Existem momentos na nossa vida e no mundo em que parece que tudo à nossa volta se quebra e se desfaz, em que as nossas estruturas caem e em que o chão debaixo dos nossos pés desaparece. Esses momentos, pelo seu impacto e intensidade, tornam-se assustadores e profundamente desafiadores, retirando-nos das nossas zonas de conforto, elevando os nossos níveis de ansiedade e de medo, deixando-nos sem qualquer tipo de controlo sobre as situações.
O plano em que vivemos é físico, baseado na matéria, em que tudo o que existe e se forma tem uma estrutura e uma aparente estabilidade. Quando algo surge e ameaça essa condição que nos dá conforto e segurança, a nossa primeira reacção é tentar voltar a um ponto que para nós é conhecido. Como o sistema operativo dum computador, à medida que vamos crescendo, e nomeadamente após um período de instabilidade ou desafio, a nossa mente cria pontos de referência de quando tudo funcionava (aparentemente) bem.
Quando algo sai duma determinada ordem, o nosso ego acciona esse ponto de restauro e tudo faz para voltar a um momento que lhe dá estabilidade. Contudo, nem sempre é possível, nem mesmo necessário. Muitas vezes, para conseguirmos resolver verdadeiramente uma questão, para podermos avançar, é preciso que algo quebre, que uma estrutura caia, para que, do que sobrar, dos escombros, podemos construir algo melhor e mais sólido. Como também no sistema operativo dum computador, às vezes a única solução é desligar e voltar a ligar, forçar um reiniciar ou mesmo reinstalar tudo.
Por isso, por vezes, este “vício” que temos de estabilidade, de segurança, tem como única solução um quebrar violento de estruturas e de bases, uma ruptura dura e incisiva que tem um propósito muito importante e, até, crucial para a nossa sobrevivência.
A nossa busca por estabilidade e segurança mascara uma realidade que, em determinadas condições, é facilmente aceite. A matéria é viciante e viciosa, corrompe a alma e destrói o espírito através da ilusão do poder, da posse, da riqueza e da segurança. Por uma aparente estabilidade e segurança contornamos os nossos valores e crenças, até, se for preciso, as nossas bases morais, aguentamos trabalhos que nos destroem um bocadinho todos os dias, suportamos relações abusivas, anulamo-nos e convencemo-nos que está tudo bem e que estamos a fazer o correcto.
Olhemos o mundo em que vivemos, em que por dinheiro e poder se cometem as maiores atrocidades, fazem-se guerras, mata-se, mente-se e manipula-se. Este mundo onde as massas são convencidas a todo o momento de que estas acções são as certas, pois são levadas a ver constantemente o outro como um inimigo que vem para atacar e destruir (entre muitos outros argumentos que vemos e ouvimos nos dias que correm). Assim foi no passado, assim é hoje, pois neste aspecto evoluímos muito pouco enquanto humanidade.
Por isso, por vezes, este “vício” que temos de estabilidade, de segurança, tem como única solução um quebrar violento de estruturas e de bases, uma ruptura dura e incisiva que tem um propósito muito importante e, até, crucial para a nossa sobrevivência. Na Terra, crescemos através da dor, pois ela é, muitas vezes, a única forma de nos fazer sair das nossas zonas de apatia, onde ficamos anestesiados da nossa própria vida e nos deixamos absorver, anular e apagar nas coisas que, um dia, foram boas, bonitas e luminosas, apesar de todas as mensagens e sinais que nos foram passados e transmitidos.
Estes processos, que muitos de nós têm experienciado, nas próprias vidas, mas também através do tanto que se passa no mundo, é o reflexo dum propósito muito importante, manifestado arquetipicamente pela carta “A Torre” do Tarot, uma das mais temidas e desafiadoras energias que o oráculo tem. Ela representa muito do que vivemos hoje e do que vemos à nossa volta, pois o mundo está a mudar, a humanidade precisa de evoluir e, sempre que existem estes processos de mudança, há um conflito energético que resulta numa polarização e numa vivência em extremos. É por isso que hoje vemos movimentos e pensamentos extremistas crescerem no mundo inteiro, influenciando através de mentiras, de ameaças veladas e artificiais, de medo incutido como se fosse duma transfusão de sangue se tratasse.
Quando vivemos em extremos, em polarização, há sempre um lado que está mais forte e intenso, o que faz com o que o outro fique mais silenciado, mais inerte, aparentemente aniquilado. Tal acontece, pois, quando estamos num momento de ruptura, não pode haver harmonia ou equilíbrio, não se pode continuar a ajustar coisas, é preciso que tudo seja visto exactamente como é, que tudo se revele na sua totalidade, que todos os véus sejam retirados para que possamos perceber a nossa responsabilidade em tudo o que existe na nossa vida e decidir o que queremos fazer, que caminho queremos percorrer a partir dali.
Esse é um ponto essencial da carta XVI – A Torre, que nos recorda as histórias da Torre de Babel e de Sodoma e Gomorra, pontos de ruptura da humanidade na narrativa judaico-cristã, cuja única solução dum Deus temperamental e com um ímpeto castigador, como é o do Velho Testamento, é a destruição e o caos. Contudo, a Torre traz-nos outra ideia, ligada ao Novo Testamento, quando Deus se permite experienciar a humanidade através do seu Filho, Jesus, e compreende que a única verdadeira forma de transformação da humanidade é através da energia que tudo cria, tudo forma e que está presente em tudo o que o Universo conhecido e desconhecido, assim como todos os planos, tem – o Amor.

Na história de Jesus, no seu processo final de iniciação para se tornar e manifestar o Cristo, o sacrifício total, pleno e último que é a morte traz-nos um episódio descrito no evangelho de Marcos, também referenciado por Mateus e Lucas, assim como em evangelhos apócrifos, que também se adequa à energia da Torre no Tarot. Marcos relata que quando se dá a crucificação inicia-se um eclipse que tem a duração de três horas, acrescentando que imediatamente após a morte de Jesus o véu do templo rasga-se em dois, de alto a baixo. Mateus acrescenta que há um grande terramoto e que todos reconhecem-no como o filho de Deus.
Estes episódios dos escritos que nos formaram enquanto sociedade mostram-nos duas parcelas importantes da natureza da carta A Torre. Se, por um lado, ela traz-nos destruição, ruptura, dor e sofrimento como uma forma de purga, limpeza e transformação necessárias, por outro, ela também nos oferece revelação, verdade, clareza e esclarecimento, um verdadeiro caminho que nos orienta a uma potencial redenção. É ela também o caminho para a Estrela, a carta que nos mostra o que Jesus referia como o nascer de novo, o nascer do Espírito.
O ser humano quer muita mudança, mas não quer mudar. Hipócrates, considerado o pai da medicina, deixou-nos uma citação que diz: “Antes de curar alguém, pergunta-lhe se está disposto a desistir das coisas que o fizeram adoecer”. Esta é a grande questão do ser humano e que nos está a ser colocada neste momento. Estamos doentes, intoxicados e envenenados pelas coisas da matéria, e isto não significa que não tenhamos de a viver, que não merecemos coisas boas, até riqueza e bem-estar, mas não podemos reger a nossa vida pelo ter, não ter ou, principalmente, pelo medo de perder. Crescemos enquanto sociedades, principalmente nos últimos dois séculos e meio, baseados na posse, na riqueza, numa ideia de crescimento ininterrupto. Isso levou-nos a um desequilíbrio gritante e destrutivo em relação a tudo o que é do espírito, começando pela mãe Terra e terminando pelos nossos corpos físicos.
Apesar de todos os esforços, de duas guerras mundiais, de tanta morte, destruição e desigualdade, continuamos, enquanto sociedade, a não querer mudar nem a ver o que está mesmo à nossa frente. Não faz sentido um país desperdiçar tanto alimento, que produz, compra e consome em massa, quando existem tantas populações no mundo inteiro em fome extrema. Não faz sentido alegar-se que não existe possibilidade e capacidade financeira dos estados para criar soluções contra a pobreza e contra problemas crescentes como a habitação, para encontrar curas para doenças ou dar melhores condições de vida às pessoas, quando se investem milhares de milhões de euros, todos os anos, na indústria de guerra. Se isto é verdade para o mundo, também o é para as nossas vidas, pois tudo o que existe à nossa volta é alimentado por todos nós, pois tudo o que vemos a acontecer é reflexo do que existe dentro de nós.
Este caminho que temos construído leva-nos a um ponto de ruptura que embora fosse, acredito, possível de ser evitado, tornou-se verdadeiramente necessário. Por isso, o que vivemos hoje, nas nossas vidas, configura-se também em pontos de ruptura, de dor e de desajustamento. Dentro de nós existem guerras que estavam silenciadas, feridas que não foram devidamente curadas e que, perante os abalos que temos vividos, alguns bem pequeninos, diga-se de passagem, reactivam-se, reabrem-se, inflamam e gritam. As raivas que estavam contidas e guardadas voltam a ganhar força, encontram caminho para se expressarem, pois o nosso espírito urge por uma paz que não pode ser conquistada, mas que precisa de ser vivida e sentida.
Este é o papel da Torre, o de rasgar os véus, de evidenciar a verdade, de revelar o que está guardado, mas que só ocupa espaço e que, em vez de nos permitir crescer, nos bloqueia, nos adoece o corpo e o espírito e nos destrói sem disso nos darmos conta. Quando a Torre chega até nós, não há qualquer hipótese de a travar, por muito que queiramos e tentemos. Tentar fazê-lo é gerar em nós ainda maior dor, pois é o mesmo que entrarmos num edifício que está a ruir para tentar impedir que ele caia – ele vai cair na mesma, e vai soterrar-nos nos seus escombros.
A verdadeira força da Torre não está na destruição ou na ruína, pois elas são apenas expressões e manifestações da sua acção. Na realidade, o seu poder reside na libertação e desapego que ela nos oferece, na limpeza profunda que ela opera. Se queremos construir uma nova realidade, um novo caminho, não podemos fazê-lo sobre o que não funcionou, pois é uma perfeita loucura, como dizia Einstein, repetir a mesma coisa e esperar resultados diferentes.
Então, quando tudo parece estar a ruir, o que podemos fazer? Esta é uma questão importante, pertinente e essencial, que tem dois caminhos, dependentes do trabalho que cada um está a fazer em si mesmo e do nível de consciência que vai construindo. Estes dois caminhos, como referi, são também duas manifestações que encontramos na própria carta, qualquer que seja a sua versão, qualquer que seja a corrente conceptual que a constrói.

Quando olhamos para a carta da Torre, na imagem do Tarot de Rider-Waite-Smith, podemos ver duas figuras que dela caem e que têm duas posturas diferentes. De forma muito simples, podemos perceber que uma cai de frente, tendo alguma margem de manobra sobre a própria queda. Temos a certeza que a figura irá magoar-se, mas a ideia que nos transmite é que a sobrevivência é quase garantida, esperando-a uma recuperação que até pode ser longa, mas que lhe dará um novo dia para fazer algo diferente. A outra, porém, está a cair de costas, com as vestes agarradas à janela da Torre, com uma coroa na cabeça, símbolo de tudo o que já não serve e que precisa de ser largado. Neste caso não é difícil percebermos que a sobrevivência pode ser muito difícil, que o apego pode custar a própria vida.
O que podemos fazer, então, perante as rupturas que a vida nos vai apresentando é, em primeiro lugar, pararmos e silenciarmo-nos, olhar para dentro de nós, mesmo que a dor, muitas vezes, nos impeça de pensar claramente. Muitas vezes, não há nada para pensar quando tudo está a ruir – só para sentir. É preciso viver a dor, rendermo-nos a ela, deixá-la fazer o seu trabalho, mas ter a consciência de que é um processo, um caminho, que não precisamos, nem podemos, fazer sozinhos. Quando uma estrutura se quebra, quando o nosso edifício está a cair, precisamos de nos recordar que somos parte de coisas maiores que nós mesmos, que sempre temos à nossa volta alguém que nos pode amparar e ajudar, sejam amigos, família, um relacionamento, grupos de apoio, terapeutas, uma comunidade ou a própria sociedade. São estes apoios, estas ajudas, como uma Consulta de Tarot ou de Astrologia, que, não resolvendo o problema, dão-nos base para o suportar, força para não desistir, resiliência para seguir em frente, colo para podermos deixar as emoções que nos inundam virem cá para fora.
Quando olhamos nesta perspectiva, percebemos que a Torre é, na verdade, a primeira manifestação do que nos permite sobreviver enquanto humanidade e que tem estado tão na ordem do dia, tão ameaçada por aqueles que a querem ver diminuída para que sobre essa atitude possam alimentar-se do medo e da descrença. Duma forma muito pouco convencional, a Torre é a primeira face da Empatia e a sua primeira manifestação. Contudo, não é nela que o colo se dá, que a ajuda acontece, tudo o que acima foi referido é o que é necessário e uma escolha que necessitamos de fazer, a de largarmos o orgulho, as regras que nos foram ensinadas, a presunção e o individualismo e pedir ajuda e auxílio.
No topo da Torre, uma coroa, símbolo de todas estas coisas que pertencem à matéria, mas que se desajustam da nossa essência enquanto Espíritos, é atingida por um raio vindo dos céus, soltando-se do edifício. Esta simbologia lembra-nos que existem forças superiores a nós mesmos, que não são aquelas divinas que as religiões nos mostram e às quais temos de “obedecer”, mas sim leis cósmicas, como as leis herméticas, que nos mostram que estamos todos ligados e conectados, que tudo existe num equilíbrio próprio, único e que não depende dum ser único, mas de todos nós. Quando as coisas da matéria sobrepõem-se às do espírito, não as respeitando e não cumprindo o propósito da nossa evolução, há um reequilíbrio e um reajustamento que são necessários, como a natureza nos mostra e que tão presente está nesta carta.
É preciso deixar cair, com estrondo, com estilhaços espalhados por tudo quanto é sítio, para percebermos uma grande verdade que a Torre nos oferece, a de que só quebra o que é preciso, de que só perdemos o que já não nos pertencia, de que nada do que está bem é por ela destruído.
Pensando em todas estas coisas, podemos perceber como a Torre se adequa tão bem aos tempos que vivemos, assim como às nossas próprias vidas. É preciso largar o que nos trouxe até à dor, purificarmo-nos através dela e resignarmo-nos à sua vontade para encontrarmos o caminho para a redenção (a carta XIX – O Sol) que nos levará a renascer (a carta XX – O Julgamento) e realinhar com o cumprimento do nosso propósito (a carta XXI – O Mundo), de volta à nossa Essência (a carta 0 – O Louco). Por isso, os tempos que vivemos, como tantas e tantas vezes tenho referido, são tão importantes, cruciais e únicos, pois eles oferecem-nos todas estas possibilidades. Para tal, só precisamos de abrir a nossa Visão e nos permitirmos voltar à nossa própria humanidade.
Depois de nos permitirmos sentir, experienciar a ruptura, a dor e o sofrimento de tudo o que estamos a viver, é preciso percebermos também uma coisa importante, que essas vivências são reflexo de coisas que temos agarrado, suportado e carregado em nós, de posturas e de atitudes. É nessa consciência que nos é exigido largar tudo isso que já só nos faz mal. É preciso deixar cair, com estrondo, com estilhaços espalhados por tudo quanto é sítio, para percebermos uma grande verdade que a Torre nos oferece, a de que só quebra o que é preciso, de que só perdemos o que já não nos pertencia, de que nada do que está bem é por ela destruído.
Muitas vezes, e como referi atrás, suportamos coisas por medo de perdermos algo, mas a Torre mostra-nos que esse aguentar traz profundo sofrimento, esgotamento, doença e destruição sem sentido. Muitas vezes, também, é quando tudo cai e se quebra (até porque há coisas que caem, mas não quebram, e isso mostra-nos o quão importantes são) que percebemos o espaço que elas ocupavam, o quanto elas estavam a impedir-nos de crescer, o peso desnecessário que elas nos colocavam nas costas.
Por isso, a Torre oferece-nos uma nova Visão sobre nós, sobre o mundo, sobre a vida, sobre tudo o que nos rodeia, ela revela-nos o que antes estava coberto e ocultado por véus, ela mostra-nos tudo o que é, como verdadeiramente é, mesmo que tal seja difícil de ver, de encarar e de aceitar. Muitas vezes, a maior dor que temos não se obtém pela visão que temos do que nos rodeia, do que nos acontece ou da acção dos outros que levou a tudo o que estamos a viver. Pelo contrário, maior parte das vezes, a verdadeira dor provém de compreendermos o que fizemos, o que permitimos, o que tolerámos, com o que compactuamos e do que fomos cúmplices, mas é essa visão que nos permite fazer o processo de cura que necessitamos para poder evoluir.
Quando o nosso mundo, assim como o mundo que nos rodeia, parece ruir, quando ele está mesmo a desmoronar-se, precisamos de ser como o barco no meio da tempestade e largar os nossos mecanismos de controlo, largar a arrogância e a soberba, rendermo-nos e, como refere a Oração da Serenidade, aceitarmos o que não podemos mudar, termos coragem para modificar o que está nas nossas mãos e termos sabedoria para discernir entre as duas. Em momento algum ela retira-nos poder, livre-arbítrio ou escolha, bem pelo contrário! No entanto, ela mostra-nos que há coisas que não são nossas nem nunca foram, que não nos pertencem nem podem ser por nós suportadas, que não podemos querer prosperidade, crescimento, felicidade e bondade sem largar tudo o que impede que isso se manifeste.
A Torre é o princípio da serenidade, o grande estrondo que dá origem a um silêncio profundo, que nos acorda da sonolência, a poeira que assenta e nos permite ver o que resta e o que há a fazer a partir desse ponto, como um caminho que, embora não sendo totalmente novo, é em si uma escolha. Depois de vermos a verdade sobre alguma coisa, nas nossas mãos fica uma gigante responsabilidade. Quando algo se revela perante os nossos olhos, não há mais véus que possam justificar a ignorância, apenas a consciência profunda de quem somos e de quem queremos ser, a escolha de qual caminho queremos percorrer e a consequência dessa mesma decisão e nada mais. Perante a Verdade que uma revelação nos mostra, tudo é simples, tudo é directo, tudo é o que é e essa é uma das grandes essências que a Torre nos oferece.















