Existem momentos e situações no nosso percurso de vida que nos confrontam com uma sensação dolorosa e profunda de não termos o poder de mudar o rumo das coisas ou impedir determinados processos. Essa sensação de impotência tira-nos do nosso centro, molda a forma como olhamos para as situações e coloca-nos num lugar que não é o nosso, mas através do qual precisamos de caminhar para nos transformarmos, curarmos feridas e avançarmos na nossa jornada.
Maior parte das vezes, essas situações que nos colocam nesse lugar de impotência não são nossas num sentido mais directo, mas sim ligadas a pessoas que amamos, que são importantes para nós, que queremos cuidar e preservar. No entanto, quando entramos nesse lugar de preocupação e dor, sem nos apercebermos, tiramo-nos do nosso próprio lugar, assumimos um papel que não é o nosso e carregamos em nós um sofrimento que não nos pertence e que não cabe a nós suportar.
Somos humanos e estas questões fazem parte da nossa experiência. Quanto mais próximas são as situações do nosso coração, maior a dor que essa falta de poder nos coloca sobre os ombros. O que não percebemos é que esse processo levanta o véu de algo mais profundo e é por isso que passamos por ele, é por isso que ele se coloca no nosso caminho e que precisamos de olhar bem dentro de nós para o compreender e trabalhar.
A condição humana tem estas peculiaridades, a da mortalidade, da fragilidade, do crescimento através da dor, mas também as suas chaves, a da partilha, do cuidado, do amor que nutrimos uns pelos outros e que nos auxilia neste percurso. O verdadeiro caminho de ser humano não é composto de individualismo, autossuficiência e egocentrismo. Quando damos os nossos passos nesses princípios, invariavelmente, perdemo-nos e destruímo-nos. O percurso aqui na Terra, o de honrar a beleza e a divindade da nossa vida, é de compreensão e de alcançar a individualidade, mas isso em perfeita harmonia com tudo o que nos rodeia, em interacção com os nossos sistemas, em partilha, dádiva e recebimento.

Neste plano, tudo funciona, numa primeira instância, em harmonia, e é sobre esse princípio que precisamos de caminhar para alcançar patamares diferentes, mais elevados e humanos. Contudo, muitas vezes o que procuramos é uma espécie de equilíbrio, e equilíbrio nem sempre é harmonia e, muito menos, justiça, tornando-se, muitas vezes, num reflexo duma dificuldade em viver a mudança. Sempre que a mudança se dá, por mais pequena que seja, ela gera um desequilíbrio, uma nova realidade que vai pedir-nos um reajuste, e isso solicita-nos consciência e transformação, o largar duma ideia dum poder que nunca foi nosso nem nos pertence e o retorno à nossa própria essência, ao que de mais importante existe em cada situação.
Por isso, quando algo muito profundo e emocional nos toca e um suposto poder é-nos retirado, a primeira coisa que fazemos é activar e acelerar processos mentais, em busca de restabelecer um equilíbrio, de corrigir uma situação que nos parece errada e injusta. Nesses momentos, todos os nossos valores são colocados em causa, todas as nossas questões são colocadas num plano diferente e existem processos que tomam o comando, mesmo que não nos apercebamos dessa realidade.
A preocupação e a tentativa de controlo das situações, muitas vezes relacionadas com questões exteriores a nós, a pessoas que amamos, que são para nós importantes, que nos dizem muito, são reflexos de valores e crenças que nos foram impostos, de papéis e lugares que não são nossos, de culpas que nos foram incutidas. É perante essa avalanche de pensamentos, alimentadas de tormentas e culpas profundas, que nos é pedido um mergulhar profundo em nós, caminhar nessa dor, em todos esses sentimentos, em todos esses pensamentos, para compreender o que nos está a ser oferecido. Nada do que nos sucede é fruto dum acaso ou duma maldade. Tudo o que vivemos pertence-nos, mas às vezes não o fazemos no lugar correcto.
Não podemos ignorar ou passar por cima das situações, mas muitas vezes também não as podemos tomar como nossas. É, sem dúvida, caminhando nesse lugar de sombra, de dor, sofrimento e impotência que conseguimos compreender o que essa situação pede de nós, o que ela nos mostra, o que nos revela. No meio do turbilhão das coisas que acontecem e que, muitas vezes, caem em cima de nós, que não podemos, é verdade, largar, é preciso encontrarmos um lugar de discernimento e verdade, um lugar de amor, de alguma serenidade, sob pena de entrarmos, também nós, num processo profundo e destrutivo.
Um luto é um largar de algo que já não nos pertence, duma estrutura emocional que já não nos pode sustentar, mas que deixa em nós algo que precisamos de ver, de valorizar, algo que nos inspira a continuar, a caminhar para lá da dor.
Quando permanecemos num lugar de sofrimento, tornamo-nos responsáveis por essa condição. Perante uma situação que nos causa angústia, que nos atormenta, precisamos, em primeiro lugar, de perceber e distinguir o que é nosso do que é do outro. É nessa compreensão que se dá o processo mais importante, o de sermos capazes de, conscientemente, largar o poder que não temos, o controlo que tentamos manter, e voltar ao nosso centro. Essa aprendizagem é extraordinariamente profunda e importante, valiosa e rica, e o caminho que ela nos apresenta é profundamente transformadora.
Quantas vezes, perante alguém que nos é próximo, que tanto fez por nós, ao qual sentimos uma enorme dádiva de gratidão, e que passa por uma situação desafiadora, não tentamos colocar esse fardo sobre as nossas costas, fazer tudo para mudar a condição da pessoa? Quantas vezes, também, não percebemos que essa condição não é nossa, que podemos auxiliar essa pessoa a carregá-la, a suportá-la, mas que, por muito que façamos, não vamos alterar o rumo do caminho? Quantas vezes, no meio de tudo isso, preocupamo-nos tanto em tentar manter um ponto de equilíbrio e nos esquecemos do que é realmente importante, do que é verdadeiramente essencial? Quantas vezes, perante situações à nossa volta, no mundo, na sociedade, sentimos essa mesma impotência, a dor de ver a injustiça e o problema e não conseguir mudar nada?
A preocupação e a vivência profunda dum problema de alguém que nos é querido (ou mesmo duma situação social) é, em si mesma, um lugar de luto que nos transporta entre a nossa mente e o nosso coração, entre os pensamentos e os sentimentos. Um luto é um largar de algo que já não nos pertence, duma estrutura emocional que já não nos pode sustentar, mas que deixa em nós algo que precisamos de ver, de valorizar, algo que nos inspira a continuar, a caminhar para lá da dor. O caminho do luto é de profunda transformação das nossas bases, transportando-nos a algo mais interior, às nossas crenças e valores, ao que nos foi deixado e à reflexão necessária do que é nosso e do que, na verdade, não é.
É através desse caminho de preocupação que a culpa, a que carregamos, se revela como uma semente colocada por outros e alimentada, muitas vezes, por nós mesmos. A sociedade, as crenças religiosas e morais, a família, por vezes de forma inconsciente, é verdade, incutem-nos vivências de culpa, colocam-nos essas sementes na nossa mente e, ao longo do nosso percurso, com as nossas vivências e experiências, com os processos que vamos passando, vamos alimentando-as, criando uma teia que nos envolve e nos prende, de tal forma que passa a ser casa, armadura e modo de vida. Vamos carregando tudo isso ao longo do nosso caminho, até que algo acontece, que alguém que amamos, na sua vida, é confrontado com um desafio profundo e nós somos chamados a acolher, a auxiliar, a ajudar. É aí que tudo vem ao de cima, a gratidão que se transforma em culpa, o cuidar que se torna parentalidade, a dor da antecipação de algo sobre o qual não temos poder, mas que tentamos, a todo o custo, até da nossa sanidade mental, controlar.
Todos conhecemos, melhor ou pior, estes processos, através de questões com os nossos pais, avós ou família próxima, através de amigos, companheiros ou companheiras, até mesmo através de filhos, de questões ligadas à própria vivência social e do mundo. Todos, de alguma maneira, vivemos estas questões, carregamos em nós processos de culpa, colocamos sobre os nossos ombros questões que não são nossas, mas que acreditamos ter o poder de fazer algo, ignorando todos os sinais, mensagens e a realidade. Se todos conhecemos estes processos, o que não vemos, muitas vezes, são os caminhos e as soluções, o que é preciso fazer e o que estas questões nos solicitam.

Entre as muitas formas de compreender e trabalhar estes e todos os outros processos que a experiência humana nos oferece, o Tarot tem a capacidade de nos mostrar e revelar o caminho. Quando mergulhamos na sabedoria do Tarot, encontramos várias cartas que nos falam destes temas, mas há duas que se destacam de forma substancial, o 9 de Espadas e o 5 de Copas. Elas falam-nos destas temáticas, destes processos, mas também nos indicam, na interacção com outras cartas, os caminhos a percorrer.
Quando olhamos para o 9 de Espadas no Rider Waite Smith, desenhado magistralmente pela Pamela Colman Smith, vemos o processo da preocupação que tem origem em algo que nos é querido, mas que não é nosso. Se observarmos, as 3 espadas inferiores atravessam zonas muito específicas: a primeira, o coração, a segunda a nuca, a garganta e os olhos e a terceira, a coroa. Estes pontos essenciais, emocionais, mentais e divinos, estão, assim, bloqueados, atravessados em dor, e, por cima deles, 6 outras espadas se colocam. A mente sobrepõe-se ao coração, ao discernimento e à conexão com o divino. Os olhos, tapados, não permitem ver o que é pelo que é, a dor carrega-se em nós, alimentada por um conflito que está latente no nosso ser, ilustrado na base da cama e que nos dá a noção duma violência que humilha e diminui, a manifestação da culpa. Os pés e pernas, cobertos pela manta com rosas e símbolos, não se movem, não impulsionam.

O 5 de Copas, por sua vez, é a carta do luto, que nos mostra o foco na perda e o ignorar daquilo que ainda existe, que é belo e nos alimenta, assim como dos caminhos que temos ainda disponíveis. Esta é uma carta, por natureza, de profundas emoções, onde os cálices que caíram derramam um líquido vermelho que nos recorda sangue, símbolo de vida. A capa negra, pesada e profunda, que só deixa os pés e a cabeça descobertos, envolvem o corpo e levam-nos para esse sentimento de dor, de impotência, como se os nossos movimentos estivessem restringidos. Contudo, o que nos liga à terra e o que nos liga ao divino, os pés e a cabeça, estão descobertos. Há caminho a fazer, há realidade a viver. Os cálices, símbolo do naipe e do trabalho emocional que ele nos pede, estão no chão, mostrando-nos que estas vivências são raiz, base e alimento dum caminho que há de vir.
As cartas são símbolos, são arquétipos. O símbolo move-se e, nesse movimento, revela-nos a mensagem. Quando colocamos estas cartas lado a lado, na ordem de desenvolvimento dos naipes, 5 de Copas e 9 de Espadas, vemos que as duas figuras estão de costas voltadas, como processos que não se ligam, não interagem, não se alimentam nem nutrem. Para transformar estes processos e compreendermos o nosso lugar neles, precisamos de os conectar, confrontar a nossa mente, as nossas preocupações, com as nossas emoções e perdas, rasgar os véus, voltar à nossa essência, o trabalho do 6 de Copas, e abdicar do controlo, das regras que, não manifestando a nossa verdade e essa mesma base emocional de quem somos, nos prendem numa ideia de poder, o trabalho do 10 de Espadas.

O caminho da abdicação significa que, perante estas situações que, não sendo nossas, podem pedir a nossa acção, precisamos de ter a consciência do que é essencial, do que é verdadeiramente importante, dos nossos limites e capacidades, do que nos pertence e do que é nossa responsabilidade, em contraposição do que é do outro. É assim que poderemos verdadeiramente ajudar, auxiliar, cuidar e nutrir, oferecendo ao outro aquilo que ele necessita, sim, mas que é a nossa verdadeira dádiva, que conseguimos fazer algo que marque a diferença no mundo que nos rodeia, ao mesmo tempo que temos a capacidade de criar o caminho para mitigar uma dor e um sofrimento, sem o carregar sobre nós. É neste dilema que encontramos um caminho e uma harmonia tão necessários, mas também tão difíceis de serem trabalhamos nestas situações.
Entre as experiências que este plano nos oferece e, por vezes, nos impõe, esta vivência é das que mais nos confronta com a nossa humanidade. O luto, a perda, a desilusão, a impotência, levam-nos para campos da nossa psique que são tão profundos e escuros que, muito facilmente, nos arrastam para dentro deles, levando-nos a que nos percamos na sua escuridão. Apenas quando estamos centrados em nós mesmos, quando temos a consciência do nosso caminho, dos nossos processos, do nosso propósito, é que temos o equipamento necessário para fazer essa jornada.
Como referi acima, nada do que surge nas nossas vidas surge por um acaso, tudo é fruto dum caminho de partilha, de dádiva e recebimento, duma interajuda que nos define enquanto almas e enquanto seres espirituais. É essa dimensão que nos mostra que um processo que nos chega através de alguém, ou mesmo da sociedade, é também uma parcela do nosso caminho, um ensinamento que nos é trazido, uma aprendizagem que temos disponível. Contudo, só o conseguimos fazer quando conseguimos abdicar dos nossos próprios mecanismos de controlo, das nossas necessidades dum poder que, por muito boa intenção que tenhamos, nada mais é do que a manifestação de questões do nosso ego, das nossas culpas e medos, que apenas pedem a única coisa que verdadeiramente faz diferença: amor.



















Obrigada! 👏👏🍀🌈🙏