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Jogos Mentais

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A mente humana é uma estrutura extraordinária e fantástica, mas profundamente complexa. Para além de toda a amplitude de processos fisiológicos que o nosso cérebro comanda, há também uma gigantesca dimensão de emoções e pensamentos que formam a nossa consciência e nos definem dentro daquilo que é ser humano. Registamos incontáveis informações durante os nossos dias, temos inúmeras emoções e pensamentos ao longo das horas em que estamos acordados, mas mesmo no mais profundo sono, a nossa mente continua a desenvolver processos essenciais e inconscientes.

Se existimos, pensamos, sentimos, tomamos decisões e actuamos sobre a realidade que nos envolve, é muito graças a esta imensidão que existe dentro de nós. Contudo, como também facilmente compreendemos, nem que seja porque o observamos todos os dias, a humanidade que em nós existe é capaz das maiores criações, mas também da maior destruição. Este poder que está nas nossas mãos é fruto, precisamente, de toda esta complexidade em que, todos os dias, vivemos, em que a nossa consciência se desenvolve e se apoia em valores, crenças e conceitos, mas também em algo que tem uma influência muito forte em todos nós: os medos.

O medo é uma resposta instintiva, primitiva, que tem como grande propósito a preservação da existência. Em doses pequenas e incisivas, ele salva vidas e impede-nos de nos magoarmos, mas com a nossa complexidade mental, ele pode transformar um processo simples numa gigantesca tempestade, amplificando os nossos pensamentos, mas dirigindo-os num sentido contrário àquele que resolveria o problema. Na verdade, como resposta instintiva que é, o medo dispara as nossas emoções e, como reacção, a nossa mente também vai processar mais informações. A questão fundamental aqui é que a mente vai assumir o controlo, precisamente porque é isso que vamos sentir que nos escapará entre os dedos.

Todo este processo pode ser muito rápido e directo, mas maior parte das vezes ele é lento e estendido por muito tempo, levando a que a nossa mente entre num caminho muito perigoso e desajustado da nossa essência. É nesse sentido que, baseados nos medos, entramos em jogos mentais, em labirintos de opções e soluções, de possibilidades infinitas de resultados que nos fazem perder a noção do que é essencial em cada situação nas nossas vidas. Vemos isso do ponto de vista profissional, mas é no campo das relações interpessoais que os jogos mentais são mais destruidores, mesmo sem sequer deles nos apercebermos.

A vivência na matéria leva-nos a viver uma necessidade de estrutura e segurança. Quando encontramos algo que nos faz ter essa sensação, todo o nosso sistema se orienta para a sua preservação, tentando sempre manter as condições que nos trouxeram essa suposta paz interior. Isto leva-nos a focarmo-nos mais na preservação do que atingimos do que em entender o seu potencial de crescimento e de evolução, simplesmente porque isso implica mudança e, no nosso entender mais “básico”, isso pode significar perder essas tais estruturas que tanto nos custaram obter.

É nesse caminho, e principalmente quando algo muda ou ameaça mudar a segurança que sentimos, que o medo nos começa a invadir a mente e a tomar conta dela, levando-nos a iniciar um conjunto de processos que permitam voltar a um lugar que já conhecemos. Como um computador que tem registado um ponto de restauro de segurança, que podemos resgatar quando algum processo faz com que o sistema deixe de funcionar, também nós guardamos essa sensação e, no caso de haver um desequilíbrio de alguma natureza, a nossa mente acciona um alarme e um conjunto de processos mentais começam a desenhar-se, iniciando os jogos mentais que, acreditamos, nos vão permitir manter tudo como estava.

Todos nós conhecemos estes jogos mentais e fazemos deles uso em diversas situações. Quando não nos sentimos confortáveis com algo que a pessoa que amamos faz ou diz, mas o medo de a perder é forte, criamos um conjunto de possibilidades e ideias na nossa mente, procurando as palavras certas para dizer ou, no ideal, não dizer nada e levar a que a pessoa entenda, modificando assim o seu comportamento. Quando não gostamos de fazer alguma coisa no trabalho, ou simplesmente não nos sentimos confortáveis em fazer, pois já estamos sobrecarregados e nem sequer temos o conhecimento necessário, e procrastinamos, arranjamos desculpas ou dizemos que “sim”, só para não existir confronto.

Estes, como tantos outros processos, são resultado de medos que existem dentro de nós que, perante estas situações, despoletam um pensamento acelerado e descontrolado, sempre dirigido para as piores hipóteses, e que nos levam a criar estes jogos para tentar manter a tal estabilidade que cremos ser absolutamente essencial. O que muitas vezes não percebemos é que estas situações surgem precisamente porque a estrutura montada já não serve o nosso crescimento, que nos está a destruir por dentro, que nos está a tirar vida e prazer nas coisas que temos e que fazemos. Sacrificamos a nossa felicidade e a nossa essência pela estabilidade, pelo conforto e pela segurança, sem nos apercebermos que, na verdade, tais coisas não representam nada disso.

Quando largamos os jogos mentais, quando nos permitimos trazer a nossa essência à superfície, vulnerabilizando-nos, voltando ao nosso centro, ao nosso coração, e vivendo cada situação em amor, empatia, tolerância, compreensão e entendimento, conseguimos sair dos labirintos da nossa mente e criar uma vida mais bela e harmoniosa.

Sacrificar algo, prescindir ou fazer cedências faz parte de todo o tipo de relações interpessoais. Uma relação é uma partilha, um compromisso e uma negociação constantes, o que implica que precisamos de dar algo de nós para manter uma vivência saudável, construtiva e de crescimento. No entanto, o medo pode levar-nos a não defender o nosso próprio bem-estar, a não colocarmos limites e a permitirmos, em prol duma qualquer segurança que temos presente em nós, que o outro, qualquer que ele seja, ocupe mais espaço do que aquele que lhe pertence. Nesse processo, os jogos mentais tomaram controlo das nossas acções e soterraram a nossa própria essência.

Esses jogos e processos que amplificam os nossos pensamentos, que transformam a nossa vida num constante xadrez e nos colocam num labirinto que não tem uma saída, são profundamente destrutivos e nem sequer nos apercebemos disso. Recordemos, por instantes, que um jogo implica sempre, qualquer que ele seja, que existe uma vitória e uma derrota. A vitória tem de ser do nosso lado e contra um sistema, não necessariamente uma pessoa, mas nós não podemos sair derrotados, pois isso significa perder a tal estrutura que sentimos ser essencial de preservar. O que nos esquecemos, no meio de toda essa correria da nossa mente, é que se temos de ganhar, algo terá de ser perdido, que há sempre um custo associado a todos estes movimentos e que, maior parte das vezes, ou mesmo todas, ele está ligado a nós mesmos.

O maior custo destes jogos e processos mentais excessivos é a nossa própria integridade, a nossa felicidade e a nossa essência. Uma criança a quem é incutido, constantemente, sem explicação ou qualquer discernimento, que tem de ser perfeita, que não pode errar, que não pode falhar, que não pode pintar num desenho fora dos traços ou que não pode ter um teste negativo ou com um resultado mais baixo, mesmo que tenha feito todo o esforço do mundo, que não pode sujar-se ou cair, é uma criança que vai perder a sua essência criativa e aventureira. O custo do jogo que é incutido nessa criança tem uma consequência nefasta, torna-a um autómato, tira-lhe o brilho e a diversão. O adulto que ela se irá tornar tem em si uma frustração gigantesca, um medo contido e uma individualidade castrada.

Quando largamos os jogos mentais, quando nos permitimos trazer a nossa essência à superfície, vulnerabilizando-nos, voltando ao nosso centro, ao nosso coração, e vivendo cada situação em amor, empatia, tolerância, compreensão e entendimento, conseguimos sair dos labirintos da nossa mente e criar uma vida mais bela e harmoniosa. No entanto, para conseguimos dar esse passo, é preciso libertarmo-nos das nossas próprias amarras, trabalhar os nossos medos, mexer nas feridas que estão em nós guardadas e que nos bloqueiam em todos os momentos e situações. Quando mergulhamos dentro de nós e trabalhamos sobre as questões que nos têm aprisionado, compreendemos que esses jogos em que tão facilmente entramos não só são desnecessários, como também destrutivos.

É nessa consciência que percebemos que, na vida, tudo o que é muito complexo, que envolve demasiados passos e processos, muito provavelmente, está fora do sítio. A vida é, por natureza, simples e, mesmo quando existem curvas, elas não fazem grandes voltas nem rotundas. É a nossa mente que torna tudo mais difícil do que realmente é e que, por medo, cria caminhos sobre caminhos, atalhos que neles se sobrepõem, regras e infinitos obstáculos. No entanto, a geometria ensina-nos que o caminho mais curto entre dos pontos é sempre uma recta e é nesse simbolismo que podemos entender que, quando estamos em sintonia com a nossa essência, alinhados com a nossa recta conduta, não precisamos de jogos, apenas de alinhar a nossa mente com o nosso coração, e todos os véus caem e tudo se torna muito mais claro no nosso caminho.

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