Um edifício, na sua construção, necessita de alicerces, pilares fortes, formados para serem a base duma estrutura que sustentará o peso de tudo o que será sobre eles construído, de tudo o que sobre eles irá acontecer e desenvolver-se. Esses pilares, que à primeira vista parecem extraordinariamente simples, têm dentro de si estruturas muito elaboradas, criadas para lhes dar forma, força e resistência. No entanto, quando olhamos para o edifício, vemos a sua fachada, o seu interior, a decoração e as formas, mas raramente nos lembramos que por baixo de tudo isso há algo que o sustenta, algo simples, mas essencial, cuja existência é fundamental.
Ainda que muitas vezes não tenhamos essa percepção, os Arcanos Menores são a fundação do Tarot, o verdadeiro princípio da construção desta maravilhosa ferramenta que conhecemos e trabalhamos. Foi sobre eles, numa versão ainda muito simples, que tudo o resto foi construído e aprimorado. Foi na estrutura que eles definiram que os Arcanos Maiores foram desenvolvidos. Contudo, como num edifício cujos alicerces não são vistos, muitas vezes os Arcanos Menores são ignorados na sua dimensão e importância.
É essa realidade que vemos quando encontramos tarólogos que apenas usam ou ensinam os Arcanos Maiores, que neles (e de forma muito bela, profissional e profunda) baseiam o seu trabalho. No meu entender e respeitando sempre o caminho de cada um, trabalhar apenas com os Arcanos Maiores deixa um espaço vazio no potencial de profundidade que o Tarot contêm.
Um jogo de cartas é, em si mesmo, uma reflexão profunda da magia do Universo, do Divino, com a manifestação do caos e do acaso, do alinhamento perfeito entre nós e as forças que estão para lá das nossas certezas.
Podemos até fazer (e isso acontece) um excelente trabalho de interpretação, responder às questões e orientar quem chega até nós, mas, garantidamente, apenas estaremos a tocar as primeiras camadas dos problemas e dificilmente iremos às verdadeiras origens e razões que permitirão, com trabalho, desbloquear e quebrar padrões, curar feridas e abrir caminhos. Por isso, um dos focos que sempre tive com os meus Cursos foi o despertar da consciência dos meus alunos para a dimensão desta parcela tão importante do baralho e do trabalho que ela em si contém.

Para entender a importância fundamental dos Arcanos Menores é preciso irmos à origem conhecida e estudada do Tarot, voltar à Itália do século XIV e encontrar um simples jogo de cartas trazido do norte do Egipto. Esse jogo de cartas, chamado de “O Jogo dos Reis e Deputados”, era jogado pelos Mamelucos, uma milícia militarizada composta originalmente por escravos. O baralho, cujas origens, crê-se, estão em jogos provindos da China, era composto por 52 cartas, divididas em quatro naipes – Moedas, Tacos de Pólo, Miríades e Cimitarras – com 13 cartas cada, do Ás ao 10, e 3 figuras, o Rei e um Primeiro e Segundo Deputados.
Foi este jogo que fascinou a Itália pré-renascentista, iniciando um percurso fascinante que teve como resultado o Tarot como hoje o conhecemos. Com o despontar do Renascimento, do recuperar do imaginário greco-romano e do desenvolvimento cultural e artístico do qual Itália é protagonista, este fascínio pelas cartas começa a transformá-las, com a criação de figuras dos Nove da Fama para substituir o Rei e os Deputados, adaptando os naipes e criando um imaginário de figuras históricas e míticas que dão origem aos Trunfos, os futuros Arcanos Maiores.
No início, o Tarot é “apenas” isso, um jogo que fascina a nobreza e os mais ricos, levando-os ao desenvolvimento e à criação de baralhos lindíssimos. É desse desenvolvimento, inclusive, que provém o nome “Tarot”, derivado da técnica de gravação das costas das cartas. É da simplicidade de um jogo que a sincronicidade do Universo se manifesta e inicia o processo que nos vai oferecer a mais bela e profunda ferramenta esotérica que conhecemos. Um jogo de cartas é, em si mesmo, uma reflexão profunda da magia do Universo, do Divino, com a manifestação do caos e do acaso, do alinhamento perfeito entre nós e as forças que estão para lá das nossas certezas. No entanto, tudo começa nas cartas numeradas e figuras, primeiras imagens dos Arcanos Menores, os grandes alicerces do Tarot.
Quando nos debruçamos sobre a compreensão destas cartas, compreendemos que elas refletem os grandes pilares da dimensão terrena. Através dos Naipes mergulhamos na manifestação terrena das nossas questões, integrando os arquétipos que precisamos de trabalhar (trazidos pelos Arcanos Maiores) pelas vibrações das dimensões do nosso ser. Por isso, toda a construção das cartas dos Arcanos Menores reflete a própria sociedade, os seus temas e a sua composição, assim como os próprios processos de construção da vida no propósito que nos trouxe à Terra.
Se no jogo original o Rei e os Deputados são manifestações da realidade dos Mamelucos, a sua transformação toma a forma dum reflexo da sociedade, começando pelos Nove da Fama, figuras do ideal da Cavalaria da Idade Média, depois manifestadas nas figuras da Corte, sendo também uma representação dos estratos da sociedade. Os números, por sua vez, conectam-se com estágios da criação da Vida e do Universo, deste a essência do Ás à completude do 10, número mágico de perfeição na tradição cabalística.
Na verdade, e muito graças ao trabalho feito no baralho Sola Busca, originário do século XV, os números tornam-se etapas de manifestação e materialização da Obra Alquímica, reflexões da própria construção da consciência humana e da vida. Coincidentemente (ou não), também são 10 as Sephirot (palavra que significa “número”), as esferas da Árvore da Vida da Kabbalah, os pontos de emanação da vida. É nesta consciência que podemos ver a vida criada, transformada e aprimorada no caminho do alcançar o propósito maior da manifestação plena do Espírito que somos, o sentido de todas as ferramentas, linguagens e filosofias esotéricas e de desenvolvimento pessoal e espiritual.
Mesmo os Naipes, que hoje entendemos, graças aos estudos de Éliphas Lévi, e bem, numa ligação aos 4 Elementos, são manifestações das grandes bases da nossa construção aqui na Terra, os verdadeiros pilares da existência. Paus, Copas, Espadas e Ouros – Fogo, Água, Ar e Terra – são manifestações das nossas quatro dimensões, dos nossos quatro corpos (Espiritual, Emocional, Mental e Físico), dos quatro Reinos inscritos no Tetragrammaton, o Nome Sagrado de Deus, revelando-nos como fundações profundas da criação da Vida.

No entanto, na sua base, os naipes refletem um dimensão mais simples, a das Quatro Virtudes Cardeais, um conceito pré-cristão, mas muito vulgarizado através da religião católica, cujas figuras empunham os símbolos que vemos nas cartas. A Prudência carrega uma moeda; a Justiça, uma espada; a Força, um bastão; e a Temperança, um Cálice. É certo que também encontramos estas figuras nos Arcanos Maiores (sendo a Prudência, o Eremita), mas é nos Naipes que elas manifestam o seu simbolismo, os eixos duma vida virtuosa, plena e pura.
Não é difícil, assim, perceber que os Arcanos Menores não são simples cartas que, pela sua quantidade, parecem ser mais difíceis de interpretar e de integrar (ou de decorar os seus conceitos, algo que nunca devemos fazer). Não é difícil também compreender o porquê de muitos deixarem-nos de parte e não os integrarem nas suas interpretações e análises. No entanto, fazê-lo é desperdiçar uma dimensão profunda do Tarot, a que lhe dá base, fundamento e estrutura e coloca as energias arquetípicas sob uma visão mais prática, terrena e concreta, dando-lhes forma e sentido. Se os Arcanos Maiores revelam-nos os grandes Arquétipos e os transportam para uma tiragem na compreensão das nossas questões nos seus sentidos mais elevados, os Arcanos Menores ligam-nos ao concreto, dão-lhes forma, vida e dimensão.
É nos Arcanos Menores que encontramos as fundações do Tarot, os alicerces da sua dimensão. São eles as âncoras e os equipamentos necessários para um mergulho muito profundo no nosso ser através das nossas questões e temas. É nessa consciência que o Tarot se torna muito maior do que uma simples ferramenta de previsão, um formato muito apetecível e desejado, é verdade, mas muito pouco fiel ao propósito maior que as cartas nos oferecem. Quando trabalhamos o Tarot em toda a sua dimensão, ultrapassamos essa visão básica e diminutiva do seu potencial, abraçando uma visão mais profunda e apurada, psicológica e espiritual. É através dos Arcanos Menores que unimos as várias dimensões do ser nas questões que nos são colocadas, na compreensão e orientação do momento que o consulente está a viver, dando-lhe não uma certeza ou um determinismo, mas sim a chave para a plena manifestação do seu livre-arbítrio.

















