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Um Tempo de Mestria

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O ser humano tem, por natureza, uma aversão à dor e ao que, no seu entender, é mau, negativo e o faz sofrer. Quando algo nas nossas vidas nos leva à simples perspectiva de vivermos tal condição, o nosso instinto, o nosso ego, actua no sentido de eliminar essa questão, como os anticorpos que o nosso sistema produz para combater uma doença. Contudo, esse é um processo instintivo, de pura sobrevivência, que, sim, é muitas vezes essencial, mas que pede também um trabalho de consciência profundo que não pode ser minorado ou ignorado, sob pena de não resolvermos verdadeiramente a questão que esse “problema” levantou.

O momento que vivemos é único, e tal é indiscutível. É único, pois vivemos, desde que temos memória, algo global, sim, mas transversal, algo que não discrimina ninguém por sexo, cor, credo, orientação ou qualquer outra questão, algo que nos toma todos por iguais e que nos atinge de forma tão rápida, incisiva e silenciosa, que activa muitos dos nossos medos e levanta algumas questões muito profundas em nós. Invariavelmente, a nossa natureza pede que isto acabe, que termine rápido, que deixemos de sofrer, que acordemos disto como se fosse um pesadelo. No entanto, tal não é possível.

Quando vejo, um pouco por todo o lado, as pessoas ansiosas que isto acabe, a malta da “espiritualidade” a fazer meditações para limpar o vírus do planeta, certas vertentes religiosas a banir o bicho e a atribuir a sua existência a um Mal que tem um nome, o que sinto é que, enquanto humanidade e enquanto seres espirituais, temos ainda muito a fazer e que caminhar. Ao contrário do que a última frase possa mostrar, entendo perfeitamente estas posições, compreendo a sua existência, até, em muitos momentos, posso sentir algo semelhante, mas quando paramos para pensar e sentir, ou seja, para tomar consciência do processo, a nossa perspectiva, invariavelmente, muda.

Acredito, e cada dia mais o comprovo, que tudo está no sítio certo e na hora exacta, que nada está fora do seu lugar, que tudo tem um propósito, não há coincidências nem acasos. É inocente, ingénuo mesmo, simplesmente tentarmos eliminar algo das nossas vidas sem compreender o seu propósito, sem extrair a sua mestria. No fundo, é como tomar um comprimido para tirar uma dor de cabeça sem perceber a sua origem, ela voltar e tomarmos mais um, e assim sucessivamente, simplesmente porque não queremos explorar a razão e trabalhá-la devidamente.

Claro que precisamos de agir, de tratar, de actuar muito rapidamente e procurar uma solução, uma cura, um medicamento, uma vacina. Claro que precisamos de reagir, pois tudo isto nos apanhou de surpresa, mas cada um de nós precisa de compreender o seu papel em tudo o que estamos a viver. Mais do que nunca, perante a pandemia que vivemos, cada um de nós é um agente activo e essencial no combate e no travar do avanço do problema.

Contudo, é curioso que a forma mais eficaz, para a maior parte da população mundial, de agir e actuar sobre a questão, seja reservar-se, parar ou, pelo menos, reduzir o seu ritmo, cuidar de si, do seu corpo físico, da sua mente e lidar com as suas emoções. É curioso, pois isso mostra-nos que há um pedido importante, um apelo, para que olhemos para nós, para que nos voltemos para o nosso centro, para que compreendamos o papel e o lugar que ocupamos, não no problema em si, mas em nós mesmos.

Se acredito que tudo tem um propósito, acredito também que uma doença física tem um propósito maior, pois ela é o reflexo mais grave e profundo de um problema que não foi tratado nem trabalhado, que pertence a outros planos do nosso ser. Nesse mesmo sentido, uma pandemia, uma doença global, com as características que estamos a ver, e que me estou a dedicar a explorar num outro artigo em breve, reflecte não apenas questões individuais, mas um problema muito superior. No fundo, esta é uma doença da humanidade e, a meu ver, tem um propósito concreto: fazermos uma escolha sobre a nossa condição humana.

Há uma sabedoria que necessitamos de extrair desta situação, há uma mestria que podemos adquirir e elevar em nós, não só individual, mas também colectiva e socialmente, assim como Humanidade. Em tudo o que vivemos e passamos há uma dádiva de crescimento, e tal consciência não é romantizar a situação. Da mesma forma, não podemos simplesmente pensar que vai ficar tudo bem e que vamos voltar ao normal. Tal não é possível nem sequer faria sentido! É preciso vermos com um profundo realismo o que estamos a viver, abrir a nossa visão exterior, mas acompanhá-la da nossa visão interior, unir a mente e o coração no mesmo foco e propósito, pois só assim poderemos agir de forma consciente e elevada perante a questão.

O que estamos a viver precisa de nos impulsionar a sermos melhores como pessoas, como humanidade, a termos a coragem de fazer diferente, começando por nós mesmos, individualmente, em cada dia, em cada situação, em cada momento. É dessa forma que conseguiremos perceber a mensagem profunda, em termos individuais e colectivos, que nos está a ser transmitida e, assim, chorar as vidas perdidas, curar as feridas, apaziguar os corações e elevar a nossa consciência para, com o seu devido tempo e no seu ritmo próprio, fazer as mudanças que forem necessárias, transformar o que precisar de ser transformado.

A humanidade não muda nem se transforma em pouco tempo, numa geração, numa década ou duas, mas sim continuamente, e isso faz-nos compreender que este tempo, ainda que seja, na verdade, um instante, é fulcral e crucial, pois em todos os processos de evolução há momentos charneira. No fundo, este é o instante em que, ao subirmos um degrau, os pés não estão assentes em base alguma, aquele instante que, apesar de indefinido e imprevisível, apesar da incerteza e da confusão, sabemos, sentimos, que não podemos desperdiçar.

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Comments (1)

Margarida Marmelo

Obrigada Leonardo!
É assim mesmo. Não podemos desperdiçar este momento de paragem, reflexão, emoção, aprendizagem.
Só assim conseguimos continuar caminho de cabeça levantado e olhando a nossa volta sentindo a irmandade, a humanidade pulsar também em nos.
Obrigada por estares neste mundo, neste tempo.
Abraço grande!
Margarida Marmelo

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