Ao longo do ano solar existem quatro momentos-chave que definem o arranque das estações. Esses momentos, para além de astronomicamente importantes, são também simbólicos e poderosos, pois representam as activações energéticas do Zodíaco nos quatro elementos. Com o ingresso do Sol em Carneiro (Áries) vivemos a activação do elemento Fogo, manifestado através do Equinócio da Primavera, e agora chega-nos o ingresso do Sol em Caranguejo (Câncer), que nos é trazido pelo Solstício de Verão e que activa o elemento Água.
O Solstício de Verão no hemisfério norte é o momento em que o Sol atinge o seu Zénite, tocando uma linha imaginária que chamamos de Trópico de Caranguejo. É nesse momento em que o dia atinge o seu tempo máximo de luz solar, em que o rei Sol é coroado, que atinge a sua força máxima e traz a celebração da Vida, da fecundidade, da prosperidade. O Solstício, palavra que significa “sol parado” (do latim solstitium), representa a exponenciação de uma das forças da dualidade – no Verão, a da Luz, no Inverno, a da Sombra – e recorda-nos dos ciclos que nos regem e nos orientam no grande percurso que é a Vida.
É neste dia, o mais longo do ano, que a vida se manifesta no seu esplendor e em que somos recordados da sua força, do seu brilho e da sua manifestação criadora. É neste momento, em que o Sol atinge a sua plenitude, que as flores se começam a transformar em fruto e em que com a sua força se nutrem para nos oferecer o alimento que será o sustento do tempo da escuridão. A partir deste momento os dias começam, lentamente a diminuir, ainda que o tempo de dia se mantenha maior que o de noite, algo que só inverterá no Equinócio de Outono, mas a intensidade do Sol fortalece-se, trazendo-nos a força da vida, a representação da sua bênção.
Este tempo é duma beleza ímpar, mas duma fragilidade extraordinária. É nele que a vida que se formou nos meses anteriores se começa a tornar Ser, a se nutrir e a manifestar-se na base do seu propósito. É neste tempo que a bênção do bem mais precioso que temos aqui na Terra, a nossa Vida, recai sobre a Terra, nutrindo os alimentos, formando-os e dando-lhes a força que nos permitirá sobreviver ao tempo da agrura. Contudo, este é um tempo de fragilidade, em que uma chuva mais forte ou um calor mais intenso, uma simples geada ou uma praga, poderão destruir uma sementeira inteira ou um pomar.
É esta dualidade que nos é oferecida através do quarto signo do Zodíaco, o signo de Caranguejo (Câncer), a primeira energia do elemento Água que é activada neste caminho, que abre o Verão e nos traz a existência que se prepara para se tornar algo mais. Como todos os signos de Água, Caranguejo é um portal, um signo de transição, de memória, que nos transporta duma realidade para outra, que nos leva dum plano para outro diferente. A flor torna-se fruto para depois se tornar semente, o feto que no ventre é nutrido ganha a forma que lhe permitirá tornar-se um Ser e nascer, ser dado à Luz, a simbologia que o signo seguinte, Leão, nos trará.
Contudo, a nossa existência não se dá por espontaneidade, não somos formados do nada, não somos uma tábua rasa, uma simples tela em branco onde tudo vai ser criado de origem. Somos, sem dúvida, uma manifestação de possibilidades e potenciais, existimos e materializamos um caminho que está apenas e unicamente nas nossas mãos, mas carregamos em nós, desde o ventre materno, um domínio muito associado a Caranguejo, um conjunto de informação, de registos e de memórias que nos formam e fazem farte da nossa construção. Por isso, Caranguejo é um signo muito especial e importante, que se revela não pelo que se vê, mas sim pelo que contém, como as raízes profundas duma árvore que, embora não se vislumbrem, são a base que a sustenta, a alimenta e a permite crescer e dirigir-se para o cumprimento do seu propósito.

Caranguejo é um signo muito peculiar, muitas vezes incompreendido. Tal acontece, pois, sendo um signo de Água, ele leva-nos para um domínio associado a uma dimensão inconsciente do nosso ser, um lugar em que é, muitas vezes, difícil de se caminhar, onde facilmente nos perdemos ou ficamos enredados. Os signos do elemento Água são, dentro do Zodíaco, energias muito fortes e desafiadoras, difíceis de trabalhar, e podemos ver esta natureza, precisamente, nas áreas do nosso mapa onde eles estão activados.
Sendo o primeiro signo de Água a ser activado no caminho do Zodíaco, ele representa a força cardinal, o arranque da estação, o libertar desta natureza energética. Por isso, a sua manifestação, embora aparentemente suave, é poderosa e de grande impulso, mesmo quando tal não se vê. Caranguejo leva-nos para um lado interior do nosso ser, uma dimensão profunda que é frágil, mas poderosa, o lugar onde a vida se forma, se tece e se manifesta, onde tudo está guardado, reservado e preservado. Contudo, este é um lugar de enorme riqueza, de tesouros profundos que nos estão acessíveis e cujo grande propósito é, precisamente, a transformação, para que possam amplificar-se e tornar-se mais do que apenas algo que está intrínseco e guardado em nós.
Conhecido como um signo ligado à energia da Mãe e à maternidade, é preciso entendermos que Caranguejo representa um estágio onde esta vibração é interior. Por isso, ele traz-nos a Mãe enquanto arquétipo, manifestada nas suas mais diversas formas. Por um lado, ele é a Mãe que carrega o filho no ventre, que com ele está ligada de forma profunda, íntima e visceral, que através dessa ligação nutre-o e forma-o, que cria uma força e um instinto de protecção absoluto e poderoso que a fará dar tudo, inclusive a vida, para que ele possa sobreviver. A nossa primeira Casa é o ventre materno, o nosso primeiro Lar é a nossa Mãe, e Caranguejo expressa essa verdade de forma sublime. No entanto, não é nessa natureza que conseguiremos trazer o propósito do nosso Espírito, não é nessa base que o conseguiremos expressar. É preciso um corpo, trazido à Luz, preparado para a existência, para a afirmação do nosso Eu, animado pela Alma e com mecanismos prontos para este caminho desafiador e pesado que fazemos neste plano.
Por isso, Caranguejo também nos mostra o papel que permanece após o nascimento da criança, também ele de nutrição, protecção e preparação para a vida consciente, adulta e independente, algo que se torna um desafio de evolução para a energia deste signo. Tal acontece, pois Caranguejo carrega em si o dom (ou talvez a maldição) do fio da vida, aquele que nos dá a existência, mas que do qual, conscientemente, necessitamos de nos libertar. No útero materno, a placenta protege-nos e permite a nossa formação, e através do cordão umbilical, símbolo máximo desta premissa, somos desenvolvidos e nutridos. É esse útero materno, o cálice que nos recebe e nos dá vida, a grande natureza de Caranguejo, a grande beleza que ele contém. Contudo, e como a vida nos mostra, ele é um receptáculo com um tempo útil limitado, com uma função muito específica, mas com um poder extraordinário, e é essa força que nos traz muitas das características que conhecemos deste signo.
Para podermos honrar esse propósito de Caranguejo, o de sermos cuidadores, o de nutrirmos, protegermos e prepararmos para o caminho da vida, é primeiro preciso aprendermos a fazer isso connosco.
O Fio da Vida não é apenas aquilo que nos forma e nos tece, mas é também o que nos liga a todas as dimensões do nosso ser, a tudo o que somos e que fomos, através de todos aqueles que antes de nós cá estiveram e abriram o caminho para que possamos cumprir o nossos propósito. É através desse fio também que nos projectamos para o futuro, que manifestamos o nosso ser e nos construímos. Contudo, para que o consigamos fazer, precisamos de o integrar e dele nos tornarmos mestres. O cordão umbilical é a fonte da sustentação da nossa vida no ventre materno, o útero a estrutura que nos protege e nos permite o desenvolvimento. É toda essa dimensão que nos dá alicerces, nos sustenta e nos permitirá construir o enorme edifício que é a nossa vida e a nossa existência.
Caranguejo é uma estrutura poderosa que nos permite existir neste plano. Por isso, ele é a energia arquetípica e primordial do nosso Ego, a base profunda da nossa sobrevivência na Terra. Sem a sua vibração, facilmente nos destruiríamos e extinguir-nos-íamos em pouco tempo. É essa natureza que torna este signo tão dual, pois sendo um signo de água e com uma natureza emocional muito profunda, ele consegue ser muito estruturado, muito contido e defensivo, por vezes até aparentando uma certa frieza. No entanto, tal refere-se à capacidade de integrar as várias dimensões da existência num sentido de autopreservação, de autoprotecção e na capacidade de suportar as dores da vida terrena de forma estoica e imperturbável. A mãe que dá à luz tem uma capacidade de suportar dor que é quase sobrehumana, mas que, na verdade, é a representação profunda desta verdade canceriana.
A própria figura do Caranguejo, o animal, mostra-nos uma parcela importante da energia deste signo. A sua carapaça, forte, robusta, é uma armadura que protege a zona mais frágil, a que fica mais próxima do chão, uma barreira de defesa. As pinças são poderosas, fortes e, quando agarram, não largam. Esta é a natureza de Caranguejo, a protecção, a defesa do que é importante, do que é essencial, do que é frágil. Fá-lo instintiva, mas também implacavelmente, pois o seu grande propósito é o de cuidar.

Para podermos honrar esse propósito de Caranguejo, o de sermos cuidadores, o de nutrirmos, protegermos e prepararmos para o caminho da vida, é primeiro preciso aprendermos a fazer isso connosco. De que serve nutrir o outro se isso custar a minha própria integridade? De que serve cuidar do outro se não cuido de mim primeiro? É preciso fazer esse caminho de aprendizagem, que só pode ser feito compreendendo os desafios que Caranguejo nos apresenta, curando as feridas que em nós existem, integrando e nos libertando do peso duma mochila que trazemos e carregamos, mas que nos pedem consciência, trabalho e transformação.
No seu percurso pelo Zodíaco, a energia impulsiona-se para a existência terrena através de Carneiro, para depois ganhar forma e valor em Touro. Em Gémeos, o divino encontra um mecanismo para ter voz e se manifestar, mas sem uma base estrutural e profunda, construída sobre alicerces sólidos, ela torna-se árida, seca e infértil. Caranguejo é, por isso, esse símbolo da Alma que anima o Corpo, que o inspira a ser o veículo do Espírito para a criação de algo divino neste plano. Para o fazer, é preciso sustentar toda uma estrutura, toda uma história, toda uma dimensão gigantesca de registos genéticos, familiares, energéticos, kármicos, valores, conceitos e história e dar-lhes uma forma, uma casa, um corpo. É essa construção que encontramos na ligação com a carta VII – O Carro do Tarot, a vibração que tem conexão com a energia de Caranguejo.
Encontramos várias dimensões na mitologia associada ao signo de Caranguejo, desde a mais evidente e directa, até à que, parecendo mais distante, dá-nos uma compreensão mais profunda e esotérica da própria natureza deste signo. O mundo em que vivemos tem, também ele, uma base de crescimento e desenvolvimento, uma construção feita em ideias, mitos, lendas e histórias que são o alimento profundo das nossas estruturas sociais, morais e energéticas. Tudo isto é, na verdade, uma expressão de Caranguejo, o que torna mais curioso que, dentre todos os signos, este parece ser o que tem a mitologia menos intensa e concreta, sendo quase subliminar. A história associada à própria constelação de Caranguejo é exemplo disso.
A lenda conta-nos que, no seu segundo trabalho, Héracles, o romano Hércules, tem de enfrentar a Hidra de Lerna, uma serpente com corpo de dragão, que possuía nove cabeças que se regeneravam quando cortadas. Héracles, auxiliado pelo seu sobrinho, Iolau, estava a conseguir derrotar o monstro, o que fez com que Hera, mulher de Zeus (Juno na mitologia romana), que tinha uma relação muito complicada com o herói, por ser filho de Zeus com uma das suas amantes, tentasse complicar-lhe a tarefa.
Hera enviou assim um caranguejo gigante, de nome Carcinus, que vivia nas profundezas do lago de Lerna, que, com as suas pinças, lhe prende os pés. Héracles facilmente o vence, pisando-o e esmagando-o. Como recompensa do seu esforço e dedicação, Hera transforma-o numa constelação. Esta constelação é considerada a mais fraca entre as doze que representam o Zodíaco, não tendo nenhuma estrela de grande força, como muitas das outras, e ocupando um espaço muito pequeno no céu. Contudo, esta constelação e as suas estrelas são muito importantes, até porque é neste espaço que se dá, precisamente, a linha onde o Zénite do Sol acontece, o Trópico de Caranguejo.
É também curioso perceber que Hera é a deusa do casamento, da família, da maternidade e protectora das mulheres no parto, uma energia muito ligada ao signo de Caranguejo e que, por isso, tem uma ligação muito íntima com este signo. Para além disso, é-lhe atribuída a criação da Via Láctea, mito que provém dum logro que Hera sofreu da parte de Zeus, que lhe deu Héracles para amamentar, sem ela saber. Quando Hera se apercebeu, afastou a criança de forma repentina, o que gerou um jorrar de leite que se tornou a Via Láctea.
É preciso compreender que Hera não é uma simples deusa, nem sequer apenas a mulher de Zeus. Ela é uma rainha, uma guerreira, com uma força profunda que deriva desse lugar que ela assume, o da matriarca que defende a família, a estrutura que ela representa, e a honra com todas as suas forças, pois compreende que é essa ligação que nos sustenta e forma.

Num outro sentido, mais profundo e esotérico, podemos ligar a energia de Caranguejo à mitologia das Moiras, as três irmãs-deusas que tinham poder sobre o destino, nomeadamente com a mais nova, Cloto. As Moiras são deusas primordiais, cuja origem não é consensual entre os autores clássicos, mas é sabido que a palavra Moira significa “uma parte” ou “uma fase”, mostrando-nos uma ligação a uma natureza lunar, a regente de Caranguejo. As três irmãs usavam um tear, a Roda da Fortuna, na qual teciam o destino dos homens e dos deus. As voltas da roda mostram as sortes a que cada pessoa era sujeita. Quando o fio está na parte superior da roda, vivemos períodos de boa sorte, enquanto que quando o fio se coloca na parte inferior, a má sorte atinge-nos.

A Cloto, palavra que significa fiar, cabia a tarefa de segurar o fuso e tecer o fio da vida, regendo, por isso, o nascimento e o parto. Conjuntamente com Ilítica, Artémis e Hécate, era ela quem gerava o início da vida, tecendo o fio no útero materno e orientando-o para a irmã seguinte, Láquesis, que o puxa e enrola. Para os romanos, ela era uma das Parcas (palavra que provém do verbo parir, dar à luz) e era chamada a Nona, remetendo para as nove lunações que compreendem a gestação humana. Note-se que Caranguejo é o nono signo após Escorpião, o signo que representa a Morte, contando este como o primeiro, sendo, por isso, a vida que dele deriva, o cumprimento do ciclo terreno.
Num sentido também mais esotérico, e em ligação com a ideia do Solstício, podemos associar a energia de Caranguejo a uma das figuras mais importantes do Cristianismo, São João Baptista. Veja-se que o Dia de São João, 24 de Junho, comemora-se poucos dias depois do Solstício. São João Baptista é uma das três figuras no Cristianismo cujo dia de celebração está associada ao nascimento e não à morte, sendo que os outros são o próprio Jesus e sua mãe, Maria. João Baptista é considerado o precursor, o que vem para anunciar e preparar a vinda de Jesus. O próprio Mestre, cujo nascimento comemora-se poucos dias depois do outro Solstício, o de Inverno, seis meses depois do nascimento de João, considera-o como o maior dos nascidos de uma mulher.
Simbolicamente, depois do nascimento de João, os dias vão diminuindo, até ao nascimento de Jesus, a partir do qual os dias crescem. Assim também está descrito no Evangelho de João1, capítulo 3, no versículo 28, que diz “Eu não sou o Cristo, mas sou o enviado à frente dele”, e no versículo 30, que diz “Ele tem de crescer, e eu de diminuir.” Veja-se também que João torna-se o Baptista, aquele que baptiza com a água, para a mudança, para o arrependimento. O baptismo representa o renascimento, a purificação e a integração, a pertença, temas que podemos ligar ao próprio signo de Caranguejo.
Nós somos compostos de três parcelas essenciais: um Corpo, uma Alma e um Espírito. Se o Espírito se refere à totalidade do que somos, a partícula divina que se desprende do Todo para cumprir um caminho de evolução, é através da Alma que tudo o que precisamos para essa tarefa é sintetizada e transportada para o Corpo físico. Platão dizia que o Espírito passava pelas várias esferas celestas, os planetas, e neles sintetizava o que seria necessário da sua essência para a vida. Chegando à Lua, a última das esferas antes de chegar à Terra, tudo se misturava e se dimensionava, esperando o momento certo para a encarnação. Ainda hoje “prevemos” e intuímos o nascimento duma criança através das mudanças de fase da Lua, algo ancestral e muito poderoso.
A Lua é a representante do propósito da nossa Alma aqui na Terra, encarnada neste corpo que é o seu veículo, o cálice que nos forma e nos dimensiona, a manifestação do nosso lado mais interior, instintivo e inconsciente. Ela representa o Ego, a estrutura que nos dá sobrevivência e que é essencial para o cumprimento do propósito terreno, pois sem ele não temos mecanismos que suportem a nossa existência. A Lua é também representativa de Yesod, o Fundamento, a Sephirah que antecede Malkut, o Reino, a dimensão terrena na Árvore da Vida da Kabbalah. É em Yesod que as vibrações das esferas anteriores se conjugam, como o cálice que contém a vida antes da materialização, antes da encarnação.
A Lua é a regente de Caranguejo e traz-nos essa dimensão de sensibilidade, de ligação, a compreensão do sentir que o primeiro signo de Água do Zodíaco contém. O sentimento é, em ligação à dimensão mental, a primeira manifestação do que é ser-se humano. Ele é algo único, individual, profundo e instintivo, percebido de forma singular por cada um de nós. O que a um traz tristeza, a outro pode trazer indiferença, da mesma forma que o que gera medo é diferente para cada um de nós, assim como a alegria ou o amor. É na dimensão da Lua que esta percepção e projecção para o nosso corpo se manifesta. A sensibilidade, tão característica de Caranguejo, é uma qualidade que muitos seres contêm neste plano de forma instintiva, mas que nós, humanos, trabalhamos e amplificamos por via consciente e desenvolvemos por via da empatia.
É através deste domínio que Caranguejo ultrapassa o simples nível das emoções que associamos ao elemento Água e que começamos a compreender o quão profundo e difícil de trabalhar é este elemento. Na verdade, a Água é o elemento que contém em si memória, que guarda e regista tudo o que sobre ela projectamos. O nosso corpo é composto por cerca de 70% de água, a mesma percentagem que o planeta Terra, e, por isso, nós somos compostos de memórias, formados por inúmeros registos que são a matéria-prima, não só, do nosso corpo, mas também da nossa cultura, dos nossos hábitos, padrões e estruturas pessoais. Caranguejo não é um signo do etéreo, do outro ou de algo mais subtil, mas sim do corpo, da existência terrena, da nossa ligação a este plano.
O caminho de Caranguejo pede este honrar profundo das memórias que nos construíram, o respeito por todos aqueles que estiveram neste plano antes de nós. É assim que compreendemos como todos estamos unidos, como todos provimos da mesma raiz, ainda que por caminhos diferentes, e que podemos fazer a nossa parte neste tempo que escolhemos viver.
O caminho de Caranguejo é o da Memória, não aquela referente a acontecimentos que vivemos, ainda que essas também façam parte, mas àquela que nos constrói em tudo o que somos. Tudo o que somos é definido e desenvolvido por registos, por memórias, não só conscientes como também, e principalmente, inconscientes. É no útero materno que esses primeiros registos são activados e dimensionados, trazendo-os para que sejamos formados em todas as nossas dimensões. Contudo, as memórias que Caranguejo contém vão para lá da nossa vida.
É em Caranguejo que todos os nossos registos residem, desde os que se referem às questões que pertencem à nossa própria personalidade, ao nosso corpo físico, mas também, e nomeadamente, a todos os que provém das nossas origens. É na vibração deste signo que trabalhamos as linhas que nos trouxeram até este plano, que nos conectamos a essa origem que é a família. Por isso, Caranguejo é um signo que tem naturalmente uma afinidade profunda com as origens, com o lar, a família, pois são temas que pertencem ao trabalho que este signo vem fazer.
Contudo, é necessário compreendermos que este caminho, e Caranguejo assim bem o reflecte, é como uma semente que pode manter-se inalterada por um espaço virtualmente interminável de tempo. A semente contém em si todo o potencial duma planta, de folhas, frutos e sementes que dela poderão provir, é verdade. Porém, a semente contém também a memória genética de todas as plantas que antes dela existiram na sua linha de espécie. Uma semente de laranja não irá dar origem a uma macieira, mas também não dará origem a uma laranjeira se não for plantada e cuidada, se não germinar e não criar as suas raízes, não crescer, rasgar a terra, dar-se à luz e propor-se a cumprir o seu desígnio maior.
Assim também é com cada um de nós, e Caranguejo mostra-nos essa realidade. Se ficarmos agarrados às memórias que nos compõem, à família que nos trouxe até este plano, às nossas raízes, ao nosso passado, também, nunca cumpriremos o nosso propósito. A semente só germina quando se permite sacrificar o seu potencial e tornar-se broto, quando quebra a casca e arrisca ser ela própria. Contudo, para o fazer, ela primeiro mergulha profundamente as suas raízes na terra, construindo uma âncora sólida que lhe dá estabilidade, segurança, alimento e sustentabilidade.
Da mesma forma, a memória, a raiz, a família, o passado, seja o desta vida, o da nossa ancestralidade ou, até, o de outras vidas, precisam de ser tornados bases de construção, linhas que precisamos de honrar e trabalhar, que nos oferecem a matéria que nos irá potenciar nesta vida. Por isso, Caranguejo representa essas várias heranças que recebemos, as genéticas, as kármicas, as ancestrais, entre outras, que nos trouxeram até este plano, a esta vida, mas que servem como base e não como fim. É preciso honrar as heranças, responsabilizarmo-nos conscientemente delas e criar, através delas, a nossa própria vida. Não é em Caranguejo que o fazemos, não é na sua vibração que esse caminho acontece e se manifesta, mas é através dele que o encontramos, que o resgatamos, que o trabalhamos, como um enorme arquivo ao qual temos acesso.
O caminho de Caranguejo pede este honrar profundo das memórias que nos construíram, o respeito por todos aqueles que estiveram neste plano antes de nós. É assim que compreendemos como todos estamos unidos, como todos provimos da mesma raiz, ainda que por caminhos diferentes, e que podemos fazer a nossa parte neste tempo que escolhemos viver. É preciso integrar toda essa dimensão do nosso ser, cortar conscientemente o cordão umbilical, assumir a nossa Mãe Interna para podermos ser nós mesmos, para podermos ter uma base interior de construção da nossa própria identidade e, através dela, caminhar no sentido da expressão da nossa individualidade. Contudo, nada disso pode ser feito sem trabalhar essa dimensão canceriana primordial dimensionada pela simbologia do útero, da maternidade, um lugar místico, de profundas memórias cujo propósito é a transformação.
Como signo ligado à energia da Mãe, de forma arquetípica, este trabalho de corte consciente torna-se essencial, pois esta é uma das tarefas mais desafiadoras que temos no nosso percurso. Integrar os desafios que a energia da Mãe em nós nos coloca é cortarmos o cordão umbilical energético que nos une, não só, à própria figura, mas, acima de tudo, aos padrões que nos foram colocados pela família, pelas nossas raízes e origens. É com esse corte consciente que nos libertamos, purificamos e contribuímos também para as gerações que depois de nós virão. É assim que conseguimos, também, trabalhar a Mãe Interna, a capacidade de cuidarmos de nós mesmos, de nos provirmos a nós mesmos, pois sem isso não conseguimos, também, cumprir o grande papel que Caranguejo nos oferece, o do cuidar, e disseminar as sementes que geramos de forma amorosa e não dependente, em entrega total e absoluta ao nosso propósito, honrando Neptuno como o regente esotérico deste signo.
Ainda que não seja uma das energias que mais está a ser trabalhada neste momento, nem sequer a ser activada, a verdade é que a sua vibração é uma das que necessitamos de integrar como um processo de cura, limpeza e transformação. Nos céus, nem todos os signos são activados e trabalhados ao mesmo tempo (felizmente!), mas as suas vibrações estão sempre a operar e a oferecer-nos as suas bênçãos, e o caso de Caranguejo não é uma excepção. No entanto, precisamos de perceber que Júpiter esteve nos seus domínios no último mês, e é precisamente nos primeiros dias da passagem do Sol em Caranguejo que ele de lá sairá, abraçando um ano de trabalho em Leão.
Quando o Sol atravessa o Signo de Caranguejo, ele activa o dom do sentir, recorda-nos da necessidade de trabalhamos este cuidar que ele representa, mas também nos leva para uma vivência de maior sensibilidade. Os tempos que vivemos são de muita activação de energias de Fogo e Ar, pois os céus estão carregados de signos nestes elementos, e, por isso, quando um planeta tão importante e forte atravessa um domínio de Água, há sempre uma dádiva de acalmia, de serenidade e de nutrição. Contudo, esse não é o único propósito da activação e vivência deste signo.

Na verdade, a passagem do Sol pelo Signo de Caranguejo traz-nos dois momentos importantes deste ano, com um terceiro indirecto. Em primeiro lugar, como referi atrás, o ingresso de Júpiter no Signo de Leão, uma transição energética importante que nos influenciará e dimensionará durante o próximo ano. Este ingresso acontece no dia seguinte a Mercúrio entrar no seu segundo movimento retrógrado do ano, no signo de Caranguejo, levando-nos para um lugar mais emocional, mais profundo e interior. O terceiro acontece uns dias antes da entrada do Sol em Caranguejo e é um dos momentos-chave deste ano, o primeiro ingresso de Quíron no Signo de Touro, que nos traz os primeiros sinais do trabalho que o grande centauro irá fazer até 2033.
Também é importante termos a consciência de que será no final do percurso do Sol em Caranguejo que se dá um dos momentos mais relevantes deste ano e destes tempos que vivemos. É nesses últimos dias que se forma um cesto (basket) com Júpiter em Leão a activar o pequeno trígono entre Plutão em Aquário, Neptuno em Carneiro e Úrano em Gémeos, um dos momentos mais relevantes deste tempo, segundo André Barbault, que o refere com o grande processo que despoleta um tempo de transição, de reorganização humana e social, de elevação de consciência.
Num tempo em que vivemos tanto radicalismo, tantas opiniões inflamadas transformadas em combate, em divisão e conflito, precisamos de nos recordar do que nos liga, que temos uma raiz comum, que fazemos todos parte do mesmo sistema, que todos provimos da mesma fonte. É aqui que se torna essencial o trabalho de Caranguejo, o de voltarmos a essa natureza, a essa verdade, activar a memória do que é ser humano e nos reencontrarmos num lugar de empatia e de cuidado. Estas são sementes que necessitamos de voltar a cuidar, de voltar a nutrir, pois sem elas perdemos a nossa humanidade e, sem ela, o nosso caminho não pode prosperar.
Referências Bibliográficas:
1 LOURENÇO, Frederico. Bíblia – Volume I – Novo Testamento: Os Quatro Evangelhos. Quetzal, 2018
Nota Final:
Há alguns anos lancei um projecto de Workshops chamado “Os 12 Caminhos”, onde, a cada mês, falei sobre o signo desse período, trabalhando as suas ideias e os seus propósitos. Foi sob a égide dessa ideia que agora lanço este projecto de 12 artigos, de Março de 2026 a Fevereiro de 2027, um por cada signo, onde exploro um pouco do seu propósito, mas onde integro a vivência da sua energia no tempo que vivemos. Estes são tempos de tomadas de consciência, de novos caminhos que se abrem e de novas posturas que nos são solicitadas. Por isso, ao longo dos próximos 12 meses, vamos dar passos pelos caminhos de cada signo na descoberta da sua dimensão mais sublime e do seu propósito, enquadrado no desafio que este tempo nos apresenta. Pode encontrar aqui todos os publicados.














