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Balança – O Caminho da Harmonia

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Quando observamos a mecânica do nosso Sistema Solar, nomeadamente em relação ao nosso planeta, assim como o próprio funcionamento do Universo como o conhecemos, percebemos que existe uma cadência, um movimento, perfeitamente equilibrado e harmonioso, onde nada está fora do seu lugar próprio. É nesse encadear que encontramos uma linguagem matemática, perfeita, simples, mas, ao mesmo tempo, complexa, onde tudo se desenvolve, constrói e evolui. Nada está desligado do resto, nada está deslocado, tudo pertence, interage e se relaciona.

Um dos extraordinários exemplos desta matemática que nos rege e que o ser humano tem vindo, ao longo da sua existência, a compreender e descodificar, é este instante mágico que chamamos de Equinócio, que vivemos no momento preciso em que o Sol faz o seu ingresso no Signo de Balança e que nos traz também, no Hemisfério Norte, a terceira estação do ano, o Outono. Este é o terceiro momento-chave do ano, aquele que, a par do outro Equinócio, o da Primavera, que marca o início do ano astrológico e o ingresso do Sol no Signo de Carneiro, nos traz o instante em que o tempo de dia é igual ao tempo da noite, fechando um ciclo de luz e levando-nos para um caminho na escuridão, nas trevas, na morte.

Os dias, como costumamos dizer, tornam-se mais curtos, as noites tornam-se mais longas, o tempo é de maior recolhimento e de fecho, a vida prepara-se para encerrar um ciclo. O Outono é o verdadeiro tempo da morte, em que ela se processa e se desenrola, em que se mostra na sua beleza e profundidade. No entanto, tudo começa com a percepção da vida que aconteceu, o que ela nos ofereceu, o que temos ainda de recolher e de como precisamos de o processar. Por isso, é em Balança que tomamos uma consciência preciosa e fundamental, a da importância do outro, a da crucialidade da interacção, da relação, para a nossa própria sobrevivência e evolução.

Por isso, Balança é o primeiro signo que nos coloca na ligação com o outro, que nos mostra que a sociedade, a humanidade, sobrevive, evolui e prospera em relação e não isoladamente.

É no Outono que o resto dos frutos são colhidos, aqueles que necessitam dum cuidado especial, que são perecíveis e precisam de ser transformados para nos oferecerem os seus nutrientes. Ao mesmo tempo, esse trabalho não consegue ser feito apenas por uma pessoa. O tempo, como os dias, torna-se mais curto e impossibilita a espera. Por isso, é no Outono que aprendemos a importância das ligações e das relações, é aqui que a interacção se torna essencial para a própria sobrevivência.

A natureza, que durante todo o tempo anterior do ano nos ensinou isto e nos mostrou através do seu próprio exemplo, agora torna-se o mestre que nos faz por na prática as suas lições. As colheitas dos frutos, como as vindimas, são actividades grupais, onde precisamos de nos relacionar, não só para a recolha, mas para todo o processo que vem a seguir. Não é só colher o fruto, é também pisá-lo, cortá-lo, separá-lo, eventualmente cozinhá-lo e transformá-lo, preparar o seu armazenamento cuidadosamente, de forma que ele se conserve e nos ofereça a sua energia ao longos dos meses em que a vida é mais escassa e contida. Este é o tempo da produção do azeite, do vinho, das compotas e doces, do conservar dos frutos secos, carnes e peixes, tudo o que nos permitirá caminhar pelo tempo do Inverno até ao romper da nova vida. Mais do que um simples acto, mais do que uma simples tarefa, este momento é um ritual, uma partilha, uma dádiva e um recebimento.

Todo este trabalho é de sintonia, que pede a organização que Virgem nos ensinou, as capacidades que nos auxiliou a desenvolver, os potenciais que Leão libertou, mas que também nos recorda da fonte comum, da raiz que nos une. Por isso, Balança é o primeiro signo que nos coloca na ligação com o outro, que nos mostra que a sociedade, a humanidade, sobrevive, evolui e prospera em relação e não isoladamente. Contudo, isso pede que consigamos criar pontes, pontos de equilíbrio. Em Balança, o outro torna-se um espelho de nós mesmos, um reflexo de quem somos e do que precisamos de trabalhar, que nos traz uma aprendizagem importante e essencial, um desafio mais profundo do que aparenta, bem ao estilo que Balança representa.

Balança, o Espelho do Eu

Quando chegamos ao sétimo signo do Zodíaco, metade do ano foi cruzado e cumprido. A vida processou-se, revelou a sua abundância, ofereceu-nos os seus frutos, e agora é tempo de recolher, de preparar o tempo da morte e para o caminho que precisamos de fazer na agrura do Inverno. Sem morte não há vida, como sem vida não há morte, e é esta primeira percepção, este primeiro reflexo, que Balança nos mostra e nos permite compreender.

Balança é o segundo Signo do Elemento Ar a ser activado no caminho do Zodíaco, aqui no seu modo Cardinal, representando um arranque, um início. Se até aqui estivemos a trabalhar o Eu, as nossas características e a nossa personalidade, dando os primeiros passos para a definição da nossa identidade, a partir de Balança estamos prontos a dar um passo importante na construção desta importante parcela de quem somos neste percurso aqui na Terra.

Existir e Ser são duas coisas diferentes, ainda que complementares. Em Carneiro, existimos, mas é em Leão que começamos esse caminho de Ser. Contudo, neste plano, o Ser implica uma identidade que nos define de forma individual e nos permite projectar o nosso Espírito e a sua beleza. Em Balança, esse trabalho dá um passo substancial e essencial, pois ensina-nos que só nos podemos verdadeiramente conhecer na ligação com o Outro, que ele reflecte questões que precisamos de ver em nós mesmos. Esse Outro é, na verdade, um espelho de quem somos, que nos mostra coisas que, sozinhos, não conseguiríamos ver.

No filme, “O Náufrago” (“Cast Away”), de 2000, Chuck Noland (personagem interpretada por Tom Hanks) é um analista de sistemas da FedEx que viaja pelo mundo para resolver problemas. Numa viagem de trabalho para a Malásia, o avião onde seguia despenha-se e ele é o único sobrevivente, perdido numa ilha deserta, onde tem de sobreviver. No meio do seu desespero, abre várias encomendas que seguiam no avião, sendo que uma delas é uma bola de voleibol, que fica com uma marca da sua mão ensanguentada quando ele se corta e a atira para longe. É essa mesma bola que ele vai pegar e desenhar uma cara e dar-lhe um nome, Wilson, tornando-se o seu companheiro, com quem fala e desabafa, que lhe traz um pouco de sanidade durante os quatro anos em que fica perdido na ilha. Ela mostra este princípio que encontramos em Balança, a necessidade do outro, das relações e das interacções para nos mantermos nós mesmos.

A identidade como caminho de manifestação do nosso Espírito, só faz sentido na interacção e na ligação com o outro. De que serve termos um nome se formos a única pessoa na Terra? É na relação que nos construímos, na ligação com o outro, no que ele nos mostra, nos activa e nos incentiva a trabalhar que nos conseguimos compreender, que nos conseguimos ver. É o outro, na sua dimensão, nas suas características, no que nos faz sentir e percepcionar, que nos oferece a capacidade de compreendermos coisas sobre nós.

Por isso, Balança é o Espelho do Eu, reflectindo aquilo que o seu Signo complementar, Carneiro, manifestou e trouxe à vida e à realidade. Contudo, da mesma forma que não nos conseguimos ver por inteiro, nomeadamente em termos físicos, sem o auxílio de um espelho ou algo que nos reflicta, também não nos conseguimos compreender na nossa beleza, nas nossas capacidades, nas nossas características, sem a relação, sem a interacção com o outro, sem o que ele nos mostra sobre nós mesmos.

Imagem do filme “Branca de Neve e os Sete Anões”, da Disney, 1937

Quando pensamos em espelho recordamo-nos sempre da história da Branca de Neve, onde a Rainha Má tem um espelho ao qual sempre pergunta: “Espelho mágico na parede, quem é a mais bela de todas?” (No original, “Magic mirror on the wall, who is the fairest one of all?”) Esta ideia do espelho e do seu reflexo trazem-nos uma outra dimensão de Balança, a da Beleza e da Estética, temas tão importantes para este signo, mensuradas num sentido filosófico e não apenas terreno. A beleza é um conceito profundo, que filosoficamente nos remete para o principal foco da estética, ligada à sensação e à percepção de alguém exterior ao objecto. É o observador, o outro, que, ao se ligar ao objectivo, percepciona a sua beleza. Contudo, o que define essa mesma beleza são os seus valores, a sua compreensão, os seus conceitos e ideias.

Como signo do elemento Ar, Balança leva-nos para uma dimensão mental que é profundamente individual, que depende de sensações, percepções e conceitos. Vénus é o planeta regente de Balança (tal como é de Touro), e é neste signo que este planeta nos leva ao entendimento e compreensão da beleza e da estética num lugar de equilíbrio e harmonia, mas que está subjacente à construção conceptual que cada um tem em si mesmo, às ideias que desenvolve, à informação que recolhe. O belo não é um conceito ou uma ideia universal, mas sim algo individual, interior, único e pessoal. Por isso, é também um conceito que pode ser disruptivo, conflituoso, original e único, levando até ao geral de conflitos, como a mitologia nos mostra.

É nesse sentido que temos em Úrano o regente esotérico, de alma, de Balança, mostrando-nos que a verdadeira beleza não está no objecto, mas em cada um de nós. A beleza que podemos, ou não, ver, no que nos rodeia, depende unicamente do que vemos em nós mesmos, dos conceitos que temos como fiel da nossa própria balança. É através da interacção, da ligação com o outro, da partilha, da dádiva e do recebimento, que ela pode ser transformada. No entanto, esse nem sempre é um caminho fácil ou subtil, pois é preciso integrar Carneiro, é preciso termos estrutura própria, sermos nós mesmos, para nos ligarmos ao outro. Se assim não for, caímos num dos grandes problemas de Balança, o tornarmo-nos, nós próprios, um espelho do que achamos e pensamos que o outro precisa de nós, perdendo a nossa identidade em prol duma ligação que, na realidade, é uma anulação. Por isso, o trabalho de Balança é em si mesmo uma mestria, algo que vemos muito bem manifestado através das várias histórias que mitologicamente definem este signo.

A Mitologia de Balança
Glifo do Signo de Balança

São várias a histórias que definem este signo dum ponto de vista mitológico. No entanto, a primeira coisa que podemos ter em conta é que Balança é o mais jovem signo do Zodíaco, nomeadamente quando pensamos na sua definição como constelação. Para além disso, é curioso também percebermos que é o único signo do Zodíaco que é simbolizado por um objecto inanimado, o que contraria a própria ideia da palavra Zodíaco, que significa Roda (ou círculo) dos Animais.

A Constelação de Balança, ou Libra, como encontramos no Brasil ou no inglês, palavra que significa, precisamente, balança, foi definida por Júlio César, imperador de Roma, no século I a.C., trazendo a ideia de Justiça, tão presente na formação e desenvolvimento do Império Romano. Contudo, esta constelação já era conhecida e definida antes de Júlio César, embora fosse associada a outra ideia. Os gregos ligavam-na à constelação de Escorpião, sendo as suas pinças, algo que já no Egipto, de certa forma, acontecia, pois o seu simbolismo estava associado ao reino dos mortos. No entanto, é interessante percebermos que muito do simbolismo mitológico que encontramos associado a este signo provém das histórias gregas. Também é interessante perceber que o seu simbolismo, desde sempre, foi usado pelos poetas clássicos, sendo também um dos conceitos que mais foi explorado pela arte.

O próprio glifo de Balança representa a ideia de equilíbrio, o sol a pôr-se, a igualdade do tempo de luz e de sombra. O glifo traz-nos também a própria ideia da balança e dos seus pratos, um conceito muito explorado em várias mitologias, como é o caso da grega e da egípcia. Ainda que a constelação tenha surgido, fundamentalmente, pela vontade dos romanos de eternizar a sua dedicação à Justiça enquanto virtude, a verdade é que este conceito os precede de diversas formas, mas sempre com esta ideia fundamental como pedra basilar, como encontramos na astrologia babilónica, que definia a própria constelação como a balança, mas também como as pinças do Escorpião.

Imagem das Constelações de Libra e Escorpião - "Celestial Atlas", Alexander Jamieson, 1822

No entanto, é a mitologia grega que mais contribui para a definição do que é o Signo de Balança, sendo que a principal história que poderemos encontrar é a de Témis, uma deusa primordial, filha de Úrano e de Gaia, que se torna também mulher e conselheira de Zeus. Témis foi entregue por Gaia a Nix, mas esta, cansada de gerar os seus filhos, entregou-a, juntamente com Némesis, aos cuidados das Moiras, que lhes ensinaram o valor da Justiça, do Equilíbrio, da ordem cósmica e natural das coisas. Por isso, Témis carrega nas suas mãos uma balança, mas o seu fundamento de Justiça está no equilíbrio de todas as coisas. Témis era uma deusa oracular, profetiza das leis da natureza, da Terra, da ordem profunda com que o planeta e tudo o que nele habita se têm de reger.

Segundo algumas vertentes, Témis é a mãe de Astreia, essa sim, deusa associada à justiça, que está ligada ao signo de Virgem, e que tem nas suas mãos uma balança. Ao lado da constelação de Virgem, que representa esta deusa, está a balança que ela carregava, precisamente a balança da sua mãe, a ponte entre o mundo terreno e o submundo de Escorpião, pois tudo está em equilíbrio, tudo tem a sua ordem e o seu funcionamento perfeito.

Carta XI – A Justiça, Radiant Rider Waite

É curioso também percebermos que Témis é esposa, mas também conselheira de Zeus, sua mentora e orientadora. Se Zeus é o rei dos deuses, uma energia solar, poderosa e absoluta, Témis traz-nos uma energia Lunar, que equilibra e orienta, que serena e acalma. Zeus sabia que teria muito a aprender e a receber de Témis, assim como Témis reconhece o poder de Zeus, sendo, por isso, uma partilha, uma troca, uma relação de equilíbrio. É esta ideia também que encontramos na Carta XI – A Justiça, no Tarot, a carta que está ligada à energia de Balança. É interessante perceber também que o número 11, um ajuste que Edward Waite fez na composição do seu baralho, magistralmente desenvolvido por Pamela Colman Smith, são dois 1’s, energia masculina ligada à carta do Mago, que podem ser reduzidos ao número 2, o número da Papisa, carta ligada ao princípio lunar, receptivo.

Outras duas histórias gregas podem trazer-nos uma compreensão do conceito de Balança. A primeira é a do julgamento de Páris, que deu origem à conhecida Guerra de Tróia. Esta história tem origem no casamento de Tétis e Peleu, ao qual Éris, a deusa Discórdia, foi convidada a não comparecer. Sentindo-se excluída e rejeitada, ela apareceu na festa, entregando uma maçã de ouro, na qual estava inscrito “para a mais bela.” Este acto levou a uma competição entre Hera, Atena e Afrodite, as três que se sentiram merecedoras de tal prémio. Percebendo na confusão em que se meteriam, nenhum dos deuses quis ter o ónus de tomar essa decisão, o que levou a que Zeus incumbisse Hermes de levar as três deusas ao encontro dum pastor chamado Páris que seria, então, o responsável por tal julgamento.

Páris era príncipe de Tróia, deixado no Monte Ida para morrer, devido à profecia de que seria a ruína de Tróia. No entanto, Páris foi amamentado por uma ursa e cuidado por pastores, crescendo no monte belo e forte. Perante Páris, as três deusas ofereceram-lhe tudo o que podiam, mas foi Afrodite quem ganhou a competição, prometendo-lhe o amor da mulher mais bela do mundo, Helena de Esparta, que era casada com o Rei Menelau. Quando Páris foi novamente reconhecido no reino de Tróia, Páris foi a Esparta e seduziu Helena, que fugiu com ele, gerando a famosa Guerra de Tróia.

Esta ideia de julgamento, nomeadamente associado a beleza, é algo que está intrinsecamente ligado a Balança, conhecido por uma tentativa constante de tudo equilibrar, de buscar harmonia e criar pontes. Veja-se também que o próprio simbolismo da deusa Discórdia não ser devidamente convidada para um casamento, mostra a natureza deste signo, cujas relações são um ponto de trabalho importante, mas sempre num sentido de equilíbrio e nunca de desarmonia.

A segunda história está ligada ao profeta Tirésias, que foi transformado em mulher após bater em duas serpentes que estavam a acasalar na floresta. Assim passou algum tempo, crê-se que sete anos, até que voltando a bater em duas serpentes a acasalar, foi novamente transformado em homem. Depois desta situação, houve uma discussão entre Zeus e Hera sobre quem sente mais prazer no acto sexual, sendo que Hera alegava que era o homem e Zeus dizia que era a mulher. Como Tirésias tinha sido o único que tinha vivido os dois sexos, foi escolhido para resolver o diferendo. Nesse sentido, Tirésias afirmou que era a mulher, dando razão a Zeus, o que enfureceu Hera, que o cegou como castigo. Zeus, que não podia desfazer esse castigo, deu-lhe o dom da profecia. Outras versões do mito colocam a situação ao contrário, mas o fundamental, na ligação com o signo de Balança, é mesmo a vivência desta compreensão de dois lados, da partilha e da beleza que está para além do que é visível.

Existe, contudo, um mito que não poderemos ignorar quando falamos do Signo de Balança e que nos remete para o Egipto. A constelação de Balança já era conhecida no Egipto, mas a sua natureza estava associada ao reino dos mortos, de Escorpião, como referi acima. Os egípcios acreditavam que tudo estava organizado em Maat, a ordem cósmica de todas as coisas, que se contrapunha a Isfet, o caos, complementando-se num movimento eterno. Cabia ao Faraó o papel de manter esta ordem e equilíbrio.

Após a morte, a alma era guiada por Anúbis até ao submundo para ser julgada. Esse julgamento era feito colocando o coração do morto num dos pratos duma balança, sendo colocada a Pena de Maat, a Pena da Verdade, no outro prato. Para ser digna da vida eterna, a alma tinha de ser considerada pura e o seu coração devia ser mais leve que a pena. Caso fosse mais pesado, a alma era destruída por Ammit, que a comia. Esta ideia deu origem a uma forma de estar, uma busca de equilíbrio, o caminho de Maat, o agir com integridade, equilíbrio e justiça, valores essenciais para uma alma leve e em harmonia com o universo. No Papiro de Ani encontramos as 42 confissões que sustentam este caminho, mandamentos que preconizam um equilíbrio pessoal e social.

Quando olhamos para os vários mitos que definem Balança, conseguimos compreender que um dos grandes pressupostos do trabalho deste signo é uma ideia que muitas vezes passa ao lado e não é considerada. Ainda que Balança reflita o conceito do equilíbrio e da justiça, da partilha, da dádiva e do recebimento, é na harmonia que encontramos o caminho que este signo nos oferece.

O Caminho da Harmonia

Ao nos debruçarmos sobre Balança, sobre os seus conceitos e simbolismo, invariavelmente vamos pensar em equilíbrio e justiça. Eles são, sem dúvida alguma, buscas que a energia de Balança preconiza, que provêm do facto de ser neste signo que trabalhamos a primeira ligação com o outro, nomeadamente numa perspectiva de partilha, um conceito extremamente importante para o desenvolvimento consciente da sua vibração.

Quando olhamos mais atentamente para essa ideia de equilíbrio, compreendemos que ela tem uma problemática que precisa de ser resolvida. A busca do equilíbrio mantém tudo num mesmo lugar, dá-nos até uma ideia de estática, como os pratos da balança que andam para cima e para baixo, mas que quando temos o mesmo peso de ambos os lados, ficam direitos e, lá está, se equilibram. No entanto, ser equilibrado nem sempre significa ser justo, bem pelo contrário. Há coisas que parecem profundamente desequilibradas e até injustas, mas que quando olhamos para elas atentamente percebemos que há uma força que as levou até esse lugar e que faz daquela situação algo profundamente correcto e ajustado.

Mais do que um simples conceito social ou terreno, o Equilíbrio é uma base que rege o Universo, que provém da conjugação de leis cósmicas que se aplicam a tudo o que existe. Balança é o signo que reflecte a sustentação dessas leis, que as demonstra e as coloca, de certa forma em funcionamento. Contudo, como esta energia se reflecte no plano terreno, ela tem de se confrontar com a ideia de beleza e de estética que este signo busca também, pelo que algo que não compreende este princípio poderá parecer feio, desajustado e desequilibrado. Em Virgem, ordenamos para o funcionamento pleno, organizamos para ser útil e prática, mas em Balança a beleza une-se a este conceito e, se não for bem compreendida, pode trazer uma problemática: de que serve ter algo muito profundamente belo, mas que não consegue ser devidamente usado ou que não tem qualquer tipo de propósito?

O Caminho de Balança é, na verdade, o da Harmonia, que nos traz um princípio básico, mas poderoso, a união das várias leis que regem o Universo. Se olharmos para as Leis Herméticas, por exemplo, podemos perceber que ao uni-las encontramos aquilo que a harmonia nos oferece, o que Balança nos ensina. Mais do que um simples equilíbrio, a harmonia tem movimento, leva-nos de nós para o outro, orienta-nos na compreensão do seu percurso e, dessa forma, permite-nos entender o que ele vive. Nessa compreensão, podemo-nos também ver através do outro, pois ele passa a ser um reflexo de algo que necessitamos de olhar em nós. O Eu e o Outro são dois polos que se complementam e se integram, que funcionam por vibração e ritmo, que ensinam e aprendem ao mesmo tempo.

Quando trabalhamos a energia de Balança, é-nos oferecida a possibilidade de podermos harmonizar, ajustando, ritmando, equilibrando também, mas sem ficarmos estáticos. Na mitologia, Harmonia era a filha de Ares (Marte) e Afrodite (Vénus), a deusa da concórdia, da união entre opostos, da paz e do entendimento. Esse é o Caminho de Balança, a diplomacia, a ponte que é criada para ligar dois conceitos, duas visões e duas ideias diferentes. A ordem sobre o caos não é tomada nem conquistada pela força, mas também não é criada nem atingida pela passividade, mas sim sobre um equilíbrio constante, a transposição da ideia virginiana de aperfeiçoamento para o conceito de beleza.

Balança tem o seu início com o ponto do Equinócio, o ponto central do Zodíaco, um ponto de equilíbrio que nos coloca perante o trabalho que foi feito no tempo da luz e a integração que o tempo das trevas nos oferece.

É assim que compreendemos também que nem sempre o que parece injusto ou desequilibrado assim o é, pois ele é o resultado de escolhas, de entendimentos, de compreensões, de decisões, de actos e suas consequências. Nesse caminho que reflecte a própria aprendizagem humana, existem pontos que parecem de desequilíbrio, mas que, na realidade, são plataformas de crescimento, degraus e passagens que nos permitem a evolução, que muitas vezes nos são trazidas pelo outro, pelo que ele nos oferece e nos ensina.

Balança é o signo Cardinal da energia do Ar, é o movimento de arranque da mente, a energia que lhe dá direcção, que integra Gémeos, o primeiro signo de ar do Zodíaco a ser activado, as suas ideias, a sua comunicação, e lhe dá intenção. É através do ar que o som se propaga, é através dele que a voz e a comunicação se projectam e por ele que também as recebemos nos nossos sentidos. Balança pede, por isso, a ideia do dar e do receber, uma partilha que nos liga, que nos relaciona, mas que também nos sustenta. Mais do um simples movimento, tudo isto é verdadeira harmonia, uma cadência que nos leva de um extremo ao outro, mas que nos une num ponto central, criando compreensão, entendimento e, ao mesmo tempo, serenidade e paz. É aqui que compreendemos que, na balança, o objecto, o que realmente faz diferença é o fiel, o ponto central da balança onde os pratos se sustentam, que se estiver desequilibrado, faz com que a balança não funcione correctamente. No fundo, esse fiel são as nossas ideias, conceitos e verdades, a humildade de Virgem na ligação com o outro.

É neste pressuposto que Balança é um signo que busca o entendimento do Amor. Neste signo, procuramos a compreensão desse sentimento, o que ele nos mostra sobre nós através da ligação com o outro, sem ainda a conexão profunda, íntima e sexual que nos será oferecida pelo signo seguinte. No entanto, essa força profunda só pode ser sustentada quando trabalhamos Balança, sob pena de destruição mútua. Eu posso conectar-me ao outro se primeiro me tiver ligado a ele, se eu souber quem sou nessa ligação, sem me perder nele, sem o espelhar, sem me tornar nele. É nessa integração, que provém do eixo entre Balança e Carneiro, o Outro e o Eu, o eixo da Harmonia, que eu me posso reconhecer, encontrar e crescer.

O Propósito de Balança

No caminho do Zodíaco, cada signo tem o seu propósito e função, que se reflecte no decorrer dos tempos e nos desafios que cada momento nos coloca. Balança tem o seu início com o ponto do Equinócio, o ponto central do Zodíaco, um ponto de equilíbrio que nos coloca perante o trabalho que foi feito no tempo da luz e a integração que o tempo das trevas nos oferece. Por isso, ele ensina-nos algo precioso, nomeadamente para os tempos que vivemos, tão individualizados, egocentrados, dominados por medo, desconfiança e ignorância.

O ser humano é um ser social e é só dessa forma que conseguimos desenvolver e evoluir. Contudo, a aprendizagem do que é a sociedade começa na visão do outro, na nossa ligação com ele, com o espelho que ele nos oferece e que para ele somos. Sem o outro, sem nele nos vermos e nos compreendermos, somos apenas instintivos, pois não trabalhamos a receptividade, a empatia, a compreensão e, em última instância, o Amor. É esse grande princípio que encontramos em Balança e que nos mostra, como signo Cardinal, que a nossa sobrevivência não é individual, mas sim colectiva, em ligação, união e partilha. Como diz o velho adágio, sozinhos podemos ir mais rápido, mas juntos vamos mais longe, e a própria natureza, nomeadamente os animais, mostram-nos isto de forma poderosa.

Se olharmos o Zodíaco como uma manifestação da realidade de todas as coisas, um reflexo do próprio Universo plasmado neste plano, facilmente podemos encontrar em Balança o período em que Jesus, após o baptismo, reúne os discípulos e vai pregar. Numa das mais conhecidas passagens, já no final da ceia que antecede a sua prisão, Jesus transmite aos seus discípulos, como está no Evangelho segundo João 13:34-35: “Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros, tal como eu vos amei, para que também vós vos ameis uns aos outros. Nisto se reconhecerão todos que sois meus discípulos, se amor tiverdes entre vós.”1

No fundo, o grande caminho de harmonia, de equilíbrio e justiça que Balança nos ensina é o caminho do amor ao próximo, a empatia serena que provém de, como se costuma dizer, calçar os sapatos dos outros. Balança é a ponte que nos liga e nos permite sobreviver, crescer e prosperar nos tempos mais desafiadores. Sem Amor ao próximo, destruímo-nos, aniquilamo-nos, pois as trevas que à frente se colocam irão consumir-nos, não por serem maléficas ou diabólicas, mas sim porque será necessário fazer um trabalho de purificação e elevação. Esse é o caminho do Outono e do Inverno, a limpeza e preparação para a vida que há de vir, mais justa e equilibrada que encontra em Balança o seu ponto central.

Referências Bibliográficas:

1 LOURENÇO, Frederico. Bíblia – Volume I – Novo Testamento: Os Quatro Evangelhos. Quetzal, 2018

 

Nota Final:

Há alguns anos lancei um projecto de Workshops chamado “Os 12 Caminhos”, onde, a cada mês, falei sobre o signo desse período, trabalhando as suas ideias e os seus propósitos. Foi sob a égide dessa ideia que agora lanço este projecto de 12 artigos, de Março de 2026 a Fevereiro de 2027, um por cada signo, onde exploro um pouco do seu propósito, mas onde integro a vivência da sua energia no tempo que vivemos. Estes são tempos de tomadas de consciência, de novos caminhos que se abrem e de novas posturas que nos são solicitadas. Por isso, ao longo dos próximos 12 meses, vamos dar passos pelos caminhos de cada signo na descoberta da sua dimensão mais sublime e do seu propósito, enquadrado no desafio que este tempo nos apresenta. Pode encontrar aqui todos os publicados.

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