A natureza, a Terra, na sua sabedoria, mostra-nos que nela tudo se rege por ciclos, que cada ciclo tem o seu tempo, os seus processos. É nessa cadência infinita que a natureza se aperfeiçoa, melhora, transpõe obstáculos, não por sobrevivência instintiva e pura, mas porque esse é o seu propósito. Quando observamos melhor, percebemos que cada ciclo é composto por fases e que cada uma delas, também, tem um arranque, que impulsiona a sua energia, seguida por um momento em que tudo se estrutura e se sedimenta, que nos leva depois a um tempo de reajuste e preparação para a fase seguinte. É em todo este trilho que encontramos a vida na sua beleza, na sua dádiva mais profunda e sincera.
Quando chegamos ao final do Verão, a época do ano que Virgem representa, chegamos a um tempo de transição. Metade do ano está prestes a concluir-se, o tempo em que a vida nasceu, cresceu, desenvolveu-se e deu frutos, e é preciso preparar a segunda metade, o tempo em que a vida dá lugar à morte, à transformação e à renovação. É neste processo constante e profundo, nesta cadência natural, simbólica, sem dúvida, mas poderosa, que encontramos alguns pontos-chave, os signos que representam pontes de transição, as energias mutáveis do Zodíaco, os signos de Gémeos, Virgem, Sagitário e Peixes. Entre eles, Virgem traz-nos a energia do elemento Terra, a matéria que necessita de atenção, que se prepara para ser transformada, que se dirige para um novo caminho.

Antoine Lavoisier, ele próprio nascido sob o Signo de Virgem, deixou-nos uma célebre frase, conhecida como uma lei com o seu nome, que todos conhecemos desde crianças: “Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.” Virgem reflecte essa ideia, recordando-nos que há um tempo para se plantar, mas há um outro tempo, muito importante, que é o de colher. Contudo, a colheita não é apenas uma recolha, mas sim um processo essencial e fundamental, que implica mais do que simplesmente chegar à árvore ou à plantação e tirar o fruto. Pelo contrário, ele implica foco, método e organização, pois há um trabalho que é importante de ser feito de forma meticulosa, pois dele dependem muitas coisas que ainda não vemos e ainda não existem.
É nesta consciência que a Natureza funciona naturalmente. Quando o Verão começa a chegar ao seu final, toda a natureza organiza-se numa cadência que, embora instintiva, é perfeita, preparando a acumulação de alimento para o Inverno que há de chegar, mas também desenvolvendo os primeiros esforços para que o terreno, na próxima Primavera, gere nova vida. O tempo de colher é, por isso, mais do que um acto, é um projecto que se dirige para o futuro, que tem como propósito a preservação da vida. Fazê-lo é um acto de dádiva, que embora seja individual, não é egocêntrico nem individualista, mas sim uma profunda colocação ao serviço. É nessa consciência que Virgem se coloca como um dos pontos centrais do Zodíaco, sendo uma ponte entre o tempo da vida e o da morte, aquele que prepara esse caminho, que se propõe a esse trabalho sagrado e que nele coloca todos os seus esforços e capacidades. Na verdade, este é o trabalho dos signos mutáveis, pois eles são os mestres conhecedores das ritualísticas de transição entre as estações, aqueles que dominam os elementos e os moldam para uma nova consciência.
Escrito desta forma, até parece uma coisa muito importante e pomposa, mas para Virgem, não o é. Pelo contrário, o estar ao serviço, a dádiva das suas capacidades para poder tornar o mundo melhor, é o que move Virgem no seu percurso, mas num um propósito nem um objectivo. O sexto signo do Zodíaco, aquele que representa o encerrar e integrar a metade do ano, é, como referi acima, o elemento Terra no seu modo mutável. É na sua vibração que a Natureza encerra um estágio importante e se prepara para o reequilíbrio que o Equinócio, no arranque do signo seguinte, trará. Por isso, há que preparar esta nova fase da melhor forma possível, pois a vida que nascerá no novo ciclo depende de todo o trabalho que teremos pela frente.
Virgem representa o tempo das colheitas dos cereais, um tipo de alimento de base, essencial ao nosso desenvolvimento. É com a prática da agricultura e da pastorícia que o ser humano se sedimenta e, assim, tem maior capacidade de se desenvolver. No entanto, essas práticas exigem método, organização e preparação, não ocorrem nem se desenvolvem em qualquer tempo ou quando nós queremos, mas sim em momentos certos, em períodos exactos. Há um tempo certo de plantação, cultivo, cuidado e colheita de cada semente e de cada alimento, algo que o ser humano levou eras a compreender e a dominar. Nesta prática, a colheita é um momento de enorme importância, pois ela tem vários focos e propósitos. Não basta colher as sementes e já está tudo feito, muito pelo contrário.
A colheita é um ritual e os antigos conheciam-no muito bem. Ela não é apenas uma coisa funcional, mas é um processo que honra a dádiva da Mãe Terra para connosco e comporta em si mesma uma dádiva do ser humano para com ela também. Durante meses, a terra foi a base de crescimento e desenvolvimento da planta, deu-lhe os nutrientes e os fundamentos para ela poder dar folhas, flores e, por fim, os frutos. São esses frutos, os cereais, e não só, que servirão de alimento para o tempo em que a terra não produzirá tanto, em que o frio e a morte dominarão, preparando o novo ciclo.
Ao sinal de que tudo está pronto, é tempo de colher. A colheita é um trabalho árduo, que pede organização e dedicação, que pede método e disciplina. Depois de colher é preciso separar, discernir o que serão as sementes que servirão de alimento das que servirão para a próxima sementeira, deixar de lado o joio que será alimento dos animais e da própria terra. Este é um trabalho de crítica, que procura as melhores sementes para serem semeadas, as que estão estragadas para serem deitadas junto com o joio e as que estão prontas a serem armazenadas para depois serem transformadas em farinha e delas ser feito o pão. Este é um trabalho de atenção e perfeccionismo, que pede um olhar atento, que não serve apenas para nosso próprio proveito, que prepara o futuro, não só o nosso, como o dos que nos rodeia. É aqui que reside a grande mestria de Virgem, no domínio desta capacidade de abstração de si mesmo para algo que é superior a si, mesmo não estando nessa ligação com o todo ou a comunidade.

Para Virgem, não se coloca a questão da importância dos outros, esse é quase um dado adquirido, pois este não é ainda um signo que trabalha a ligação ou a comunidade. Virgem vem com o propósito de desenvolver as suas capacidades para poder aperfeiçoar, melhorar, tornar tudo mais eficiente e produtivo, com menos desperdício ou estrago. Por isso, Virgem é conhecido pelo seu perfeccionismo, pela crítica, pelo pormenor, características que usa para que possa operar sobre o mundo que o rodeia e torná-lo nessa versão mais correcta e organizada. No fundo, este é um sentido de função, de trabalho, de missão, que carrega consigo e que tem como grande propósito essa colocação ao serviço que muitas vezes é associada à energia de Virgem. No entanto, é preciso compreender o que é essa questão de serviço, o que isso é e representa para esta energia.

Virgem é regido pelo planeta Mercúrio, ligado à comunicação, à mente e ao pensamento, o mensageiro dos deuses, aquele que tinha a função de levar as suas mensagens, mas que, também, é um dos deuses que tem mais atributos e capacidades. Na mitologia grega, Hermes é um deus de fertilidade, também ligado às estradas e aos caminhos, aos viajantes e comerciantes, à magia e à adivinhação. Ele é o guia das almas dos mortos até ao reino de Hades, entre muitas outras coisas. Ainda que não tenhamos a certeza da origem da palavra, há uma ideia comum que se encontra, a linguada à interpretação, à compreensão e à orientação, coisas que estão associadas à vibração da energia de Virgem. Na verdade, este é um deus primordial, cujas características encontramos em diversas mitologias, conhecido pelo caduceu que empunhava, um pétaso (chapéu) e sandálias, ambos com asas.
Em Virgem, Mercúrio encontra a sua segunda regência, a par de Gémeos. No entanto, se em Gémeos, este planeta explora as capacidades de comunicação, a linguagem e o desenvolvimento da mente, em Virgem ele abrange outros domínios, mais ligados ao campo terreno, concreto e mensurável. Aqui, a mente torna-se prática, útil, eficaz e focada, que não perde energia nem desperdiça recursos. A mente e a comunicação são funcionais, organizadas, dedicadas e orientadas para um propósito e, por isso, ela precisa de ser crítica, sintética, analítica e competente. Em Virgem, a mente está ligada ao corpo, serve-o e orienta-o, dinamiza-o e anima-o. Por isso, este é um signo que se preocupa com o funcionamento do corpo, que está ligado ao seu equilíbrio, que compreende a ligação entre ele e a mente e, por isso, as questões de saúde e o foco na homeostase são pontos relevantes para a sua vibração.
Hoje, compreendemos outros pontos da linguagem astrológica em associação com o signo de Virgem, como o centauro Quíron, ligado à ferida kármica, ou o planeta-anão Ceres, ponto associado à nutrição, ao cuidado e o valor do corpo. A dimensão plural de Virgem permite estes entendimentos, pois este é um signo complexo e muito mais profundo do que aparenta. Na verdade, existe um estereótipo muito enraizado em relação a este signo (como também a outros), que retira a sua dimensão e beleza e nos leva para conceitos menores sobre o seu potencial e força.
A dádiva do Serviço que Virgem preconiza é um propósito, uma forma de estar, uma vibração que impele o nosso Ser, mas que necessita dum trabalho interior, duma consciência interna, duma sensibilidade em relação ao que estamos a dar, mas também em relação a nós mesmos, aos nossos limites, às nossas necessidades.
Quando exploramos esta questão da regência de Virgem, podemos também compreender o porquê dessa questão de colocação ao serviço ser algo importante para este signo e tão significativa para a sua compreensão. Para Virgem, a colocação ao serviço não é, em si, um caminho, mas sim um propósito, uma forma de ser ou estar. A palavra serviço, na sua origem, está ligada a servidão, a escravidão e a obediência. Etimologicamente, a base desta expressão é pesada, densa e retira-nos dum lugar de livre-arbítrio, de posse das nossas próprias capacidades e do seu uso de forma liberta. Embora este conceito seja difícil de ser integrado, ele é uma realidade para a energia de Virgem, que na ânsia de ser ou de se sentir útil, com o propósito de ser respeitado e reconhecido no seu valor, se torna um escravo da sua própria dedicação, criando um desajuste onde ele mais busca equilíbrio.
Estar ao serviço tem de ser visto numa perspectiva de Alma, de dádiva e dedicação, não abnegada e destrutiva, mas sim útil e valiosa, sendo por isso essencial que o trabalho do seu antecessor, Leão, esteja feito. Sem noção do meu próprio brilho, da minha identidade, vivemos em servilidade, em escravidão, seja dum trabalho, duma família, dos filhos ou até da nossa própria mente. É nessa consciência de quem somos que o estar ao serviço se torna uma dádiva de quem somos em prol de algo maior, se transforma num propósito de dar ao mundo o melhor de nós para torná-lo algo melhor, mais perfeito, mais belo. No fundo, estar ao serviço é doar em bondade aquilo que são as nossas melhores capacidades, mas com a consciência de que há algo que também obtemos, que nos permite também nos melhorarmos, crescermos e desenvolvermos. Se for de forma unilateral, o serviço é uma escravidão que até podemos abraçar de sorriso nos lábios, vivendo na ilusão (a interacção desregulada do signo complementar, Peixes) de que estamos a fazer algo de maravilhoso e bom.
A dádiva do Serviço que Virgem preconiza é um propósito, uma forma de estar, uma vibração que impele o nosso Ser, mas que necessita dum trabalho interior, duma consciência interna, duma sensibilidade em relação ao que estamos a dar, mas também em relação a nós mesmos, aos nossos limites, às nossas necessidades. Por isso, sem dúvida, Virgem tem o sentido da ajuda, do auxílio, do trabalho, que são factores essenciais para o seu desenvolvimento, mas necessita de aprender o discernimento de entender onde está a fronteira entre essas coisas belas, úteis e fundamentais e a sua destruição pelo servilismo e pela escravidão. Como a ceifeira que acompanha a espiga e baixa a cabeça para a colher, também Virgem tem muita facilidade em se diminuir, em se autoexigir, em se criticar em demasia, o que, na verdade, são facetas da falta de confiança, das barreiras e armaduras que monta para não ser vista em falha, em erro.
A mitologia de Virgem é vasta e, de certa forma, complexa, dimensionada por vários mitos de diversas origens. No entanto, é interessante compreender que todas, independentemente da base, nos trazem alguns factores comuns e essenciais que nos auxiliam na compreensão desta energia. A própria palavra “virgem” remete-nos para uma ideia de pureza, de castidade e ligada ao mundo do feminino. Este conceito foi, ele próprio, deturpado, sendo associado a sexualidade, algo que não está totalmente correcto.
A etimologia da palavra “virgem” leva-nos para algo muito simples, significando apenas uma donzela, uma rapariga jovem. Foi com a religião que este termo nos leva para o sentido sexual, ligado a castidade, que nada significa do que pureza e estar separado do que é impuro. No fundo, a ideia de castidade é mais no sentido duma virtude moral que depreende uma ligação pura e harmoniosa entre o corpo e o Espírito, ainda que numa dimensão feminina, receptiva e criadora. Esta é uma ideia que encontramos muito presente na mitologia associada ao Signo de Virgem.
Existem dois mitos gregos que se conectam com a energia de Virgem. O que talvez seja entendido de forma mais directa é o de Deméter e da sua filha, Perséfone. Deméter (na mitologia romana, Ceres) é a personificação da energia de Virgem, pois ela é a deusa das colheitas e da agricultura, ligada à terra e às próprias estações do ano. Era sobre ela que estavam os ciclos da natureza, a capacidade da terra de gerar alimento e, consequentemente, vida. Está intimamente ligada ao trigo, símbolo maior do desenvolvimento da sociedade e da civilização. Ela tem uma filha, Perséfone (na mitologia romana, Proserpina), gerada com o seu irmão, Zeus, que ama incondicionalmente e com quem é muito ligada. É em Perséfone que se encontra o ponto de origem da mitologia, com o seu rapto por Hades.

O mito diz que Perséfone, donzela, gostava de colher flores com as suas amigas. Certo dia, Gaia faz nascer um narciso de aroma encantador, que faz com que Perséfone, ao senti-lo, procure a sua origem. Ao encontrar o narciso, tenta tocar-lhe, mas nesse momento o chão abre-se e nele surge Hades, que lhe coloca o braço em redor da cintura e puxa-a para o seu carro. Perséfone pede ajuda a Zeus, mas este tinha-se isolado, pois este rapto tinha sido também com ele arranjado para que o seu irmão se casasse com ela. Deméter ouviu os gritos da sua filha, mas não a encontrou, fazendo com que durante nove dias a buscasse sem sucesso, com uma capa escura e uma tocha em cada mão. Perguntou a todos os que encontrou, mas só Hécate a ajudou. Mesmo não sabendo o que tinha acontecido, foi com Deméter ter com Hélio que tinha visto tudo e que contou o plano de Hades e Zeus.
Em profunda agonia e tristeza, Deméter deambulou pela terra, afastando-se dos deuses, disfarçada de velha. Foi nesses caminhos de tristeza que Deméter se tornou ama do filho de Metanira, mulher do rei Celeu. Certo dia, após um episódio com essa criança, Deméter é maltratada por Metanira e revela-se do seu disfarce, obrigando-a dessa forma a construir-lhe um templo. Foi aí que, durante um ano, Deméter ficou sozinha, em luto pela filha. Nessa solidão, os campos não geraram vida e a fome veio, levando a que o povo não adorasse os deuses. Sendo isso um problema, Zeus enviou Íris, sua mensageira, para tentar levar Deméter de volta ao Olimpo, o qual ela recusou. Não conseguindo, Zeus enviou mais deuses, mas todos falharam, levando a que ele enviasse Hermes para ordenar a Hades que libertasse Perséfone. Este obedeceu, mas sabia que as ordens de Zeus não poderiam ser cumpridas totalmente, mas deu-lhe um bago de romã, que ela comeu, ficando ligada a ele para sempre.
Perséfone foi ter com a sua mãe e contou-lhe o que tinha acontecido, mas como tinha comido a semente de romã, Deméter compreendeu que agora a filha era consorte de Hades e que não poderia fazer nada em relação ao isso. Hécate juntou-se também a elas e, a partir desse momento, ficou sempre ligada a Perséfone. No entanto, Zeus tinha prometido que daria tudo o que Deméter quisesse e, assim, ficou estabelecido que Perséfone apenas passasse quatro meses com Hades e o restante com a sua mãe, desde que ela permitisse que a terra gerasse alimento. Foi nessa alegria, ligada também a sacrifício, que Deméter ofereceu aos mortais o ensinamento de mistérios e abundância nas suas vidas.

O outro mito associado a Virgem é o de Astreia, deusa associada à justiça, mas que está na origem da constelação. Ela era defensora da justiça e da lei, mas também estava associada aos ciclos da natureza. Na idade de Ouro, o tempo em que os primeiros humanos tinham criados pelos deuses, Astreia vivia entre os homens, oferecendo-lhes a abundância, a paz, a bondade, a beleza e a justiça. Quando Prometeu roubou o fogo aos deuses e o levou aos homens, Zeus decidiu castigá-lo, assim como aos humanos, pedindo a Hefesto que criasse a primeira mulher, Pandora, que ofereceu a casamento ao titã Epimeteu. Prometeu avisou o seu irmão, Epimeteu, para não receber nenhum presente vindo dos deuses, mas Pandora era muito curiosa e com ela seguiu uma caixa, que ela não resistiu a abrir. Nessa caixa, como é sabido, estavam todos os males da humanidade, que se espalharam pelo mundo, restando apenas a Esperança.
Espalhando-se pelo mundo, a humanidade degenerou, levando a que Astreia se sentisse muito ofendida e triste com tudo o que via por parte dos humanos que ela tinha ajudado a desenvolver. Mesmo tentando ajudá-los, criticando-os e orientando-os a uma vida mais virtuosa, Astreia sentiu-se impotente perante a queda dos humanos, decidindo, assim, não mais viver na Terra. Primeiro isolou-se nas montanhas, mas quando os humanos, que dividiam as terras entre si e as começavam a explorar em busca de riquezas e poder, aproximaram-se, ela decidiu retirar-se para os céus, dando origem à constelação de Virgem, a donzela, com a espiga na mão. A balança, que empunhava, deu origem a uma outra constelação, a de Balança, que se coloca mesmo ao seu lado.
Numa visão um pouco diferente, podemos encontrar a energia do Signo de Virgem nas religiões primordiais americanas, como o culto da deusa asteca do milho, Chicomecóatl, ligada à agricultura e à subsistência, ou como nos Maias, com Yuin Kax, deus do milho, da prosperidade e da abundância. Também os Guarani têm mitos ligados ao milho, assim como algumas tribos da América do Norte. Nessas civilizações, o milho estava ligado à origem da vida, fazendo um paralelismo com a importância que, na Europa, o trigo tem. Mesmo no Oriente, os cereais, sendo um alimento primordial, têm um papel essencial, vistos como essência de vida. Por isso, ao olharmos para a constelação de Virgem, vemos na sua mão a espiga, elemento comum nos cereais, essencial para a compreensão do caminho que este signo vem percorrer.
Quando a espiga está cheia e o trigo está pronto a ser colhido, ela curva-se com o peso, voltando-se para o chão. Quanto mais cheia, mais pesada está, e mais ela se curva, como uma reverência da própria espiga perante a Mãe Natureza. O trigo é o dom da vida, a abundância, a subsistência e a sobrevivência. Quando é chegada a altura da colheita, esta não é apenas um acto, mas sim um ritual, uma dádiva que se faz de recolher, organizar, separar e armazenar, algo que é importante e essencial, que é superior a quem o faz.
Por isso, em Virgem temos uma primeira consciência de que o todo é maior que o indivíduo, mas em que é essencial também, precisamente pelo que referi acima, que haja uma compreensão de que esse um é, também ele, um todo importante e significativo, cheio de valor e brilho. O simbolismo da espiga que se curva ao estar cheia está profundamente associada à energia de Virgem, nomeadamente ao caminho que este Signo vem fazer. Veja-se o próprio glifo de Virgem, que dá a ideia, precisamente, das espigas que se curvam e se preparam para serem colhidas, ainda que, muito provavelmente, seja a representação das três primeiras letras da palavra grega que significa donzela ou virgem, παρθένα.

O caminho de Virgem é o Caminho da Humildade, o reconhecimento das nossas próprias limitações, a virtude que nos projecta para dentro de nós, para o conhecimento profundo de nós mesmos. Quanto mais temos em nós, quanto mais sabemos, quanto mais sabedoria em nós reside, maior a necessidade de nos curvarmos perante tudo aquilo que não compreendemos, maior a necessidade de termos consciência do tanto que há para descobrir. Esta é a imagem que a carta IX – O Eremita, no Tarot, que está associada à energia de Virgem, nos mostra, a de alguém que se protege e refugia do mundo exterior para se poder ouvir, para poder encontrar-se dentro de si mesmo na sua caminhada, na sua peregrinação, de cabeça curvada, usando a sabedoria, o bordão, como um guia e suporte, orientando-se pela luz da razão e da consciência, a lanterna com a estrela de seis pontas. É curioso percebermos que a palavra humildade provém do latim humilis, adjectivo que tem como origem a palavra húmus e que designava o que estava próximo do solo. Também é da mesma origem a palavra homem, que provém de homo, hominis, o tal ser que provém do pó, da terra, e a ele tornará.
Enquanto este é um belo e profundo caminho, é também um grande desafio e um importante ponto de dualidade para a vibração deste signo, tão focada na utilidade, na eficiência e no perfeccionismo, na competência e na autoexigência. Para resolver este dilema, Virgem precisa de fazer este caminho de humildade, compreendendo que as suas capacidades e a sua sabedoria são fruto do seu trabalho, esforço e dedicação, que precisam de ser reconhecidos, honrados e mostrados, mas que não servem um propósito individualista. Muitas vezes, numa tentativa de não revelar as suas falhas e os seus erros, a sua imperfeição, Virgem refugia-se numa postura arrogante, de superioridade, de autocontemplação destrutiva, fruto duma inversão energética, dum alimentar exacerbado do ego.
O caminho de Humildade que vem percorrer carrega em si a necessidade de nos recordarmos que Virgem é a ponte entre o Corpo e o Espírito, que a sua ligação precisa de ser fluída e harmoniosa, e que isso pede sensibilidade, inteligência emocional e serenidade. Por isso, a Lua, símbolo da Alma, do sentimento, do nosso mundo interior, é o regente esotérico de Virgem, o planeta através do qual a vibração deste signo encontra um propósito maior. Para que tal aconteça, Virgem precisa de compreender que a encarnação, o percurso neste plano, não tem como foco um atingir de perfeição, até porque, na verdade, tudo o que existe neste plano está em perfeita sintonia com o seu propósito.
Na verdade, o caminho na Terra é um profundamente dinâmico, e Virgem sabe-o bem, pois a sua essência é de mutabilidade, adaptabilidade e mudança constantes. Neste plano, o propósito é de aprendizagem para podermos expressar a beleza do nosso Espírito. Contudo, para aprender é preciso fazer algo que Virgem compreende bem, a experiência, olhar cada situação pelos olhos da razão, da consciência, errar e corrigir, levando a um caminho constante de aperfeiçoamento. É apenas assumindo esta ideia dinâmica que é o aperfeiçoamento, que depende do erro, da tentativa, do cair e levantar, do receber e aceitar a crítica, do entender o que aconteceu e aprender para melhorar, que podemos resgatar as nossas capacidades e atingir o melhor de nós. Por isso, a experiência é, para Virgem, um processo de crise profunda, ao mesmo tempo um estímulo e uma dor, uma necessidade e uma ferramenta.
O caminho de Humildade que vem percorrer carrega em si a necessidade de nos recordarmos que Virgem é a ponte entre o Corpo e o Espírito, que a sua ligação precisa de ser fluída e harmoniosa, e que isso pede sensibilidade, inteligência emocional e serenidade.
Se buscarmos uma perfeição, faremos uma jornada impossível e infinita, sem qualquer tipo de resultado, pois sempre que atingirmos um determinado ponto, perceberemos que há mais para melhorar, fazendo-o constantemente. Este espaço entre essa ideia e expectativa da melhoria e o ponto actual tornam-se uma frustração persistente que nunca nos permite celebrar, que nos torna servis, escravos da nossa própria busca de perfeição. Vemos isso todos os dias nas nossas posturas no trabalho, em casa, perante a nossa própria vida. Encontramos isso na crítica constante, na dúvida sistemática, no questionamento e recusa infindáveis. Não é por um acaso que o Apóstolo que está associado à energia de Virgem é São Tomé, que associamos sempre à expressão “ver para crer.”
O caminho de humildade que Virgem se propõe a percorrer é, no fundo, um acto de fé, a crença profunda em nós mesmos, nas nossas capacidades, nos nossos potenciais, mas com a consciência de que tudo o que somos, que tudo o que fazemos, que tudo o que desenvolvemos, é maior que nós mesmos. Contudo, sem nós, também não existia. Madre Teresa de Cálcutá, também ela nascida sob o signo de Virgem, deixou uma emblemática citação que diz: “Eu sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ela o oceano seria menor.” É esta ligação que Virgem necessita sempre de fazer, um ponto de equilíbrio entre a razão, muito sua característica e que, quando vivemos com as defesas levantadas, em orgulho e em soberba, se torna crítica e destrutiva, e o coração, a sensibilidade, o amor.
Isto significa que necessitamos de integrar a energia do signo anterior, Leão, e trazer a vibração da criança que se diverte, que se permite brilhar, que age com o coração, de forma consciente e profunda para este caminho. Se o propósito é o de aperfeiçoar, de melhor, de tornar mais eficiente, precisamos da curiosidade (um tema de Gémeos, o primeiro signo mutável) aliada à experiência através dum caminho de humildade, aceitando que só posso trabalhar com o que tenho, com o que me foi dado, aprendendo com essas aparentes limitações, olhando-as como matéria-prima, potenciando-as e modelando-as em capacidades. É apenas num caminho de humildade que esse propósito pode ser cumprido. Sem a vibração da humildade, tudo se torna uma paranóia, um mecanismo de controlo e uma obsessão destrutiva. Em humildade, Virgem torna-se uma energia de profundo e belo Amor.
Virgem não é uma das energias mais fortes e significativas que temos a serem activadas nestes tempos. No entanto, é preciso recordar que os Nodos Lunares estiveram no eixo Virgem-Peixes desde o início de 2025 até ao final de Julho de 2026. Por isso, o Signo de Virgem teve um trabalho significativo durante todo este tempo, através do Nodo Sul, de mecanismos e bagagens que precisavam de ser integradas e trabalhadas para serem limpas, elevadas e purificadas. O eixo Virgem-Peixes fala-nos da integração entre o plano terreno e o plano espiritual, da sintonia e a ponte entre estas nossas dimensões e do trabalho de purificação que ele nos oferece e pede.
No fundo, este é o propósito que os últimos tempos nos trouxeram, uma enorme necessidade de vermos, assumirmos e integrarmos o que precisa de ser corrigido, melhorado, aperfeiçoado e limpo, de forma a poder estar em sintonia com o propósito maior que um Espírito na Terra traz. O que temos visto, nestes últimos tempos, foi um trazer ao de cima das imperfeições, das inconsistências e dum conjunto de coisas que não se coaduna com essa vivência dum espírito encarnado. Nesse processo, muitos diluem-se nas ilusões e medos de perdas de estrutura e conforto, mas o desajuste começa a tornar-se cada vez mais pesado e visível.

Por isso, e embora Virgem não seja um signo de enorme activação actualmente, ele traz-nos esse trabalho de reorganização, purificação, eficiência e humildade que necessitamos de recordar e de desenvolver. Em primeiro lugar, o ingresso do Sol no Signo de Virgem dá-se na integração do que chamamos um Grande Trígono entre o Sol, a Lua e o Quíron, todos no início dos três signos do elemento Terra, trazendo-nos esta activação de cura e de consciência entre as dimensões terrena e espiritual, entre corpo e alma. Na verdade, juntamente com o Nodo Norte, embora em Aquário, estes três pontos formam um papagaio (uma pipa, no Brasil), que confere uma projecção de desbloqueio e de orientação da energia para a manifestação de potenciais, de evolução e orientação em prol de algo maior e colectivo.
Num período que é marcado por final de férias e retorno ao ritmo mais normal de trabalho, há que rever prioridades, há que reposicionarmo-nos e entender o que nos faz bem e o que nos prejudica. Quando o Sol percorre o Signo de Virgem ele pede-nos essa revisão, essa separação entre o trigo e o joio em nós e o reestruturar de rotinas, de propósito e focos. Este é o tempo em que, após os excessos do Verão, queremos voltar ao ritmo, à dieta, a trabalhar menos horas, a ler mais, a passar mais tempo com a família, e tantas outras coisas. Contudo, tal pede reorganização, disciplina, sentido crítico e realista. Pede também humildade e um profundo autocuidado.
Para além disso, e depois do forte e intenso eclipse em Leão de 12 de Agosto, viveremos o eclipse Lunar de Peixes, com o Sol, claro, no signo de Virgem, no dia 28 de Agosto. Ainda que não seja um eclipse tão forte como o anterior, é importante referir que ele se dá com Mercúrio já em Virgem, combusto, pouco tempo depois de estar cazimi. No entanto, os regentes deste eclipse estão no elemento fogo. Júpiter, em Leão, e Neptuno, em Carneiro, oferecem às águas da Lua em Peixes um foco e uma dimensão mais individual, mais intensa e dirigida para a manifestação, para a criação. Não podemos esquecer que estes eclipses já se dão com os Nodos no eixo Leão-Aquário e, por isso, o trabalho é, precisamente, abrir a consciência em relação ao colectivo, sair do individualismo e usar a nossa força para a construção de algo diferente, de maior conectividade.
Virgem ainda terá um papel a dizer neste ciclo zodiacal, pois o primeiro eclipse lunar de 2027, no final de Fevereiro, dar-se-á com a Lua em Virgem. Contudo, até lá, ainda há muito caminho a fazer, até porque estamos apenas a fechar metade do ano e é necessário preparar o que temos pela frente. Esse é o propósito maior de Virgem, a reorganização, o refocar e o redirecionar da nossa energia, compreender o que é preciso corrigir, o que é preciso modificar, preparar o caminho que os próximos meses nos trazem. É preciso voltarmos a olhar para nós, a vermos e reconhecermos as nossas imperfeições, as nossas falhas, não como um sentido de crítica, mas sim como um processo de melhoria.
Vivemos num mundo em que a ignorância, a estupidez e a falta de conhecimento se tornaram quase troféus que muitos expõem nas redes sociais e nas ruas. As conquistas feitas pela ciência, pela dedicação do ser humano em resolver problemas, com todas as falhas e erros que estão a elas associadas, claro, são colocadas em causa pela visão fundamentalista daqueles que gritam mais alto. Por isso, a humildade, a bondade, a gentileza e a dádiva precisam de ser novamente pedras de toque que precisamos de honrar em cada um de nós.
Referências Bibliográficas:
JOHNSTON, Sarah Iles. Deuses e Mortais, As Grandes Histórias da Mitologia Grega. Alma dos Livros, 2025
Nota Final:
Há alguns anos lancei um projecto de Workshops chamado “Os 12 Caminhos”, onde, a cada mês, falei sobre o signo desse período, trabalhando as suas ideias e os seus propósitos. Foi sob a égide dessa ideia que agora lanço este projecto de 12 artigos, de Março de 2026 a Fevereiro de 2027, um por cada signo, onde exploro um pouco do seu propósito, mas onde integro a vivência da sua energia no tempo que vivemos. Estes são tempos de tomadas de consciência, de novos caminhos que se abrem e de novas posturas que nos são solicitadas. Por isso, ao longo dos próximos 12 meses, vamos dar passos pelos caminhos de cada signo na descoberta da sua dimensão mais sublime e do seu propósito, enquadrado no desafio que este tempo nos apresenta. Pode encontrar aqui todos os publicados.

















