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Harmonia

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Quando observamos a natureza e o mundo à nossa volta, ficamos com a percepção que tudo se rege por um conceito intrínseco e quase inconsciente de equilíbrio. Na verdade, parece que tudo se inclina para essa ideia, para essa necessidade de estar tudo muito “direitinho”. Vemos isso nos animais e nas plantas, pela acção das várias partes, como se, havendo algo que tire o “normal funcionamento” do sistema, tudo se move para reequilibrar. Contudo, esta percepção não é totalmente verdadeira, pois ela é o reflexo duma necessidade humana, a de justiça e equilíbrio, algo que nos leva a, sempre que existe uma mudança, rapidamente nos apressarmos a tentar repor uma certa ordem.

O ser humano tem um certo medo do caos, da vivência dessa e nessa condição, e isso leva-nos a evitá-lo, a contorná-lo e a tudo fazer para que ele não se manifeste. Por isso, controlamos, dominamos, tentamos organizar tudo e orientar tudo para que nada nos escape ou para que uma determinada ordem seja reposta, aquela que nos dava segurança e conforto. É uma certa aversão à mudança que nos molda e formata para procurar um equilíbrio, na ideia de que ele nos traz uma segurança que nos permite evoluir. Não podíamos estar mais longe da verdade.

O mundo que vemos é reflexo do que existe dentro de nós, dos conceitos, ideias e verdades que nos preenchem e nos vão moldando. Quando observamos à nossa volta, é esse mundo interior que funciona como lente para a realidade. Se estivermos mais cansados, temos tendência a nos irritarmos com as mais pequenas coisas, vamos ser excessivamente picuinhas e até desagradáveis, por vezes, vamos reclamar e até dizer coisas mais impróprias, mas se, pelo contrário, estivermos bem, mais felizes, as cores mudam e aquelas coisas que facilmente nos irritavam passam por nós duma forma muito mais fluída, sem nos atingir de sobremaneira.

A nossa realidade está muito dinâmica, a informação chega até nós de forma mais célere e há muitas mais forças a jogar o jogo de poder que existe neste plano. Por isso, temos tendência a procurar no mundo um equilíbrio que consideramos ser importante. O problema é que olhamos à nossa volta e tudo o que vemos está desequilibrado, está desajustado, e perante isso sentimo-nos nós, também, fora do nosso lugar. A questão é que, voltando um pouco atrás, a nossa visão do mundo é um reflexo do que se passa no nosso interior e, por isso, esse desequilíbrio que vemos existe, em primeira instância, dentro de nós mesmos.

A harmonia não julga nem sequer tem qualquer ideia sobre os processos concretos da vida, pois ela simplesmente existe, independentemente do nosso nível de consciência. Ela é um fluxo, como as ondas do mar, que, com o seu movimento, nos leva até um determinado destino.

É óbvio que existem inúmeras questões que precisam da nossa atenção neste momento enquanto humanidade, que existem profundas feridas e dores no nosso mundo que o tornam muito doente. Todos os dias ouvimos os seus gritos e sentimos a sua febre, fazendo chegar até nós a percepção concreta do tanto que há para fazer. Isso desanima-nos, faz-nos sentir desajustados, mas é preciso percebermos que estas feridas começam dentro de nós mesmos e, em última instância, é também em nós que elas podem ser curadas.

É preciso compreendermos, primeiro que tudo, que essa ideia de equilíbrio, da forma como nós a vivemos, é imprecisa e está, na verdade, errada. A natureza à nossa volta não funciona nem se desenvolve por equilíbrio, mas sim por um conceito ligeiramente diferente. O que nos rege, na realidade, é uma vivência de harmonia, uma ideia mais forte e poderosa, mais profunda e manifestadora de vida. Tal não significa que o equilíbrio não seja, muitas vezes, necessário, pois ele é o reflexo dum trabalho importante de justiça, essencial para que a harmonia existe.

O conceito de equilíbrio implica o retirar dum lado para compensar de outro ou, de outra forma, acrescentar dum lado para ajustar do outro. Isto é importante, pois é um caminho de justiça, não no sentido leigo ou social do termo, mas sim na ideia de que se dou algo, recebo na proporção correcta. Entender e vivenciar este conceito é extraordinariamente importante, pois permite-nos olhar o mundo de forma justa. A grande questão é que o vemos através da nossa ideia do que é justo. Se vemos alguém na rua, que não tem casa, vivemos um sentimento de injustiça que nos faz procurar um culpado. Contudo, não sabemos a história desse alguém, não conhecemos os seus passos, as suas escolhas e os seus caminhos e desígnios. Estar na rua, de alguma forma, pode ser um processo poderoso para a sua evolução e é importante que essa pessoa o viva. Isto não significa que não poderemos fazer algo, que não tem de existir uma consciência social e tentar ajudar aquela pessoa no seu percurso. Pelo contrário, dá-nos ainda maior responsabilidade, não pelo caminho da pessoa, mas sim pelo nosso papel na sociedade e como poderemos contribuir para que ela mude.

É aqui que a ideia e o conceito de harmonia se manifesta na sua beleza e profundidade. A harmonia não julga nem sequer tem qualquer ideia sobre os processos concretos da vida, pois ela simplesmente existe, independentemente do nosso nível de consciência. Ela é um fluxo, como as ondas do mar, que, com o seu movimento, nos leva até um determinado destino. Se temos maior consciência dessa harmonia em que tudo se manifesta na nossa vida, compreendemos que tudo se equilibra e vive em profunda justiça, e o nosso fluxo de vida torna-se, tendencialmente, mais suave. Quando vem uma onda mais alta, uma modificação maior no nosso percurso, uma mudança mais intensa, há uma força que nos impele, até um medo que nos assola, mas percebemos, como o marinheiro experiente, que precisamos de recolher a âncora e as velas, largar os controlos, e deixar o nosso “barco” fluir, estando atentos ao que nos rodeia, até tudo acalmar um pouco.

O problema é que, perante um mundo em profunda mudança, uma grande parte de nós continua preso aos seus padrões e processos, com medo de mudar, de dar espaço ao que pede para nascer. Nesse sentido, a harmonia é inconsciente e as suas ondas encontram resistências, criando grandes clivagens. Como um fluxo de mar que bate no paredão, há impactos mais violentos e fortes, há dor, dúvida e medo, que amplifica ainda mais as necessidades de controlo, criando uma espiral difícil de quebrar. Se o rio não consegue fluir até ao mar por causa das pedras, ele vai criar pressão até que elas se quebrem e ele possa continuar o seu caminho. Não é por mal nem com maldade, é apenas um desígnio, uma necessidade, um materializar e concretizar da essência. Tal como o rio “sabe” que tem de ir para o mar, também a nossa Alma sabe que tem de voltar ao grande Espírito, mas que não conseguirá fazê-lo sem cumprir o percurso.

Quando trabalhamos sobre as nossas questões e largamos uma parte substancial dos nossos mecanismos de controlo, começamos a compreender melhor os pontos de equilíbrio da nossa vida, os porquês dos nossos processos, as origens das nossas questões. É nessa consciência que conseguimos serenar as nossas ondas e entrar no fluxo da nossa própria vida. As ondas tornam-se assim mais calmas, mais pequenas, mas nunca estáticas, permitindo uma evolução mais focada e direccionada. Quando é preciso um pouco mais de impulso, vem uma onda maior, dá mais força, leva-nos um pouco mais fundo de nós, mas mostra-nos também que, a seguir, irá levar-nos mais alto e conseguiremos chegar mais longe no nosso caminho.

Toda a ordem, em algum momento, precisa de caos, assim como o caos, em algum momento, precisa dessa ordem. No entanto, eles nunca estão num total equilíbrio, pois isso levaria a uma estagnação, a uma involução, e destruiria tudo o que tinha sido construído. Caos e ordem vivem em harmonia, como a tal deslocação das ondas, pois eles são os mecanismos do tear da vida que, nos seus movimentos, tecem os caminhos de tudo o que existe neste plano e ajudam-nos a compreender qual o momento certo para dar um passo ou para estar quieto. Caos e ordem são um par que dança incessantemente, duma forma tão síncrona e perfeita que nem nos conseguimos aperceber o que é planeado e o que é improviso, em que mesmo os passos mais rígidos, que têm um certo toque mecânico e bruto, são partes essenciais da sua obra de arte.

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Comments (1)

Parabéns pelo texto e sua mensagem 🙏lindíssimo 🌻

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