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Criadores de Milagres

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A única constante da vida é, verdadeiramente, a mudança, e as últimas semanas comprovaram-nos, mais uma vez, esta realidade. Vivemos tempos extraordinários, algo que digo há muito tempo e que não me canso de referir, tempos muito intensos e desafiadores, difíceis em vários aspectos, que evocam a nossa dualidade e a manifestam de forma muito pronunciada. A Terra tem esta característica, a da vivência da dualidade, que não se traduz por uma escolha de lado propriamente dita, mas mais por uma aprendizagem de integração, em busca da manifestação do melhor de nós mesmos, da chama do Espírito que em nós habita.

Acredito que vimos à Terra para aprender a viver e a manifestar a nossa capacidade criadora. Ainda que seja a nossa mente que mais nos aproxima do divino nesse potencial, ela nada consegue criar sem “matéria-prima”, sem o alimento que é dado pela nossa vivência emocional. A grande experiência da vida na Terra é, na verdade, a das emoções, a da compreensão da sua dimensão, não num ponto de vista de amor incondicional, divino e perfeito, mas sim nesta perspectiva inconstante, mas ao mesmo tempo profunda e rica, que cada um de nós experiencia em vários planos do seu ser.

Na Terra temos a capacidade de sentir, de nos elevarmos nessa compreensão do sentimento, e tal é como uma nascente que molda depois o rio, esse fluxo que são as emoções. É a sua vivência, manifestada entre a nossa mente e o corpo físico, que nos alimenta nas nossas acções, crenças e atitudes. São elas, na verdade, o adubo da vida, que tornam o impossível em possível, que transformam, que purificam, que germinam em nós as sementes que plantamos ao longo do nosso percurso. São elas também que, como o rio se encaminha para o mar, nos dirigem para o elevar de nós mesmos, para a dedicação e a devoção, para o cumprimento da nossa humanidade num sentido de amor, de paz, de compreensão, respeito, aceitação e perdão. Este é, na verdade, o trabalho do Elemento Água na nossa estrutura zodiacal, aquele que tudo completa e que nos permite, de certa forma, elevar-nos para a ascensão.

As emoções foram uma parcela do nosso ser que, com o advento da revolução industrial e do desenvolvimento duma sociedade baseada numa vivência muito cartesiana e racional, ficou muito aprisionada, contida, restringida na sua manifestação. Ainda que este desenvolvimento tenha sido muito importante e crucial para a humanidade, ele também nos moldou duma forma mais árida e seca. Crescemos com o sentido da obrigação, com a necessidade de controlo das nossas emoções, com a ideia de que “um homem não chora” e de que emoção era igual a fraqueza. Esta realidade corrompeu-nos, destruiu uma parte importante da capacidade criadora que, naturalmente, existe em cada ser humano.

Altar de igreja em Segusino, Itália – fotografia de destruição na Primeira Guerra Mundial – Biblioteca Nacional da Áustria

Nos últimos anos, com tudo o que temos vivido, as barreiras mentais com que fomos construídos começaram a ceder e as emoções estão cada vez mais intensas, como uma barragem que já não sustenta a pressão da água e começa a quebrar se não forem abertas as comportas. O problema é que, ao estarmos tão habituados a controlar emoções, a dominar os nossos impulsos, a dar força ao ego, mesmo quando parece que estamos a ser muito emocionais, viver nesta intensidade pode tornar-se instável e até, em última instância, destrutivo, e por isso torna-se essencial olharmos bem dentro de nós, cuidarmos de nós, colocarmo-nos no centro das nossas vidas e no nosso lugar certo. Sem cada peça no seu lugar, a estrutura desmorona-se, não tem capacidade de se aguentar, e o que vemos no mundo em que vivemos hoje é, precisamente, o fruto desta realidade, que ultrapassa o campo geopolítico, que se manifesta nas nossas sociedade, nos nossos sistemas e em nós mesmos.

Após dois anos de pandemia, que nos tem desafiado de tantas formas, o espectro da guerra volta, reabrindo feridas antigas, que não têm a ver com as nossas gerações, mas às quais estamos ligados através dos fios invisíveis que nos unem. A ameaça da regressão civilizacional, o desafio da manutenção da paz, acorda emoções profundas e desequilibra-nos. Todos os dias, nas últimas semanas, somos bombardeados com imagens que, desta vez, tocam-nos mais profundamente, não por ser um conflito mais importante que outros que o mundo tem vivido e está a viver, nem sequer por estar mais perto, mas porque activa em nós uma memória celular e energética, porque os seus contornos recordam-nos algo que, queiramos ou não, ainda está muito vivo no colectivo mundial.

O desgaste que estes anos nos trouxeram torna mais difícil olhar para tudo sem nos colocarmos de algum lado. Análises e visões isentas e neutras tornam-se muito desafiadoras, até porque estamos num período da nossa história em que a polarização ganhou muita força. Se, por um lado, esta realidade é negativa, o que é fácil até de compreender, porque é o alimentar de mais radicalização, de mais extremismo, por outro, ela tem uma dimensão positiva, que reside num verdadeiro libertar de emoções e na possibilidade real de trabalhar e, eventualmente, até curar algumas feridas mais profundas, não só em termos sociais e colectivas, mas também individualmente.

É importante permitirmo-nos viver todas as emoções que estão a chegar até nós, nomeadamente as mais pesadas, como a frustração, a revolta, a tristeza, a impotência, e até o ódio, mas não nos podemos alimentar delas. Também não as podemos simplesmente ignorar, fingir que não existem, anestesiando-nos e afastando-nos, mais uma vez, da realidade e da vida, entregando-nos a uma postura “ultra-espiritual”, excessivamente “cor-de-rosa”, como vimos no início da pandemia. Se as nossas emoções alimentam a nossa mente e nos dão a capacidade de criar, estes dois extremos tornam-se, na verdade, destruição.

Nenhum de nós está no lugar ou no tempo errado. Todos, acredito, escolhemos viver neste tempo e ajudar a construir a humanidade perante os desafios de evolução que nos são colocados, reaprendendo, mas também ensinando, o que é o Amor, o que é a Esperança, o que é Ser Humano.

Somos humanos e faz parte do nosso caminho este sentir, o estarmos zangados, revoltados e tristes, o sentirmo-nos traídos e enganados por um mundo que nos prometeu crescimento e paz, mas tal não significa que tenhamos de viver em agressividade e violência. Pelo contrário, esses sentimentos, e as emoções que eles nos trazem, são um caminho que precisamos de fazer, que nos mostram as feridas que precisamos de curar e a transformação que necessitamos de fazer.

O mundo que nos rodeia espelha e reflecte o que existe em cada um de nós, e tudo o que vivemos, que se passa a muitos quilómetros de distância, não é excepção. A distância, como o tempo, é uma questão de relatividade, e o que vemos a passar-se no mundo não é muito diferente de coisas que se passam à nossa volta, ainda que noutra dimensão. É esse espelho que activa emoções em nós, que nos traz ao de cima questões que necessitam de ser trabalhadas, feridas que estão abertas e que precisamos de tratar. Para tal, precisamos de compreender o que nos move, quais os valores e crenças que são as pedras basilares do nosso ser e com elas colocarmo-nos no nosso centro, no nosso lugar certo, pois é isso que nos permitirá agir activa e criativamente sobre a vida e sobre o que nos rodeia, tornando-nos parte da sua construção e criação.

Nenhum de nós está no lugar ou no tempo errado. Todos, acredito, escolhemos viver neste tempo e ajudar a construir a humanidade perante os desafios de evolução que nos são colocados, reaprendendo, mas também ensinando, o que é o Amor, o que é a Esperança, o que é Ser Humano. Quando olhamos à nossa volta, podemos ver as chagas que estão abertas, os atentados que são feitos à humanidade, ao bem mais precioso que temos, que é a Vida, e isso exige uma reflexão também sobre as nossas próprias feridas, sobre o que precisamos de curar em nós, sobre a forma como tratamos a nossa própria vida, como a respeitamos, como a alimentamos. É essa consciência que pode, individualmente, trazer soluções, trazer mais respeito e humanidade.

Este já não é o tempo dos heróis e dos messias, ainda que os seus exemplos também sejam necessários, mas sim o tempo de reconhecer em cada um de nós essa força maior, de nos responsabilizarmos pelas nossas escolhas e caminhos e pelas suas consequências, sobre nós e sobre os outros. Enquanto esperamos o messias, o salvador, enquanto nos agarramos a esse mito do herói como a única solução, esquecemo-nos que em cada um de nós existe esse mesmo potencial infinito, essa capacidade extraordinária de gerar a vida. Quando trabalhamos em nós para sermos mais humanos, para vivermos mais em amor, permitimo-nos viver as emoções que vida na Terra nos oferece, todas elas, compreendendo o lugar de cada uma, quais são bálsamo e quais são veneno, e como equilibrá-las, tornando-nos alquimistas da vida, criadores de milagres. É nestes tempos que precisamos de nos recordar que, se é verdade que um bálsamo auxilia à cura, em excesso ele nada faz, ou até poderá fazer mal, assim como uma outra substância, que chamamos veneno, que em doses grandes matará, sem dúvida, mas que em pequenas gotas pode ser profundamente curadora.

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