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A Bênção da Vida

20210926artigoabencaodavida

Os tempos mais desafiadores são sempre aqueles que mais e mais fortes oportunidades de crescimento nos oferecem. Isso não significa, porém, que a vida, no seu todo, necessite de ser difícil, dura e em constante sofrimento, até porque uma dificuldade, um tempo desafiador, não tem de ser vivido e encarado nessa vibração. Ainda que possa existir a dor, tal não significa que tenhamos que viver e carregar o sofrimento como caminho, como purga, como o cumprimento dum castigo que nos foi colocado por uma qualquer origem ancestral.

É esse peso, religioso, moral, castigador, onde a punição é a forma de expiação dos nossos pecados, desde o original ao mais recente, que cria grandes feridas na forma como estamos a viver aquilo que é a encarnação e a vida na Terra. Ao longo dos séculos, na forma como fomos criados enquanto sociedade, dentro das nossas famílias, na nossa educação, foi-nos incutida a ideia de que a vida é difícil, dura e sofrida, que nada pode chegar até nós sem ser nessa condição. Os anos vão passando, vamos crescendo, e passamos a acreditar que nada de bom chega até nós por sermos merecedores, mas sim, e sempre, por sacrifício, por uma via dolorosa, exemplificada pelas grandes histórias religiosas que nos moldaram social e moralmente.

A vida na Terra, pela sua própria natureza, é composta de desafio, de etapas de crescimento, vividas, substancialmente, por processos de dor. Muitas vezes, ao crescermos, doem-nos os ossos num corpo que está a tornar-se mais forte e sólido. Para ganharmos compleição física, ao fazer exercício, precisamos de superar desafios, intensos e, muitas vezes, doridos. Na Natureza, as plantas mais fortes e sólidas, as árvores mais ancestrais, são aquelas que superaram as intempéries, os ventos, as chuvas e as secas, os animais que sobreviveram e se impuseram são aqueles que lutaram e ultrapassaram as dificuldades. Tudo à nossa volta nos mostra como o caminho de crescimento é feito por via de degraus altos e escorregadios, difíceis e dolorosos, mas a verdade é que, em momento algum, nos é mostrado um caminho de sofrimento, e aqui é preciso entender a verdadeira diferença entre estes dois trilhos.

A dor é um caminho, mas o sofrimento é, muitas vezes, uma escolha. A dor é um processo, uma readaptação, pois na Terra existe uma tendência de imutabilidade, um medo da mudança, presente em todos os seres humanos, que tendencialmente procuram uma estrutura e uma segurança. A Natureza mostra-nos o contrário, mas duma forma tão lenta que, para nós, que passamos cá “pouco” tempo para fazermos tudo o que nosso intelecto tem capacidade, parece que existe uma estrutura fixa e imutável. Contudo, a evolução implica a destruição duma base para que ela se reajuste a uma nova realidade, e a única forma de o fazer é através de algum tipo de dor, o quebrar dum padrão para uma nova estrutura.

O sofrimento, por seu lado, é um estágio, uma postura de vida, um alimentar psicológico, mas também emocional, de um ponto do processo. Perante a dor de crescimento, perante o medo da mudança e da perda do controlo, perante a incapacidade de ter a certeza absoluta do que virá a seguir, agarramo-nos ao que conhecemos, alimentamos essa amarra, apegamo-nos e, dessa forma, mergulhamos no purgatório mais tremendo da nossa existência. Às vezes é necessário irmos ao nosso inferno, o que implica dor, sem dúvida, mas que nos permite renascer, ressuscitar, assumir quem somos, o nosso percurso, o nosso propósito. No entanto, a recusa de entrar no nosso submundo leva-nos a um limbo tremendamente mais difícil, uma inexistência de força, de vontade, de impulso, o alimento profundo duma vivência de sofrimento, a elevação da vítima em nós.

A vida revela-se nas mais pequeninas coisas, naquelas que parecem profundamente insignificantes, mas que, sem elas, nada mais poderá existir.

Por isso, e voltando ao início, tempos como os que vivemos são de dor profunda, pois encaminham-nos por um inferno pessoal, social e humano, mostram-nos as feridas profundas que existem e que necessitam de cuidado, de cura. Os momentos de dor são, por natureza intrínseca, momentos de profunda necessidade de Amor, pois sem ele, nas suas mais diversas formas, não há a capacidade de cicatrizar e curar. São estes momentos que nos permitem enorme saltos quânticos, enormes possibilidades de evolução, quando nos permitimos neles mergulhar.

Viver numa constante dificuldade, no alimentar da dor, como nos foi ensinado desde os primórdios do tempo, é uma armadilha muito simples de cairmos nesta jornada, pois a fronteira é ténue e pouco perceptível, por vezes. É nesses momentos, nessas fronteiras, que necessitamos de fazer aquilo que tanto nos está a ser pedido há meses, o colocarmo-nos no centro de nós mesmos, o posicionarmo-nos no local certo nas nossas vidas e no nosso Eu, pois só nessa condição temos a capacidade de receber o que é para nós, de ter uma visão totalmente privilegiada sobre o nosso caminho e sobre a nossa vida.

Só dessa forma, na verdade, temos a capacidade de compreender que a vida é, em si mesma, uma bênção que nos é oferecida e colocada nas mãos para que dela possamos usufruir, que a vida é rica, intensa, forte e poderosa. O grande propósito de vivermos uma vida na Terra é, precisamente, esse, o de viver, o de experienciar tudo o que este plano e este planeta tem para nos oferecer: as variadas emoções que somos capazes de vivenciar, os múltiplos pensamentos que a nossa mente produz, a capacidade de criar, assim como de destruir, entre tantas outras coisas que só estão disponíveis aqui, neste plano. Viver a vida é estar presente, estar aqui, não à espera que chegue o fim dos nossos tempos para voltar para um sítio qualquer do qual nem sequer nos recordamos. Na verdade, essa ânsia de querermos “voltar” até nos faz regressar aqui mais depressa, pois a escolha duma vida terrena é, precisamente, a manifestação de tudo aquilo que neste plano temos a capacidade de construir.

Momentos como os que estamos a viver globalmente, com ramificações colectivas e individuais, recordam-nos da magia e da bênção da vida, elevam as feridas e amplificam as dores, não porque precisamos de sofrer, mas sim, pelo inverso, porque precisamos de amar. Quando preservamos e respeitamos a vida, não só a nossa individual, mas a de todos os seres que nos rodeiam, humanos, animais, vegetais e em todas as formas aqui na Terra, compreendemos aquela que, para mim, é a grande aprendizagem que vimos fazer neste planeta, a do amor terreno, condicionado, sim, mas tão rico, fértil, próspero e poderoso, que até gera vida e energia.

É esta consciência que nos permite caminhar através da dor, transformando-a, elevando-a, criando estruturas mais fortes e sólidas, abrindo corações e mentes, e largando aquilo que já não nos permite crescer e cumprir o nosso propósito, começando pelas nossas próprias crenças, nomeadamente uma fulcral, a de que a vida é composta de sofrimento e obrigações constantes, uma caminhada constantemente dolorosa, passada de geração em geração. Largar esta crença não significa ir para o polo oposto, o da desresponsabilização, o da ignorância, o da máscara de perpétua força e felicidade, bem pelo contrário. Na realidade, significa compreender que é tão importante olhar para o que correu mal, como para o que correu bem, tão importante é olhar para que o foi um erro, como para o que deu bons resultados, integrando cada lição, cada dádiva e, com elas crescer, evoluir, aprender e melhorar.

A vida revela-se nas mais pequeninas coisas, naquelas que parecem profundamente insignificantes, mas que, sem elas, nada mais poderá existir. São elas, as mais ínfimas e quase, quando não mesmo, invisíveis, que constroem a rede que tudo sustenta, que alimentam o que hoje é semente e amanhã será árvore. Sem elas, procuramos uma quimera, um bem que vem num formato pré-concebido, numa idealização, frustramo-nos porque não o vemos e, quando ele chega, não lhe damos valor porque, afinal, era “só aquilo”. Vivemos esta realidade constantemente, em tudo nas nossas vidas, desde os projectos aos objectivos, trabalho e relacionamento, amizades e filhos. Vivemo-lo porque estamos projectados num futuro idealizado, esquecendo-nos que ele tem de ser construído em cada passo.

A vida é a primeira e a maior dádiva que nos é colocada nas mãos. Ela não é uma obrigação, não é um peso, mas também não é, nem nunca vai ser, sem dúvida, um constante mar de rosas ou uma simples e divertida passagem. Cada um de nós traz o percurso, o propósito, que projectou enquanto Alma, que não está pré-definido em cada pormenor no plano da matéria, que está vulnerável e, ao mesmo tempo, é alimentado por tudo o que experienciamos. A forma como cada um percorre o seu caminho é responsabilidade sua, e o grande objectivo é, precisamente extrair uma essência maior, é sair deste plano com maior sabedoria e luz do que a que trazia quando entrou. No entanto, tal só é possível quando, apesar de todas as dificuldades e desafios, com todos os degraus a subir, com as dores que deles advêm, entendemos que a vida é a maior e mais bela bênção que nos foi dada.

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