos sistemas. Tal como em 1968, as velhas estruturas protegem-se e reagem, como o nosso conhecido Velho do Restelo, fechadas no proteccionismo pleno, não vendo que muito do que defendem já não existe, está caduco e quebrado, a necessitar de nova energia, dum novo ar.

Se em 1968 tínhamos uma forte energia de Carneiro a ser manifestada, assim como Úrano e Plutão em Virgem, hoje temos uma forte energia de Capricórnio a ser trabalhada. Dum ponto de vista multidimensional, é curioso percebermos que o grau onde Plutão está hoje é o mesmo em que estava aquando do Maio de 68, mas noutro signo de Terra, fazendo com que haja uma ligação de activação entre estes dois momentos em termos de transformação das sociedades e da humanidade. Não só essa activação existe entre o Plutão nesse momento e o actual, como também entre o Plutão no tempo actual e o Saturno desse momento, revendo e reestruturando o que foi despoletado e integrado naquele tempo, mas também, e muito importante, entre Neptuno no seu trabalho actual, que limpa e purifica, humaniza e eleva para um amor maior o trabalho de Plutão desse tempo. Sem dúvida, existe uma extraordinária sincronicidade entre estes dois momentos no tempo, algo que nos revela a importância e a dádiva do Universo para este momento.

Sintonia entre Maio de 1968 (roda interior) e o momento actual, neste mapa manifestado pelo momento da Cimeira do Clima de 2019 (roda exterior)

Quíron em Carneiro traz-nos o ímpeto do fogo primordial que existe em nós, como a faísca que irá acender uma lanterna que, pelo amplificar desse fogo, trará luz a tudo o que a rodeia. É apenas quando somos pressionados contra o nosso limite, encurralados nas restrições que nós próprios construímos, alimentámos ou compactuámos, que temos a capacidade de desconectar os nossos mais pesados mecanismos de controlo. É aí que a nossa força interior, o nosso impulso primordial, se revela em toda a sua força. É o sacrifício de Quíron que permite a libertação de Prometeu, aquele que roubou o fogo dos deuses para levar aos humanos e possibilitar a sua evolução.

Os tempos que vivemos evidenciam-nos as feridas que existem neste fogo interno e mobilizador, pois o sentido da vivência do limite orienta-nos para o espelho que o outro nos traz e do qual necessitamos para crescer. Carneiro é o guerreiro, a força primordial, a fagulha que irá alimentar a Centelha Divina, é verdade, mas quando acendemos uma luz, as sombras também se manifestam, e a fagulha que se acende e que faz faíscas, também projecta muitas das trevas.

Por isso, nestes tempos de Quíron em Carneiro, com a força mobilizadora de Capricórnio, activada por Saturno e Plutão (e em breve, também, Júpiter), e com o questionamento de estruturas e valorização de Úrano em Touro, a Luz que sai revela as sombras mais profundas, e tal assusta, faz-nos retrair, confronta-nos com o que de mais desafiador existe em nós, o mais duro e difícil, os monstros mais feios e violentos. Isso pede-nos para sairmos da máscara individual, social, política, financeira, económica, sistémica, religiosa e espiritual que construímos como estrutura, e deixemos a profundidade de todos os nossos sentimentos, dos mais belos aos mais horrendos, virem cá para fora.

Como uma chama que se acende, mesmo sem que para isso tenhamos contribuído, dentro duma caixa que se está a quebrar, por entre as frestas a luz sai e, com o calor e a pressão, mais cedo ou mais tarde, algo tem de ceder. Se a Luz não sair, ainda que todas as estruturas se mantenham nas suas formas exteriores, por dentro lentamente se consumirão e, mais cedo ou mais tarde, como a podridão duma fruta que se revela de dentro para fora, nada mais restará. Então, o que Quíron nos pede é que nos desafiemos a quebrar os nossos limites e a viver com a ferida que trouxemos e que se evidencia agora. Quanto mais tentamos calar essa voz, mais ela se afirma, com mais garra e força, vibrando de forma cada vez mais intensa e irrepreensível, pois, ao mesmo tempo, mostrará tudo o que contra ela tenta chegar. Se olharmos atentamente ao mundo em que vivemos hoje, é isso que vamos ver.

Nova Iorque, 23 de Setembro de 2019: Greta Thunberg fala nas Nações Unidas na Cimeira das Alterações Climáticas. (Foto por Spencer Platt/Getty Images)

Veja-se, por exemplo, que Greta Thunberg, capricorniana, nascida com Sol e Quíron conjuntos, é a face mais visível deste movimento actual, criticada e atacada das mais diversas formas, pois tem-nos trazido, mais do que o movimento, o quebrar da caixa e dos limites. Rapariga, adolescente, com Síndrome de Asperger, vindo de um dos países mais avançados do mundo, falando com uma garra, uma raiva e uma intensidade desconcertantes, ela tem levado a que as velhas estruturas se defendam, precisamente, atacando-a na sua imagem, nas suas capacidades, mas raramente no conteúdo que ela apresenta e defende, como uma tentativa de criar um exercício de distração que apenas lhe dá ainda mais força.

A força de Quíron não se demonstra pelas armas utilizadas ou pela força usada, nem mesmo estando em Carneiro, mas sim pela evidência do que simplesmente é, pela activar da ferida, pelo tocar nos pontos chave, pelo fazer pensar e sentir para, por fim, sabermos que aquela é a Verdade, não a desta miúda, dos jovens de Hong Kong ou de outra qualquer pessoa ou grupo, não a da ciência ou dos sistemas políticos, económicos e sociais, mas sim a nossa, trazida pela afirmação de quem somos, na plenitude do que escolhemos e nos propomos a ser. Quíron é sempre uma ponte que une o conhecido que precisa de ser revisto, que é sempre uma zona de conforto e de segurança, e o desconhecido, que assusta, que mete medo, que não controlamos. Por isso ele é uma das grandes chaves do momento presente e que irá, nos próximos anos, activar muito mais do imaginamos ou podemos conceber, que irá, certamente, integrado com os grandes forjadores de transformação do nosso sistema, levar-nos a um novo patamar da nossa existência humana.

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