O percurso que o Zodíaco representa e manifesta não é um trilho linear, nem os seus signos são peças separadas que sucedem umas às outras. Muito mais profundo e significativo, o Zodíaco é uma aprendizagem que o Universo nos oferece neste sistema em que estamos integrados e as suas energias são vibrações de trabalho sobre nós mesmos, manifestações da Criação da Vida neste plano. Por isso, os signos integram-se e trabalham em conjunto para trazer à Terra a beleza e a sabedoria do divino.
A forma mais directa de vermos esse trabalho é-nos mostrada através do caminho do ano, digamos, “natural”, o que começa com a Primavera e o Ponto Vernal, com a activação do Signo de Carneiro, e que nos mostra o ciclo profundo da vida e toda a sua dimensão. É nesse processo que, após o arranque do primeiro signo, Touro nos surge e nos oferece a sua energia, sendo o primeiro activador do elemento Terra, a estrutura e o nutrir que sustenta o Espírito.
Neste plano, independentemente do que seja, nada existe sem estar materializado. Sem matéria só existe vontade ou idealização. Sem concretização, nada passa dum conceito ou dum potencial. É essa activação que Touro nos traz, após o libertar da essência que Carneiro representou, após o trazer desse impulso forte e determinante que permite sair do campo do inconsciente, das suas profundezas, e rasgar o véu, tornar-se matéria, ser o Verbo que se faz Carne.
A planta que rasga a terra, como a criança que acaba de nascer, é um pequenino e frágil broto que necessita de ganhar estrutura, força, resistência e resiliência, precisa de ser nutrida e protegida para poder cumprir o seu propósito. É em Touro que a Natureza compreende a beleza do nutrir que cria a estrutura necessária para a planta possa ser o receptáculo do pólen que irá movimentar-se e fecundar, gerar o fruto, o alimento da vida. Contudo, para o fazer, a planta precisa de ser forte, de ter estrutura e, por isso também, ela própria precisa da nutrição que está guardada e reservada na terra, activada pelas águas das chuvas que o ponto central da Primavera nos traz.

Touro é o segundo signo do Zodíaco, a primeira activação do Elemento Terra e do Modo Fixo, o centro da Primavera, quando a energia da estação está estruturada e sustenta o trabalho que é preciso ser feito. Depois do Fogo do arranque de Carneiro, o Espírito torna-se Matéria em Touro, trazendo as características que a vida, no seu princípio, precisa de manifestar. É em Touro que aprendemos a resistência, a força, a resiliência, a persistência, a perseverança que nos leva à vivência do conforto, da segurança, da estabilidade e da sustentabilidade que a matéria nos oferece. É na sua vibração que aprendemos que neste plano tudo se manifesta através de valor, que ele é uma espécie (e até mesmo literal) de moeda de troca, mas também de compreensão e percepção de todas as coisas.
A vida é rica, abundante e próspera, uma simples semente tem a capacidade de gerar inúmeras e incontáveis novas sementes, frutos nutritivos e dar estrutura a outras plantas, animais, insectos e tantos outros seres. Aquela simples semente que no primeiro signo rasga a casca e liberta o seu potencial encontra agora o que precisa para poder prosperar, as condições para, no momento certo, se multiplicar. A vontade de Carneiro encontra a compreensão profunda da abundância da vida e nela confia para que possa materializar o propósito divino da multiplicação.
Para que tal se processe, é necessário que existam bases, estruturas, solidez e capacidade de superar obstáculos e aguentar as intempéries que o caminho nos oferece. Por isso, Touro representa o Pilar Energético do Elemento Terra, da Primavera, a energia de sustentação da primeira estação e a vibração da abundância. Sendo o modo Fixo do elemento Terra, Touro traz-nos uma base sólida e estruturada, alicerces profundos que permitem que sobre eles a vida se construa, no seu tempo certo, na sua dimensão correcta.
No Zodíaco encontramos 4 Grandes Pilares, os signos fixos de cada elemento, sendo Touro o primeiro a ser activado. Eles são os grandes sustentadores energéticos de cada estação, os suportes energéticos do processo da vida, desde o seu início até à sua integração. Simbolicamente, eles são também ligados aos Tetramorfos (do grego tetra, “quatro”, e morphé, “forma”), os quatro seres que encontramos em muitas representações religiosas a rodear Deus, a Unidade, assim como nas cartas X – A Roda da Fortuna e XXI – O Mundo no Tarot. Eles traduzem também os quatro evangelistas que, nos seus escritos, nos trazem quatro faces de Jesus, quatro formas de ver o Cristo. Antes ainda, nas escrituras, encontramos esta representação no livro de Ezequiel, profeta do Antigo Testamento. Touro é, assim, o primeiro dos pilares, ligado ao elemento Terra, ao Apóstolo Lucas, que nos traz a ideia sacrificial da morte de Jesus, muito ligada ao próprio animal.

Na mitologia grega, encontramos Touro em diversas histórias, destacando-se o mito ligado à deusa Europa, raptada por Zeus que se transforma num enorme touro branco para a seduzir. Europa fica encantada com a beleza e mansidão do touro. A brancura da pele do touro era resplandecente, contrastando de tal forma com a natureza à sua volta que os sentidos de Europa foram subjugados e toldados, perdendo a noção de onde estava. Voltando a si, o touro já estava muito próximo e a sua complacência levou a que Europa ficasse mais confortável.
De forma plácida, o touro colocou a sua cabeça nas pernas de Europa que, ajoelhada, estava completamente seduzida por ele. Com as suas amigas, fizeram uma grinalda de flores que Europa quis enrolar à volta dos cornos do touro, mas, para isso, teve de subir para as espáduas e é nesse momento que o bicho se levanta, fazendo com que ela se agarre ao seu pescoço, e começa a correr, raptando-a. Zeus levou-a para uma ilha onde com ela se deitou, gerando rês filhos. Depois, Zeus ofereceu-a em casamento ao rei de Creta, Astério. O mais velhos dos filhos, Minos, tornou-se rei de Creta mais tarde, e é dele que vem outro mito que, de certa forma, está relacionado com o signo de Touro, o do Minotauro.
Vénus (Afrodite), a deusa da beleza, do desejo, do amor e da abundância, também está profundamente ligada à energia de Touro. Vénus é regente de Touro, o planeta que nele encontra o seu domicílio, onde as características de ambos combinam e se desenvolvem. Vénus recorda-nos o lado sensorial de Touro, os cinco sentidos físicos e corpóreos que nos conectam a esta dimensão terrena. O que nos dá forma nesta dimensão é o corpo físico, é ele que nos leva da pura existência para uma manifestação superior. É através do corpo físico que o Espírito se pode manifestar neste plano, que pode ser criador e gerador de todas as coisas.
O nosso corpo não é apenas uma máquina fantástica nem um simples mecanismo, ele é o milagre que nos permite cumprir o nosso propósito aqui neste plano. Mais do que funcional, o corpo é sensorial, e é isso que Vénus nos mostra como regente de Touro, permitindo-nos ser mais do que simples máquinas. Os nossos sentidos são receptores do mundo que nos rodeia, manifestando a vibração de polaridade feminina que Touro representa, são formas de compreender e de nos ligarmos à nossa realidade. Eles levam-nos para uma dimensão venusiana, que é superior à simples manifestação dos sentidos da visão, audição, tacto, paladar ou olfacto, que nos conectam com algo que este plano nos oferece como aprendizagem, a sensação.
Vénus conecta-se a Touro no mais terreno que ele tem para oferecer, a experiência dos sentidos, o desejo, a posse e o prazer. Quando vividas numa dimensão egocêntrica, fechada em si mesma, castrada, toda a dimensão de Touro torna-se uma destruição da criação, pois ela vai ficar enclausurada na necessidade da posse e da riqueza, no consumo como forma de compensação, no medo da perda, da carência e na miserabilidade, e tal leva ao apego, à teimosia, a um lado obstinado. O nascimento de Vénus provém da castração de Úrano por Cronos, o que simbolicamente nos leva a uma percepção muito curiosa da forma como existimos enquanto corpos aqui na Terra.
O corpo precisa de sentir, de ser estimulado, de ter conforto, nutrição, de viver prazer, desejo, de experienciar todas estas coisas como uma forma de manifestar a abundância que a Terra tem para nos oferecer. A matéria, por si só, é abundante, é fértil, é generosa, é de dádiva. É nessa vivência que encontramos conforto, segurança e estrutura. Não é com restrição, cautela e castração que tal se processa, pelo contrário. Quando vivemos nessa postura de miséria, de restrição, não cumprimos nem vivemos o que a matéria tem para nos dar, pois, invariavelmente, vamos viver culpa e medo, como Adão e Eva quando “percebem” que estão nus e sentem vergonha.

Pelo contrário, quando nos libertamos dos pudores, quando nos conhecemos nessa vivência profunda que é o prazer de usufruir das coisas que a Terra e a matéria nos oferecem, Touro torna-se criador, gerador, manifestador de prosperidade. É preciso segurança, conforto e estabilidade para construir algo, mas essa construção, essa criação, só se materializa quando a energia se movimenta, quando há um investimento dos nossos recursos em prol de algo que está para além de nós mesmos, que tem um sentido e está ao serviço. De que serve uma enorme riqueza acumulada se não faço nada com ela para melhorar o mundo que me rodeia e, dessa forma, melhorar o meu próprio mundo e a minha própria vida?
O caminho de Touro é o caminho dos sentidos, a aprendizagem do prazer, das emoções, do amor terreno em todas as suas dimensões. O que levamos deste mundo não são as posses, a riqueza que acumulámos ou os bens que adquirimos. Pelo contrário, o que nos recordamos ao longo da nossa vida são as emoções vividas, o prazer sentido, um cheiro, um sabor, uma imagem, um toque, uma voz, palavras que nos foram ditas e que nos tocaram o coração, o bem que fizemos e que nos devolveu um sorriso, que nos ofereceu a pureza do amor. No final de tudo, é apenas isso que fica e é só isso que levamos connosco ao longo do percurso, as emoções, as sensações, os sentimentos, o que nos nutriu e nos fez ser e construir mais do que éramos inicialmente.
A prosperidade que Touro nos oferece provém da vivência plena dos sentidos, do prazer que tiramos em todas as coisas, do nutrir que deu os seus frutos, da persistência, da resiliência e do foco para dar forma e matéria àquilo que foi, um dia, vontade.
Por isso, em Touro a abundância é um reconhecimento e a compreensão dum princípio que é transversal a tudo o que existe neste plano. A Terra, a matéria e a vida são, por natureza, abundantes, ricas, com um potencial de crescimento tendencialmente infinito, mas há uma regra básica que precisamos de aprender com a energia deste signo para que tudo isso possa ser possível. Não precisamos de procurar a abundância nem sentir medo de a perder ou de que ela seja por alguém roubada, pois ela está em tudo e disponível para todos. É apenas movimentando-a que ela pode ser criadora e, por isso, Touro é, na verdade, uma aprendizagem de prosperidade.
A prosperidade que Touro nos oferece provém da vivência plena dos sentidos, do prazer que tiramos em todas as coisas, do nutrir que deu os seus frutos, da persistência, da resiliência e do foco para dar forma e matéria àquilo que foi, um dia, vontade. Nada neste plano existe sem ser nutrido e nutrição é, acima de tudo, amor. Por isso, Touro é o primeiro contacto que temos com essa dimensão do nosso Universo, o amor num sentido terreno, prático, sensorial e, por isso, mesmo, tão difícil e profundo. É isso que faz de Touro um signo profundamente espiritual, pois ele representa a confrontação do Espírito com a Matéria e a sua ancoragem a este plano.
Touro tem sido um dos signos mais trabalhados nestes anos. Úrano tem estado a transitar nos domínios de Vénus desde 2018, encerrando esse caminho precisamente neste tempo em que o Sol vai estar a caminhar por Touro, na madrugada do dia 26 de Abril. Nestes dias que acompanham o ingresso do Sol no Signo de Touro e a fase final de Úrano no seu trabalho no signo fixo de Terra, Vénus vai estar a acompanhá-lo, continuando a fazê-lo nos seus primeiros momentos no signo de Gémeos.
Este encontro é muito interessante, simbólico e primordial, nomeadamente quando temos tanta energia de Carneiro ainda no ar. Há um pedido claro de libertação do nosso sentir, das nossas emoções, uma exigência contundente e profunda da vivência de amor, não o incondicional, mas o terreno, o concreto, com tudo o que ele tem para nos oferecer. Muitos dos problemas que encontramos neste mundo actualmente provêm duma necessidade clara de compensação emocional, com homens em fase final da vida, frustrados e carentes, com falta de amor, a lançarem o caos no mundo por causa dos seus medos, com legislações a serem criadas baseadas em receios e percpeções, mas que em nada responde aos problemas reais, também eles taurinos, das populações.

Isto faz, e é claro no mapa do ingresso do Sol em Touro, com que as emoções estejam a ser profundamente intensificadas, pois as inseguranças, os medos, as dúvidas e os anseios estão a ser todos os dias amplificados. Isto é energia, tudo na matéria o é, e Touro é a manifestação plena e terrena dessa realidade. Sendo energia, ela movimenta-se e vai para onde mais é desejada e para onde é atraída. Se vibrarmos no medo, ela serve de alimento a quem dela necessita para se manter, mas se soubermos viver em prazer, amor, generosidade e dádiva, o alimento será também esse e tem a capacidade de transformar o mundo. Recordemo-nos das palavras da primeira carta de Paulo aos Coríntios, aqui na tradução do Professor Frederico Lourenço da Bíblia.
“4O amor é paciente, prestante é o amor: não inveja, não fanfarrona, não se incha <de vaidade>; (…) 6não se alegra com a injustiça, mas alegra-se pela verdade. 7Tudo aguenta, tudo confia, tudo espera, tudo suporta.”
Este excerto, independentemente do que se considere sobre S. Paulo (do qual não sou o maior defensor), é dos mais belos escritos que podemos encontrar sobre o amor traduzido para o plano terreno e que, indiscutivelmente, se liga à profunda e bela dimensão de Touro.
É esta energia que neste momento precisamos de integrar, com a passagem do Sol por Touro, com o término da passagem de Úrano por ele e com a entrada de Quíron no primeiro signo de Terra a processar-se entre este 2026 e 2027. A maior revolução que o mundo necessita neste momento é a do amor, aquele que cura, que tem a capacidade e o poder de eliminar a fome no mundo, que tem a capacidade de dar um tecto a quem precisa, estabilidade e conforto para que cada um possa ter uma vida digna, saudável e próspera e que, no fundo, não retira nada a ninguém, apenas se multiplica. Parece algo revolucionário e louco? Então Jesus, o Mestre, era isso tudo e muito mais, e em tempos onde tantos se dizem cristãos, mas tão poucos seguem os seus ensinamentos, isto dá que pensar.
Referências Bibliográficas:
JOHNSTON, Sarah Iles. Deuses e Mortais, As Grandes Histórias da Mitologia Grega. Alma dos Livros, 2025
LOURENÇO, Frederico. Bíblia, Volume II, Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. Quetzal Editores, 2017
Nota Final:
Há alguns anos lancei um projecto de Workshops chamado “Os 12 Caminhos”, onde, a cada mês, falei sobre o signo desse período, trabalhando as suas ideias e os seus propósitos. Foi sob a égide dessa ideia que agora lanço este projecto de 12 artigos, de Março de 2026 a Fevereiro de 2027, um por cada signo, onde exploro um pouco do seu propósito, mas onde integro a vivência da sua energia no tempo que vivemos. Estes são tempos de tomadas de consciência, de novos caminhos que se abrem e de novas posturas que nos são solicitadas. Por isso, ao longo dos próximos 12 meses, vamos dar passos pelos caminhos de cada signo na descoberta da sua dimensão mais sublime e do seu propósito, enquadrado no desafio que este tempo nos apresenta. Pode encontrar aqui todos os publicados.
















