“O que queres ser quando fores grande?” Quantas vezes ouvimos esta pergunta quando éramos pequenos ou mesmo hoje em dia, quando vemos alguém falar com uma criança. Outra pergunta muito comum, e que muitas vezes segue a primeira, é, “mas isso dá dinheiro?”, esta já mais direccionada para adolescentes ou jovens adultos, quando estão a decidir que caminhos fazer em termos de estudos e que profissões escolher. Estes são dois exemplos muito concretos de como a nossa sociedade tem sido definida e estruturada, qual a base em que ela tem sido construída, mas também o princípio de muitos dos problemas que ela contém e que, nestes tempos que vivemos, estão a vir ao de cima e a revelar inúmeras feridas que precisam urgentemente da nossa atenção.
Quando olhamos o mundo e a nossa sociedade, conseguimos ver estas questões com alguma clareza. De forma muito simples e directa, é fácil compreender que as nossas vidas se regem pela necessidade de ter meios materiais. Uma casa, um carro, dinheiro para comprar comida, roupas, bens, para pagar a escola dos miúdos e tudo o que eles necessitam, para ter acesso a saúde e a um bocadinho de lazer, algo que fica, indefinidamente, para o final, maior parte das vezes, claro! Isto leva-nos a procurar um trabalho que nos pague um salário que permita fazer tudo isso, algo que, como temos visto, se tem tornado muito complexo. Tudo (ou quase tudo) o que fazemos ou não fazemos desenvolve-se à volta do dinheiro que temos ou que conseguimos ter.
O que descrevi no ponto anterior é, a meu ver, uma constatação de um facto, duma realidade, mas não é, em momento algum, uma opinião. Por isso, deixo aqui uma primeira consideração. O mundo em que vivemos foi construído à volta duma energia de troca que é o dinheiro. Em primeira instância, é ele a definição neste plano do que é valor e não é, por natureza, uma energia positiva ou negativa. O dinheiro é a forma que ainda temos de definir esse valor, de responsabilizar e de criar algum equilíbrio nesta troca energética que o plano terreno nos oferece. Nesse sentido, ele é absolutamente essencial e enquanto não conseguirmos ter outra percepção ou compreensão sobre a matéria, ele continuará a ser a energia de troca que teremos disponível.
O mundo torna-se melhor quando conseguimos manifestar aquilo que são as nossas capacidades.
Regemos a nossa vida e o nosso desenvolvimento enquanto seres à volta da energia da matéria e do dinheiro, o que nos tem levado a castrar aquilo que de mais original e pleno temos, a nossa essência, as nossas capacidades, dons e vocações. Felizmente, tal não se reflecte em todos, mas sabemos que esta é a realidade de grande parte das pessoas. A diferença, a originalidade, a unicidade, deixaram de ser grandes vantagens e, muitas vezes, são vistas de soslaio, encaradas como ameaças pelas chefias ou por quem tem medo de perder o seu poder. Mudar o status quo é cansativo e aborrecido, dá trabalho e chatices, mostra fragilidades e traz desafios.
Veja-se que os adolescentes são levados a escolher cursos cujas profissões dão dinheiro, sem perceberem se essas profissões vão trazer as suas melhores capacidades ao de cima. Os currículos dos anos escolares têm retirado drasticamente o peso de disciplinas que nos levam a explorar as nossas capacidades, em prol dum foco (que também é essencial) em matemáticas e português. Fala-se em literacia financeira até à exaustão (e ela é importante, sim), mas não se motiva a inteligência emocional, a empatia, o contacto com a natureza, a interajuda, entre tantas outras coisas.
O resultado disso está à vista, e não é de agora, mas sim de décadas: o individualismo, o egoísmo, a competição bruta e absurda, pouco saudável e destrutiva. Formam-se nas universidades, essencialmente, máquinas de produção em série em vez de criadores de caminhos e soluções. Nas redes sociais, os “influenciadores” falam de dinheiro fácil, ostentam vidas supostamente cheias de bens e riquezas, alegando que é isso que define um homem ou uma mulher. Somos todos os dias bombardeados com publicidade de jogos de dinheiro, de promessas de riqueza. No entanto, será isso que realmente nos trará plenitude?
O mundo torna-se melhor quando conseguimos manifestar aquilo que são as nossas capacidades. É verdade que nem sempre a nossa vocação tem de se tornar uma profissão! Uma pessoa pode ter como profissão limpar as ruas, o que é (e devia ser ainda mais, nomeadamente do ponto de vista financeiro) essencial e de enorme valor, mas ser um magnífico artista. Contudo, como pode essa pessoa ter um espaço pessoal (físico, mental, emocional e de tempo) para desenvolver a sua arte, se todos os dias tem de se preocupar por receber pouco, por ter um trabalho que é visto como inferior, e chegar a casa cansado e sem qualquer motivação para poder desenvolver a sua arte?
Vivemos num mundo que se desenvolveu muito rápido, que construiu necessidades e tecnologia com maior velocidade do que aquela que é a da nossa própria adaptação. Veja-se o mais recente exemplo, o da Inteligência Artificial, que dum momento para o outro está nas mãos de todos através dos telemóveis, mas sem uma devida reflexão sobre o que isso implica, nomeadamente do ponto de vista energético. As crianças nascem e crescem a saber mexer na tecnologia com muito mais destreza do que nós, mas não a compreendem, não têm um pensamento crítico sobre ela – nascem e são já viciados nela, de tal forma que já nem conseguem viver sem ela. O problema não é a tecnologia, não é a IA nem qualquer outra coisa que está ao nosso dispor, mas sim a forma como nos ligamos e relacionamos com estas mesmas questões. Estamos tão ávidos de emoções, de conexão, mas o desequilíbrio está tão profundo, que temos pessoas a desabafar com uma máquina em vez de falar com um amigo num café.
A matéria é a estrutura de base deste plano em que vivemos, é um dos alicerces fundamentais do que é a aprendizagem desta dimensão. É sobre ela que vimos aprender quem somos e nos desenvolvermos, tendo como grande propósito a manifestação e expressão do nosso Espírito. No entanto, a matéria é densa e poderosa, ela atrai e, se não estivermos atentos e centrados, encarcera-nos com uma enorme facilidade. É isso que vemos à nossa volta, nomeadamente nos líderes mundiais que têm estado no poder. Em vez de decisões, medidas e políticas que tenham como grande foco o desenvolvimento e direitos sociais e humanos, a igualdade de oportunidades, a empatia e a união, o que temos visto é a apologia do medo, da divisão, da separação. O outro, aquele que pensa, que tem uma cor, uma religião, um pensamento ou uma orientação sexual diferentes, passou a ser um inimigo, e é isso que, todos os dias, nos vai destruindo.
Olhe-se bem para esses líderes, seres que em poucas décadas, talvez nem isso, não estarão mais cá, que lutam com as forças que lhes restam para ficarem agarrados à ilusão do poder, aos ganhos financeiros que com isso obtêm, a uma aparente fama ou um suposto lugar na história. Todos eles, sem excepção, seres com feridas emocionais enormes que se transformaram em ódio e raiva que todos os dias os mantém, ao mesmo tempo que os destrói. Olhemos para as sociedades onde os temas de saúde mental são cada vez maiores e mais relevantes, onde as pessoas se sentem mais sozinhas, isoladas e deprimidas.
No entanto, a verdade é que tudo começa lá atrás, quando aquelas primeiras perguntas nos são insistentemente feitas, quando a pressão de sermos melhores do que os outros nos é colocada. É que a matéria tem um aliado, que ao mesmo tempo é um caminho, o Tempo, pois é ele que tudo molda e tudo define. Quando o tempo vai passado, quando ele nos vai escapando pelos dedos, é que percebemos que aquilo que é importante não está na matéria, no dinheiro que temos ou nos bens que possuímos, mas sim nas vidas que ajudamos, nos corações que tocamos, no amor que partilhamos e vivemos. O dinheiro, os bens, as posses, tornam-se relevantes e fazem sentido quando tudo o resto existe. Caso contrário, são apenas matéria que desaparece, que se consome, que tem um término, que saciam uma necessidade, uma gula, mas não nos preenchem, pois essa é a lei maior deste plano. É isso que vemos nos tempos que vivemos, onde há uma necessidade de consumo que nos rege, uma fome insaciável, onde é preciso sempre mais.
Estes são tempos de transformação, de mudança de paradigma, em que o ter começa a ser substituído pelo ser. Quando, no final de 2020, se deu a conjunção entre Júpiter e Saturno aos 0º de Aquário, dando estrutura a um ciclo de conjunções entre estes dois planetas no elemento Ar até ao final do século XXII e encerrando o ciclo no elemento Terra, a vibração de desenvolvimento da humanidade mudou. O que estamos a viver hoje, nestes tempos tão conturbados, é reflexo dum período de transição, reforçados pelo ingresso de Plutão em Aquário, entre 2023 e 2024, pela conjunção entre Saturno e Neptuno em Carneiro e, mais recentemente, com a mudança de eixo dos nodos lunares para Aquário (nodo Norte) e Leão (nodo Sul).
Por isso, o que nos está a ser solicitado, não só individual como colectivamente, é um repensar e um ressignificar da matéria, um rever dos nossos valores, do que é realmente importante e significativo, um realinhar com a nossa própria essência. O dinheiro, certamente, continuará a ser a unidade de medida de troca durante muito tempo, continuará a ser necessário e imprescindível. Sim, isto pode significar que ainda durante algum tempo viveremos mais divisões, mais conflitos, mais radicalismo, mas tudo isto continuará a existir enquanto olharmos o mundo e a vida da mesma forma, enquanto não percebermos que, como na célebre frase atribuída a Gandhi, se continuarmos a agir na filosofia de “olho por olho”, o “mundo acabará cego.” Tudo começa em cada um de nós, num pequeno gesto, numa pequena palavra ou atitude, na compreensão de que, sim, precisamos de trabalhar e de dinheiro, mas se a nossa vida for apenas isso, sem qualquer propósito ou direcção, então não vivemos, apenas sobrevivemos. É assim que percebemos que o importante não é o “quê”, mas sim quem queremos ser quando formos “grandes”.

















