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O Caminho do Meio

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Os tempos de maior crise, aqueles em que o caos se parece instalar e em que tudo parece fugir do nosso controlo, quer seja numa esfera individual ou, como também vivemos, na nossa sociedade, na humanidade e no mundo, são, na verdade, tempos de grande crescimento. Na verdade, quanto maior o caos, maior a possibilidade de crescimento e transformação, e esta poderia ser, muito facilmente, uma imagem do mundo em que vivemos hoje. O grande problema, tão visível hoje que até se torna palpável, é que estes grandes movimentos trazem com eles a vivência e a manifestação de extremismos, algo que deriva de profundas confrontações internas que se materializam depois em conflitos, em posições exacerbadas e em enormes tensões.

Dizem-nos os mitos primordiais que no início dos tempos apenas havia o nada, o vazio, a escuridão, as trevas, e que daí surgiu a luz, o tudo, a vida. Desse momento primeiro nasceu também a base de todos os nossos desafios: a dualidade. A Luz e a Sombra, o Bem e o Mal, o Espírito e a Matéria, simples divisões que parecem, aos olhos de quem as apregoa, pacíficas. Contudo, o ser humano é, também ele, fruto desta mesma dualidade em tudo o que nós somos, e essa verdade amplifica o problema, da mesma forma que nos traz a solução.

Durante milénios temos vindo a ser ensinados que um dos lados precisa de ganhar, mesmo que para isso tenha de eliminar por completo o outro. Durante milénios alimentámos a crença que nós somos os bons e os outros os maus, que nós somos a luz e os outros a representação da sombra. Contudo, sem percebermos, a crença que nos foi incutida moldou-nos e quebrou uma parcela muito importante da nossa essência: a percepção da nossa totalidade, mesmo que numa vivência de aprendizagem através da dualidade. Fomos empurrados cada vez mais para a densidade e ainda o somos, todos sem excepção, e de formas muito mais subtis. Com isso, cristalizámos e os tempos que estamos a viver são, precisamente, os de quebrar estruturas caducas, de rever valores obsoletos, de libertação para voltarmos a entrar em conexão com a nossa essência.

Caim e Abel – Giovanni Domenico Ferretti – 1740

Entre os muitos binómios que representam a dualidade, há um que precisa muito de ser trabalhado, que é o reflexo de todos os outros, como é óbvio, mas que tem para nós uma expressão muito superior. Amor e Medo são duas faces da mesma moeda, são dois pares que, mais do que nunca, necessitam de ser integrados. Quando Caim mata Abel e as escrituras nos referem a ira que o tomou, na verdade podemos encontrar nele o medo, pois foi o medo de não ser aceite que despoletou essa tal ira que o consumiu e o levou a perpetrar o mais sombrio de todos os actos, o de tirar a que de mais precioso existe na Terra, a vida. Quando olhamos para este episódio, se o virmos com olhos de ver, reconhecemo-lo na humanidade que somos hoje.

É o medo que nos consome, o medo da rejeição, da não aceitação, da recusa, da perda de valor, de segurança, de recursos. Com esse medo levantámos barreiras e começámos a competir, incitados e incitando a uma perpétua divisão, a uma crença dum eterno “um contra o outro”, a um braço de ferro constante, à crença de que existem dois lados, e que o meu é o certo. É daqui que nascem os grandes problemas que nos têm vindo a acompanhar e a alimentar a nossa construção. É com o medo que convivemos em cada momento e é através dele que criamos muitas das crenças dogmáticas que nos levam a apontar os dedos e a julgar os outros. O medo, como dizia essa magnífica personagem da Guerra das Estrelas, o Mestre Yoda, leva à raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento, e esse seria o caminho para o lado negro da Força ou, por outras palavras, essa seria a estrada para o nosso inferno, o encerramento da nossa Centelha e o bloqueio da nossa própria divindade.

Quando olhamos para os tempos que vivemos, sentimos que o medo está muito palpável, de tal forma que nos leva a opções e visões completamente inconscientes. Não é por um acaso que continuamos, ainda durante o resto deste ano, do ponto de vista da energia celeste, a trabalhar muito profundamente a Terra, o Fogo e a Água, e a preparar muito fortemente o trabalho sobre o elemento Ar, o da mente, do discernimento, da compreensão. Verdade também é que, quando ele voltar a ser trabalhado intensamente, será sobre o domínio da compreensão e do discernimento, do qual dependem, e muito, a forma como alimentamos a nossa mente.

Procuramos e identificamos uma espécie de antídoto para o medo, e até o chamamos de Amor. No entanto, o medo não precisa de antídotos nem de curas milagrosas, ele só precisa mesmo é de amor. Da mesma forma que é a matéria apodrecida pelo Outono, pelas chuvas e pelo ambiente, que irá ser absorvida pela terra, tornando-se o alimento das plantas que irão nascer na Primavera seguinte, e da mesma forma que só conseguimos transformar a nossa vida, quebrar padrões e encontrar a felicidade quando integramos os desafios, dificuldades e dores que passámos, também para encontrarmos um discernimento e um Amor verdadeiramente maior, aquele que nos preenche e eleva, a nossa Luz, precisamos de quebrar estruturas densas do nosso ser, integrar as nossas sombras, mergulhar nos nossos medos e abraçá-los, não para partilhar da sua energia, mas sim para compreender que eles fazem parte de nós e da aprendizagem do que é Ser Humano.

Este é, possivelmente, um dos maiores desafios que a vivência terrena nos apresenta, que só se manifesta quando somos capazes de discernir, compreender, aceitar e amar todas as visões, encaminhando-as na sua unicidade para um objectivo comum. Diz-se que estamos a caminhar para a Era de Aquário e este é o verdadeiro propósito deste Signo, o da manifestação da individualidade divina que existe em cada um de nós e a preparação dessa consciência para a entrega ao Todo. Para tal, não posso continuar a alimentar o medo da separação, da perda ou da desvalorização de quem eu sou, algo que nos tem pautado o caminho e a falta de verdadeira compreensão de nós mesmos.

O percurso que nos é proposto é para dentro, em profundo amor e compaixão, abraçando as nossas feridas, as parcelas de nós que provêm das mais diversas origens, das nossas vivências de infância, dos traumas e dores conscientes e inconscientes, das nossas memórias kármicas. À medida que as vamos resgatando, que as vamos evidenciando e trabalhando, os nevoeiros se esbatem e dissipam, os caminhos se abrem e vamos compreendendo o que tudo o que estamos a viver nos ensina, a escada que nos coloca à nossa frente e a força que nos está a dar.

Abraçar os nossos medos é sermos capazes de nos aceitar nas nossas, supostas, imperfeições. Para tal, precisamos de deixar de ver como perfeito algo que almejamos atingir. Uma das facetas mais visíveis e plenas desta consciência é a imagem generalizada que temos de Deus como ser perfeito que nos gera, também perfeitos. No entanto, somos tentados por um suposto Diabo, que passa a justificar as coisas más, culpado de tudo o que de mau há no mundo. Esta história, moldada para alimentar os nossos medos através da culpa, do não merecimento, do castigo e da punição, trazida desde o início dos tempos, na verdade, transformou-nos no Diabo por si mesmo, não só de nós como dos outros. O medo gera a raiva e a raiva gera o ódio e, sem nos apercebermos, é o ódio que nos consome.

Assim nascem as guerras, as doenças e os problemas, a falta de prosperidade e a destruição do nosso verdadeiro valor. Assim deturpamos ideias e conhecimentos, alimentamos crenças bloqueadoras e castradoras, desde a barriga da mãe, passando pelo berço e até ao final da nossa vida, se for preciso, ou até ao caos se instalar na nossa vida, até perdermos o controlo de tudo e sermos levados ao nosso limite, até sermos quebrados e vergados nas nossas estruturas materialistas, às vezes das formas mais subtis, outras bem violentas.

Quando um vírus invisível nos transforma a vida, como o momento em que vivemos agora, há um caos, uma quebra, e quanto mais lhe resistimos, mais o medo nos povoa e nos alimenta, mais a raiva, a revolta e o ódio nos consomem, mais nos destrói por dentro e isso, mais cedo ou mais tarde, passa para fora. No entanto, não pensemos nós que alimentar ideias de teorias de conspiração ou negacionismos, vivências ingénuas de suposta consciência que nada mais são do que algo que já conhecemos de outras formas, um desligar da Terra, da realidade, do concreto e do nosso papel profundamente importante neste tempo e neste momento, baseados num suposto discernimento superior, é melhor.

Quando alimentamos essa postura continuamos nos extremos, a tentar procurar uma justificação exterior para algo que, na verdade, só encontrará solução dentro de cada um de nós e dentro da própria consciência colectiva que vamos trabalhando. Não pensemos, de forma também ingénua e inocente, que vai ficar tudo bem e que todos vamos entrar numa espécie de despertar colectivo, pois tal não irá acontecer. Não é esse o propósito e não é esse o caminho, nem tal faria sentido.

O tempo que vivemos, em especial neste final de um dos anos mais importantes para a humanidade do ponto de vista da sua evolução, é um momento que nos pede o mergulhar dentro de nós, a busca verdadeira por nós mesmos, por nos conhecermos e compreendermos, por nos revelarmos. Como podemos mudar os nossos caminhos sem sabermos para onde precisamos de ir? Como podemos ser felizes profissionalmente ou dentro dum relacionamento se não sabemos o que nos move, o que nos preenche, o que somos e o que temos para dar?

O percurso que nos é proposto é para dentro, em profundo amor e compaixão, abraçando as nossas feridas, as parcelas de nós que provêm das mais diversas origens, das nossas vivências de infância, dos traumas e dores conscientes e inconscientes, das nossas memórias kármicas. À medida que as vamos resgatando, que as vamos evidenciando e trabalhando, os nevoeiros se esbatem e dissipam, os caminhos se abrem e vamos compreendendo o que tudo o que estamos a viver nos ensina, a escada que nos coloca à nossa frente e a força que nos está a dar. É assim também que percebemos que em nós a Luz só se reconhece quando a Sombra é também integrada, que nada neste plano existe e se realiza sem o caos, pois é ele que traz ao de cima o que precisa de ser trabalhado, que nos mostra o que precisa de ser limpo e que nos coloca nas mãos o poder de nos libertamos das amarras para caminharmos no sentido do que mais divino existe em nós. Este é o verdadeiro caminho do meio que precisamos de percorrer.

É preciso, no entanto, perceber que estes são também tempos implacáveis, onde tão grande é o potencial de crescimento, de evolução, de discernimento e de amor, como do seu inverso. Por isso nos sentimos, de forma generalizada, numa espécie de equilibrismo, como se andássemos num fio, sem rede, e às vezes com o acrescento de termos uma espada no topo da nossa cabeça. Sim, o desafio é forte, mas tal apenas o é, pois o que nos é proposto e o que nos está a ser oferecido é verdadeiramente gigantesco. Não há mais tempo a perder, a brincar ao que poderá ser humano, ao tapar de olhos perante as urgências do nosso tempo, como a fome, as alterações climáticas, o abuso de recursos, as guerras e a destruição. Tal começa em cada um de nós, individualmente, quando deixamos de alimentar os nossos mecanismos de controlo, os nossos medos e dependências, quando largamos o que precisa de ser largado e cortamos fios que nos prendem, quando, no fundo, escolhemos ser, verdadeiramente, nós mesmos. É apenas dessa forma que também mudaremos o mundo que nos rodeia e, por muito que procuremos, não existe caminho alternativo.

Imagem de capa por Ray Fragapane @unsplash

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