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As Guerras que Nos Habitam

20210606asguerrasquenoshabitam

Ao longo do nosso caminho, do nosso percurso de vida, da nossa construção enquanto seres, somos moldados pelas coisas que nos vão acontecendo, pelo que nos vai sendo ensinado, consciente ou inconscientemente. Se as situações e ensinamentos bons nos ajudam a crescer, o facto é que são os desafios, as dificuldades, os obstáculos, que realmente nos impulsionam a desbloquear processos e nos levam a evoluir. A evolução nunca é um processo simples ou bonito, bem pelo contrário, ela leva-nos através da dor de crescer, orientando-nos no largar de tudo o que não faz parte do nosso caminho, no quebrar das cristalizações e calcificações que vamos gerando, até ao momento em que morremos para quem éramos, dando espaço para o nascimento de um novo eu.

No entanto, todo este processo é profundamente doloroso, por vezes difícil de compreender e integrar, nomeadamente quando somos pequenos, quando somos crianças e estamos a apurar a nossa personalidade e a definir a nossa identidade. Nesse tempo, absorvemos o mundo que nos rodeia e mesclamo-lo com as bases daquilo que somos, recebemos sementes no nosso solo extraordinariamente fértil e o que chega até nós, germina, cresce e, por fim, floresce. Ao longo do nosso percurso, nomeadamente no mundo em que temos vivido ao longo destas últimas décadas, somos ensinados, de forma directa, mas também por via do exemplo, que nada é simples, que tudo vem por via da luta, da dor, do sofrimento, das batalhas e da grande guerra que é a própria vida.

Essa crença, alimentada e amplificada pelas situações que vamos vivendo, que nos “provam” que é realmente assim, vai-nos definindo e criando em nós arestas muito agressivas e dolorosas, cicatrizes que estão sempre a ser dignificadas, pois um guerreiro sem elas não foi, não pode ter sido, um guerreiro a sério. O grande problema é quando a vida quer dar-nos mais, quer oferecer-nos o que ela tem de maravilhoso, quer fazer-nos a sua divina dádiva, pois foi o que definimos para o nosso percurso, e bate de frente com todo um mundo destruído, violento e implacável que existe dentro de nós. No mesmo sentido, quando num momento tão peculiar como o que estamos a viver, as feridas sociais e humanas gritam à nossa volta, quando o medo quase se consegue tocar com as nossas próprias mãos, as guerras que existem dentro de nós vêm ao cima, extremam-se e consomem-nos, perpetuando um caminho e uma vivência de profunda dor.

Ao longo do nosso caminho, da nossa construção enquanto seres, é-nos ensinado que nada é-nos dado, que nada é garantido, que tudo é conquistado por via do sangue, do suor, das lágrimas, do sofrimento. Sem toda essa parafernália emocional, não acreditamos que aquilo é bom, que é correcto, que é justo, pois se chegou até nós sem esforço, é porque há-de chegar algum desafio em breve.

Encontramos, muitas vezes, pessoas, muitas pessoas, cuja realidade de vida é, única e exclusivamente, uma guerra, uma espécie de cruzada constante contra um inimigo que, tantas vezes também, nunca, na verdade, viram. Em nós mesmos, essa é uma realidade, um pressuposto de existência, pois em cada um de nós existem essas mesmas crenças, essas guerras, mesmo quando nem sequer as conseguimos identificar. Ao longo do nosso caminho, da nossa construção enquanto seres, é-nos ensinado que nada é-nos dado, que nada é garantido, que tudo é conquistado por via do sangue, do suor, das lágrimas, do sofrimento. Sem toda essa parafernália emocional, não acreditamos que aquilo é bom, que é correcto, que é justo, pois se chegou até nós sem esforço, é porque há-de chegar algum desafio em breve.

Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe, lá diz o adágio popular, transmitido de geração em geração, representativo duma crença social profunda, que nos tem moldado, não só aqui no nosso cantinho português, mas um pouco por todo o mundo. A religião, nas suas mais diversas vertentes e linguagens, ensina-nos isso mesmo, a necessidade do sacrifício constante, da dor exacerbante, o único garante de que a bênção é divina, pois se for fácil é por via da luxúria, é coisa dum qualquer diabo de costas largas que palpita no nosso imaginário. O que nunca nos ensinaram, até porque dificilmente o compreendem, é que a dificuldade, a dor, as pedras pontiagudas, as silvas, são um caminho, sim, mas não um peso que temos de carregar, fazem parte do processo, mas não são o castigo que nos calhou por via do pecado capital. É através da dor que crescemos, é através das dificuldades que nos fortalecemos, é através dos desafios que nos tornamos sábios, mas eles não se podem perpetuar em nós, eles são etapas, são pontos de evolução, não são a retribuição, não são a contrapartida.

Assumimos tantas vezes que o único caminho para a felicidade é a guerra, a batalha, a luta, mas que seremos recompensados com coisas boas no final. Isso limita-nos a ambição, castra-nos o poder, restringe-nos o potencial, vicia o jogo que é a própria vida. Carregamos em nós essas guerras, alimentamo-nos delas, e algumas nem sequer são nossas, são dos nossos pais, das nossas famílias, amplificadas gerações após gerações, da sociedade em que estamos inseridos, destruindo a capacidade de nos superar-nos, de nos elevar-nos, de nos transcendermos, apenas e unicamente a nós mesmos. As guerras que nos habitam consomem-nos, dia após dias, destroem o nosso brilho, a nossa capacidade de olhar a vida pelo olhar do Espírito, o olhar curioso e divino duma criança.

O Grito – Edvard Munch (1910) (Fonte: Google Art Project)

Muitas vezes precisamos de mergulhar dentro de nós para nos observarmos e percebermos quais são as guerras e as batalhas que alimentamos, para compreender se são verdadeiramente nossas ou se são crenças que nos foram implantadas, se são desafios próprios ou tão simplesmente o arrastar de padrões que estão registados nas nossas raízes, na nossa ancestralidade. Quando acreditamos que esse é o caminho, deixamos de ser nós mesmos, esquecemo-nos da nossa essência, destruímo-nos sem sequer ter a noção de que o estamos a fazer. No entanto, quando nos permitimos ver para além dessas barreiras, existem milagres que se realizam, centelhas que despertam, luzes tão belas que se acendem e que nos trazem esperança de tempos diferentes, de um mundo melhor.

Escolher estar em paz connosco é uma atitude profundamente divina, pois ela advém da capacidade de nos amarmos, independentemente de todas as imperfeições que em nós podemos ver. Quando escolhemos a paz em nós, compreendemos que tudo o que chamamos de imperfeito é uma percepção terrena, humana, viciada ao longo de milénios para condicionar a nossa capacidade de sermos únicos, de trazermos a nossa individualidade a este mundo e o presentearmos com o que temos de especial. É nesse condicionamento que a nossa força, sem termos consciência, alimenta o poder que outros ambicionam ter, não para fazerem coisas bonitas, mas sim para se sentirem vivos, pois perderam a capacidade de se verem na sua beleza única, pois sofrem dentro de si mesmos, pois vivem, também eles, guerras horrendas e dolorosas.

Amar-nos, tolerar as nossas coisas menos bonitas, responsabilizando-nos constantemente pelas nossas escolhas e actos, assim como pelas suas consequências, leva-nos no maravilhoso e divino caminho de lapidar o diamante que somos. Nessa consciência, abraçamos os desafios e dificuldades, as dores e as batalhas, como caminhos que percorremos, não para atingir uma suposta felicidade, mas sim para libertarmos o melhor de nós. É assim, também, que compreendemos, como tantas vezes refiro, que a felicidade não é um objectivo, nem sequer um caminho, mas sim uma forma de estar na vida, uma dádiva que fazemos a nós mesmos, uma mochila de bênçãos que transportamos nesta viagem, por vezes, tão dura.

Perdemos, ao longo do nosso percurso, a capacidade de nos rirmos e de sorrirmos, independentemente das vitórias ou das derrotas, de aprendermos com as quedas e erros, de nos deixarmos orientar pela vida ao invés de vivermos na ânsia de tentarmos, sem sucesso, controlar tudo o que se coloca no nosso percurso, de recebermos o que a vida nos dá, de nos sentirmos merecedores de coisas maravilhosas, de celebrarmos cada passo, cada degrau. Esta vivência, alimentada por gerações e gerações, amplificada por níveis de autoexigência macabros que vamos desenvolvendo, faz-nos acreditar que temos de estar sempre em guerra, connosco e com o mundo, levando-nos, mais cedo ou mais tarde, a ver o mal em tudo o que nos rodeia, a destilar ódio por tudo o que existe, a corroermo-nos com o veneno dum pessimismo que nos move.

É quando assinamos armistícios connosco próprios, quando escolhemos, perante as coisas mais dolorosas da vida, procurar um ponto de esperança e de beleza, de o alimentar e de o espalhar, sem óculos cor-de-rosa, sem “xalalás”, sem ilusões, que verdadeiramente crescemos. Perante as coisas que vivemos, perante tudo o que encontramos no mundo, na sociedade, através das notícias ou das vivências, sim, podemos sentir coisas tremendas, horríveis e dolorosas. Na verdade, acredito que devemos e precisamos de sentir tudo isso, pois faz parte da experiência humana. O problema não está em sentir seja o que for, mas sim no que alimentamos dentro do nosso coração, do que escolhemos, em cada momento, semear. Se alimentamos as batalhas que surgem dentro de nós, são guerras que nos vão definir e moldar. Por vezes, as batalhas são necessárias, são essenciais e cruciais para o nosso percurso, mas quando acreditamos que só elas são a forma de vivermos a nossa vida, então há algo mais que precisamos de ver.

As guerras que nos habitam são feridas por cicatrizar, que estão em carne viva, que estão a infectar e a ganhar pus, que envenenam a Vida que existe em nós. Elas revelam-nos padrões que urgem por serem quebrados, dores profundas que necessitam de atenção, de cura, de amor. Por isso, nestes tempos que vivemos, há uma urgência de sermos capazes de nos amar, de olharmos para dentro de nós, de nos darmos colo, carinho, tolerância, afecto, compreensão. As guerras que o mundo vive são reflexo das guerras que nós, seres humanos, temos dentro, das dores e do sofrimento que nos consomem. Contudo, como são séculos e séculos neste registo, é preciso drenar esse veneno de forma profunda, é preciso purgar, e tal só pode ser feito através de vivências intensas e arrebatadoras. Por vezes, é preciso vermos o extremo destas guerras dentro de nós para olharmos para o lado contrário, para escolhermos o amor, a paz, a compaixão, a entreajuda, para nos unirmos em prol do respeito, da aceitação, da celebração, primeiro em nós, para depois, como um vírus, poder-se ir espalhando, muito devagarinho, pelo mundo.

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