fbpx
Scroll Top
Avenida Miguel Bombarda, 21 - 7º Dto - 1050-161 Lisboa

A Vida Vivida

20240311avidavivida

Guardamos, por vezes, a vida como se fosse uma peça de vidro ou de cristal, frágil, que se pode quebrar a qualquer momento. Guardamos num sítio seguro, estável, muitas vezes fora da vista dos outros, com medo que alguém estrague ou magoe. No entanto, a vida não é para ser guardada, mas sim para ser vivida, aproveitada e celebrada. Quando nos reservamos, quando nos protegemos, em vez de sentirmos a vida a pulsar dentro de nós, apenas estamos a sobreviver. Viver é uma arte, dizem, mas talvez o seu fundamento seja, muitas vezes, mais simples do que aparenta.

Desde o início dos tempos que o ser humano se desenvolve, cresce e evolui através duma acção tão simples como a experiência e a brincadeira. É essa coisa tão humana, que temos desde a nossa base, enquanto crianças, que nos permite abrir a nossa mente, absorver conhecimento, atingir o limite das nossas capacidades e ultrapassá-las. É nessa capacidade de brincar, de imaginar, de construir e de sonhar que nos permitimos alcançar algo maior do que conhecíamos antes, de dar mais uns passos no nosso potencial, de subir mais uns degraus na nossa caminhada.

É enquanto crianças que mais nos aproximamos da nossa essência e, por isso, do divino. Deus, se assim lhe quisermos chamar, é riso, brincadeira, diversão, alegria. São estas coisas tão simples, mas tão poderosas, que nos permitem trazer o divino para a Terra, que nos permitem criar. Enquanto crianças, tentamos, experimentamos, imaginamos, rimos, choramos, caímos e levantamo-nos sem nos preocuparmos com o que se vai passar. Por isso, também não nos bloqueamos nem limitamos. O medo existe, sim, como uma protecção, instintiva e essencial, mas não o tornamos um bloqueio. Não é por cairmos que vamos desistir ou ganhar medo de voltar a subir à árvore.

Não é na falha que a aprendizagem se concretiza, mas sim quando levantamos o nosso olhar e tentamos de novo, de forma diferente, e sentimos a alegria da curiosidade, da imaginação, da persistência, percorrer as nossas veias.

Não é ao cairmos, na verdade, que aprendemos e nos aperfeiçoamos, mas sim quando nos levantamos e tentamos de novo. Não é na falha que a aprendizagem se concretiza, mas sim quando levantamos o nosso olhar e tentamos de novo, de forma diferente, e sentimos a alegria da curiosidade, da imaginação, da persistência, percorrer as nossas veias. É nesse instante que voltamos a sentir a vida em nós, que saímos dum lugar confortável, que criamos algo que nunca tínhamos imaginado. É esse arriscar, esse ousar de sair do que é esperado, não por rebeldia, mas sim por necessidade da nossa Alma e em sintonia com ela, que nos recorda da vida que nos habita.

Não é reservando-nos e protegendo-nos que conseguimos aproveitar e viver. Sentirmo-nos vivos implica largar medos, padrões, confortos, pele e armaduras. O medo de nos magoarmos, que nos façam mal, o medo de voltarmos a cair, de sermos enganados e traídos, leva-nos muitas vezes a fecharmo-nos nos nossos mecanismos de protecção, nas nossas conchas e defesas. Fazemo-lo instintivamente, porque muitas vezes crescemos com a sensação de estarmos sozinhos, isolados, por nossa conta, e não há outra solução que não levantar defesas e empunhar armas. A vida é difícil, é dura, é construída na base da dor e do sofrimento, foi o que nos foi ensinado, mas que não podia estar mais longe da realidade.

Com as exigências do quotidiano, o ritmo desenfreado e a nossa mente profundamente acelerada, caímos nas trevas do medo e esquecemo-nos de que o que nos move é o prazer e que ligado a ele está, sem qualquer dúvida, a alegria e a diversão. De que serve andarmos aqui uns 80 ou 90 anos sem tirar prazer do caminho, sem nos rirmos com a vida e da vida, sem nos divertirmos com o que fazemos? Pensando desta maneira, a resposta é rápida e simples, mas a realidade mostra-nos algo bem diferente.

Neste caminho de competição, de dualidade extremada, de uns contra os outros, vamo-nos magoando mutuamente e esquecendo que a vida na Terra é um caminho de entreajuda, de interacção e de integração. É certo que existem hierarquias, que existem lugares específicos para todos e para cada um, consoante aquilo em que as suas essências vibram, em conexão com as suas melhores capacidades, mas numa constante rede que nos abrange a todos e nos liga também à Terra e a tudo o que nela existe. O que temos visto é um quebrar desta harmonia ao longo dos séculos, com a humanidade a esquecer-se de que, como ser consciente e dominante, para já, neste planeta, tem uma responsabilidade acrescida de preservar o equilíbrio.

Esta forma de vivermos, passada de geração em geração ao longo do tempo, criou feridas e mágoas, amplificou fossos e trouxe muita dor. Chegados a este momento, vemos muito ódio espalhado por todo o mundo, vemos cegueiras ideológicas a destruírem-nos na nossa essência, vemos corações profundamente feridos que se esqueceram do que é a verdadeira alegria, o verdadeiro prazer. A vida que é mesmo vivida não é destruidora, não é rancorosa, não é vingativa. Isso não é vida, é sobrevivência, aquilo que vemos em muita gente quando saímos à rua e olhamos à volta.

Por isso, neste caminho, é preciso por vezes voltarmos a encarar as trevas, irmos à escuridão, olharmos de frente o que de mais feio existe na natureza humana, para termos a possibilidade de nos recordarmos da beleza do que é a vida e escolher fazer diferente. Ainda que a vida não tenha de ser vivida na dor, é ela que nos permite crescer, que nos impulsiona a fazer diferente. A criança que sobe a árvore e cai sente dor, chora, precisa de mimo e de curativo, mas não fica presa nesse momento, limpa as lágrimas, levanta-se e volta à árvore para vencer o gigante e sentir a alegria da conquista.

É essencial recordarmo-nos de sentir o prazer de viver, de nos divertirmos, de rirmos, de partilharmos alegrias e tristezas, de chorarmos também, pois a vida é este caminho de experiência das emoções. Para isso, precisamos de pintar fora dos traços, prevaricar, deixar o entusiasmo preencher-nos e contaminar os que nos rodeia. A alegria, a diversão, o prazer e o riso são das formas mais belas e poderosas de nos enraizar, de nos colocar aqui neste plano duma maneira criativa e criadora e por isso é que elas são das primeiras coisas que nos tentam restringir. É nesta vivência poderosa que trazemos as sensações à vida, que a colorimos e a tiramos daquele lugar seguro onde a guardámos para a expor como um troféu. É assim que a vida pode ser, verdadeiramente, vivida e é isso que, em cada dia mais, nos está a ser pedido.

Posts Relacionados

Deixa um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Privacy Preferences
When you visit our website, it may store information through your browser from specific services, usually in form of cookies. Here you can change your privacy preferences. Please note that blocking some types of cookies may impact your experience on our website and the services we offer.