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Escorpião – O Caminho da Morte

20261102Escorpião-OCaminhodaMorte

A vida na Terra, assim como a própria experiência na matéria, tem uma cadência peculiar e extraordinariamente perfeita. Após um período em que a vida floresceu, desenvolveu-se, deu frutos e preparou as sementes que serão a nova vida que há de vir na Primavera, o Outono traz-nos o tempo da morte, da limpeza e da purificação, período que tem como grande auge o seu ponto central, o tempo de Escorpião. É neste tempo, em que os dias se tornam mais curtos, em que as trevas dominam, progressivamente, maior parte das horas, que somos recordados que a vida não existe e não se desenvolve sem a morte, que o dia não existe sem a noite, que é nesta sucessão que tudo se desenvolve e que tudo se processa, não por capricho dos deuses, mas porque é neste processo que nos transformamos e nos libertamos da própria prisão que a matéria pode representar.

Glifo de Escorpião

Quando chegamos ao momento central do Outono e activamos a energia de Escorpião, os dias diminuem, as noites vão-se tornando cada vez maiores, e o frio começa a dominar a estação. Tradicionalmente, não fosse o tempo tão complexo e peculiar que estamos a viver, este é o tempo em que as árvores perdem as suas folhas, aquelas que em Balança tomaram as cores outonais, em que elas caem no chão, juntamente com os frutos, em que os animais se preparam para recolher e hibernar. É aqui que as chuvas fortes e pesadas fazem o resto da limpeza, deitando as restantes folhas à terra juntamente com os frutos que ainda vão sobrevivendo nos galhos, e iniciando o processo de destruição da matéria, a sua putrefação e levada para o interior da terra.

Aos olhos terrenos, tão habituados à beleza da vida, ao seu florescer, às cores e ao brilho, este processo de destruição e putrefação é algo muito pouco agradável à vista, por vezes repulsivo, até. Contudo, este processo é mágico, profundo e essencial, pois ele representa o primeiro garante da promessa que Sagitário nos irá fazer, a esperança da vida que há de vir. Sem todo o processo que Escorpião nos traz, sem esta profunda transformação do cenário da natureza, a destruição da matéria e a sua absorção pelo próprio solo, sem este cada vez maior recolhimento da própria vida, não há futuro. Por isso, em Escorpião somos levados para esse lugar profundo, nem sempre bonito, mas fulcral.

Por isso, Escorpião tem essa tarefa de nos recordar que a vida e a morte, a criação e a destruição, a matéria e a antimatéria, não são simplesmente duas faces da mesma moeda, mas sim um caminho, um processo contínuo, perpétuo, que tem um propósito maior. Escorpião é o oitavo signo do Zodíaco, e o número 8 é aquele que nos conecta entre o plano terreno e o plano divino, aquele que tem um fluxo eterno, que nos mostra que toda a escolha, tão bem definida em Balança, tem uma consequência, projectada em Sagitário, mas que existe algo no meio, um processo, uma profundidade que necessita de ser trabalhada, integrada e atingida. É nesta compreensão que Escorpião se define, que lhe dá a famigerada (embora injusta) fama, trazida por todo o seu imaginário e simbologia, mas também que o projecta como o grande signo de poder que ele realmente é.

Escorpião, o Pilar Energético da Água

Escorpião é o segundo signo do Elemento Água a ser activado no caminho do Zodíaco, representando, como o primeiro, Caranguejo, um fechar dum ciclo elemental e permitindo o abrir do último ciclo, que também se fechará com um signo de Água, Peixes. Em Escorpião encontramos a Água no seu modo fixo, as águas paradas, aquelas que criam limos e impurezas, que escondem na sua profundidade coisas que não conseguimos ver. Esta própria dimensão oculta e profunda, tão característica deste signo, é uma das razões pelas quais ele é temido. Contudo, é essa força que o torna o terceiro pilar energético do Zodíaco, a sustentação da energia da Água no percurso zodiacal.

Depois de Touro, que nos dá a base na matéria, e de Leão, que nos sustenta o Espírito e a força do seu impulso, é em Escorpião que as emoções ganham dimensão e se revelam como a grande força de aprendizagem e desenvolvimento que nos define neste plano. Não vimos à Terra para vivenciar o Amor Incondicional, pois é algo que a nossa Alma já conhece, que dela faz parte na sua essência. Na Terra vimos experienciar algo diferente, algo que nos conecta a este plano. A mente conecta-nos ao divino, pois, segundo as leis herméticas, o Universo é Mental, e é através dela que criamos e trazemos o que existe nesse plano para este, mas é através da experiência das emoções, da sua profundidade, que nos conectamos ao plano terreno e nele evoluímos.

No entanto, as emoções são uma dimensão muito intensa, forte e poderosa no nosso ser e, neste plano, elas adquirem uma substancial importância, pois é através delas que tudo o que é idealizado pode ser nutrido e trazido para o plano terreno. São as emoções, a sua vivência, a sua experiência, a sua multiplicidade, textura e dimensão, que nos torna humanos, que dá tonalidade a este caminho que aqui viemos fazer. Sem emoções, somos máquinas, somos autómatos, somos apenas um corpo que age, que se move, que faz, constrói e cumpre, mas não um Ser que imagina, que discerne, que sente, que ama, sente dor, sofre, transforma-se e renasce para, no ideal, ser melhor do que era antes.

Como símbolo da nossa dimensão emocional, a água de Escorpião leva-nos a essa profundidade, à necessidade de experienciarmos todo o espectro de emoções que o plano terreno nos oferece, não num lugar de escolha, mas sim num caminho de compreensão, de elevação e purificação.

Para integrar esta dimensão, é preciso uma força poderosa, que sustenta toda esta intensidade, mas que também a purifica, transforma e liberta. É nesse sentido que Escorpião se torna o Pilar Energético da Água, pois ele leva-nos para essa experiência profunda e obriga-nos a lidar com todas as cores dessa dádiva que é o Amor terreno, cru, por vezes instintivo, protector, criador e destruidor, potenciador e purificador. É nessa vivência, com tudo o que ela nos oferece, que nos conseguimos elevar, que saímos da prisão da matéria, dela nos libertamos, que sobre ela vencemos e nos tornamos mais próximos do divino. É esse o grande trabalho da ideia de pilar energético, manifestado, como já referi nos artigos sobre Touro e sobre Leão, pelo Tetramorfos, as quatro manifestações elementais que se opõe, mas, ao mesmo tempo, se complementam para formar o uno, representadas por três animais e um homem, todos com asas.

No Tetramorfos não encontramos um escorpião, mas sim uma águia, pois ela é a representação da elevação da sua energia profunda. Como é também sabido, esta simbologia é encontrada em muitas manifestações religiosas e místicas, estando também associada aos quatro evangelistas. Neste caso, a águia, a vibração do Escorpião e o Pilar Energético da Água, é representada pelo apóstolo João, aquele que acompanhou Jesus na sua prisão e crucificação, que cuidou de Maria após a morte do Mestre. É no Evangelho de João que vemos o carácter divino de Jesus, pois é nele que vemos o Mestre na elevação do Verbo. A águia é o animal que vê mais claramente de maior altitude, sendo por isso a que tem maior discernimento do mundo, estando mais próxima do Sol, do Espírito. Nesse sentido, João revela-nos Jesus como o Logos trazido à Terra, mas sempre o colocando no plano terreno, transpondo-lhe uma humanidade concreta e real, profundamente emocional. É no seu evangelho que vemos Jesus cansado ou com sede, que vemos um Mestre emocional, humano, profundamente ligado a sua mãe, Maria.

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e Deus era o Verbo. Este estava no princípio com Deus. Todas as coisas existiram por ação dele e sem ele existiu nem uma só coisa que existiu. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz.”, Evangelho de S. João 1:1-5. É deste início de evangelho, tão conhecido, que resgatamos a energia de Escorpião, que sendo um signo de água, não é o Verbo no sentido de palavra, mas de algo superior. É curioso também percebermos que o início do evangelho nos traz, não a história de Jesus directamente, mas sim o relato da história de João Baptista, aquele que “baptizou com a água”, prenúncio daquele que baptizaria com o espírito santo. Contudo, o próprio Jesus teve de ser primeiro baptizado nas águas, o simbolismo duma morte para o renascimento, um processo que encontramos em muitas correntes espirituais e religiosas.

A água purifica, limpa, transforma e renova, ela é o elemento que dilui. No budismo, a água acompanha esta dimensão simbólica, acrescentando também uma camada de sabedoria e uma profunda conexão com a mente. A água é a representação máxima da própria vida, mas a vida não pode existir sem a morte e, por isso, a água toma lugar simbólico também nos rituais de passagem. Por isso, Escorpião tem uma força profunda, a das águas que sustentam a vida, mas que guardam as memórias dos mortos, daqueles que antes de nós aqui estiveram.

Como símbolo da nossa dimensão emocional, a água de Escorpião leva-nos a essa profundidade, à necessidade de experienciarmos todo o espectro de emoções que o plano terreno nos oferece, não num lugar de escolha, mas sim num caminho de compreensão, de elevação e purificação. Em última instância, é através das emoções que nos conectamos, que nos ligamos, que nos compreendemos, que nos tornamos, no fundo, mais humanos. É também através delas, claro, e Escorpião é pródigo nesse ensinamento, que também conseguimos destruir e aniquilar. Contudo, todas as emoções são válidas e necessárias, e o que Escorpião nos pede é que as vivamos, as experienciemos, mas que consigamos também aprender a largá-las, a delas nos desapegarmos, tornando-as um caminho e não um fim, um processo e não um objectivo.

Se em Touro trabalhamos a matéria, a sua nutrição física, o apego que é necessário para a construção de quem somos e da base de sustentação de tudo o que poderá existir, em Escorpião temos de trabalhar a antimatéria, o desapego, um profundo processo que é necessário e crucial para que possamos evoluir e elevarmo-nos. Isto parece um pouco paradoxal, e até pode ser, mas a verdade é que, neste plano, é fácil ficarmos presos à densidade material, ao que ela nos promete e nos oferece. O próprio apego é uma vibração emocional, mas o desapego não é um simples largar, mas sim um processo que em como grande propósito o revelar de algo que está submetido à matéria. É através dele que podemos revelar os tesouros que estão dentro de nós guardados, pois apenas quando nos libertamos do que nos impede de avançar, conseguimos elevarmos em direcção ao divino que existe em cada um de nós.

Vivemos na Terra, é neste plano que o nosso processo se desenvolve e nela habitamos um corpo físico. Por isso, é através do corpo que necessitamos de trabalhar todas as experiências deste plano. Touro ensina-nos as sensações, os sentidos, mas Escorpião leva-os para um plano mais profundo, emocional, revelador de algo que nos eleva e nos mostra quem somos de mais cru e genuíno. Por isso, Escorpião é um signo onde a sexualidade é um tema chave, uma manifestação da nossa profundidade emocional, um lugar de transformação e revelação, que precisa de ser experienciado para poder, também, ser sacralizado. É nesse lugar profundo do nosso ser onde aprendemos o nosso verdadeiro poder, o das emoções, onde as sensações profundas nos rasgam e nos pedem a revelação da nossa própria face, sem máscaras nem efeitos especiais, onde a beleza ultrapassa a estética e se manifesta através da conexão, onde nos destruímos num orgasmo para renascermos na nossa vulnerabilidade.

A sexualidade, um tema tão escorpiónico, trazido até pela própria história do rapto de Proserpina por Hades, é uma faceta de algo profundamente humano, algo que faz parte desta experiência terrena e que nos define enquanto seres. Quando ela é bloqueada, quando ela não se manifesta de alguma forma (não necessariamente física), ela torna-se destrutiva, castradora, manipuladora, avassaladora. O seu bloqueio leva a que as águas de Escorpião nos tragam os nossos monstros e que eles se tornem destruidores de tudo o que de mais belo há, algo que só para com a consciência da nossa própria finitude, com o provar do próprio veneno, com a compreensão que, quando o fazemos para com os outros, na realidade, só nos estamos a destruir a nós mesmos. Este é um ponto essencial de Escorpião e que a sua mitologia nos explica de forma sublime.

A Mitologia de Escorpião

Quando olhamos para a mitologia ligada ao Signo de Escorpião encontramos, essencialmente, uma história, mas a sua simbologia e o seu mito permitem-nos ir um pouco mais longe. No entanto, a história que mais classicamente nos liga a este signo, e nomeadamente à constelação que o define, é a de Órion.

Mosaico em Pompeia representando a transformação de Órion em constelação – fotografia por Dr. Sophie Hay

Órion é, na mitologia grega, um gigante, filho de Gaia e de Poseidon, caçador exímio e extraordinário. São várias as histórias em que Órion está envolvido, sendo uma das mais famosas a que envolve as Plêiades, que ele perseguiu durante sete anos e que dá origem à sua constelação estar alinhada com estas estrelas. Contudo, a que se liga ao mito de Escorpião é uma outra, um pouco diferente, que até tem duas versões.

Reza a história que Órion se junto a Ártemis e a Leto nas suas caçadas, até ter prometido que caçaria todas as bestas que existiam na Terra. Gaia, sabendo desta intenção do seu próprio filho, decide enviar um escorpião que, numas versões, é gigante, e noutras é pequeno, que pica o pé de Órion, levando-o à morte. Ártemis e Leto pedem a Zeus que torne Órion numa constelação. Zeus acede, mas eleva também o Escorpião a constelação, colocando ambos em lados opostos dos céus, fazendo com que elas nunca se cruzem no horizonte. Sempre que Escorpião se eleva, Órion descende, e vice-versa. Órion propôs-se a matar todas as bestas na Terra, mas foi subtilmente morto e destruído na sua busca irracional e passional por uma delas.

Escorpião é uma grande constelação que ocupa os céus, tendo um formato que em tudo representa o animal. É nela que encontramos uma das estrelas fixas, sagradas para os Persas, mais fortes e importantes da astrologia, Antares, o Coração do Escorpião, uma supergigante vermelha. Antares, cujo nome significa “anti-Ares” ou “oposto a Ares”, pois a sua coloração vermelha fazia com que fosse confundida com o planeta Marte (Ares), é uma estrela muito poderosa, cuja energia nos traz uma ligação com a “essência do mal”, o inimigo que é visto e combatido. Contudo, Antares representa o quebrar com o que está estabelecido, a destruição das estruturas que já não servem, a paixão que nos move. Os persas chamavam-lhe o Guardião do Oeste, representando o fim de ciclo, o tempo da morte, o pôr-do-sol, a transformação profunda.

Imagem das Constelações de Libra e Escorpião - "Celestial Atlas", Alexander Jamieson, 1822

Por isso, em Escorpião encontramos uma imagem poderosa, que não sendo mitologia, é a natureza no seu esplendor a mostrar-nos o arquétipo vivo. Um dos temas de Escorpião é, precisamente a transformação, e na natureza temos muitos exemplos desse processo profundo e poderoso, mas aquele que melhor conhecemos é o da lagarta que se torna borboleta. Escorpião é precisamente o processo da lagarta que sabe que, para cumprir o seu propósito e sobreviver, poder ter a possibilidade de deixar a sua prole, tem de se sacrificar na forma e mostrar a sua outra (talvez a verdadeira) face. Para isso, ela “escolhe” construir um casulo e vulnerabilizar-se. Dentro do casulo, ela vai viver a sua transformação e, se tudo correr bem e não for comida por um predador, não podendo sequer defender-se, num momento rasgará esse invólucro e dele sairá no seu esplendor.

Este é o mesmo processo que muitos animais, como as serpentes, os crustáceos e o próprio escorpião vivem, o de terem de se libertar de algo que os impede de crescer, a sua pele ou a sua casca. Nesse tempo, eles, muitas vezes temidos predadores, estão vulneráveis, podem ser caçados ou mortos a qualquer momento, mas se não fizessem esse processo, morreriam na mesma. Nas nossas vidas, em algum (ou em vários) momentos, necessitamos de fazer o mesmo, de ter a coragem de deixar cair essas barreiras e transformarmo-nos, de maneira a poder aceder à nossa verdadeira essência.

Escorpião é regido por Marte e por Plutão, duas formas de actuação e de desenvolvimento deste signo. Marte traz-nos muito desta faceta que a própria mitologia nos mostra, como a defesa de algo, a guerra, a força de acção e coragem que Escorpião representa, a sua intensidade levada em prol de algo, dum foco de ruptura e mudança. Por outro lado, com Plutão, Escorpião ganha uma dimensão mais profunda, que também é muito importante e significativa, o mergulho nas profundezas, a dimensão do submundo e o seu poder, a transformação que nele se opera. Em conexão, estas duas energias levam-nos ao grande caminho que Escorpião vem fazer, que não é só profundo, mas é também muito desafiador, que pede um mergulho numa das temáticas que mais temor causa, mas que é a simbologia de algo muito profundo e essencial para a própria vida.

O Caminho da Morte

A morte é um dos temas mais difíceis e desafiadores na nossa vivência e natureza terrenas. É uma temática tão profunda e pesada que se tornou, na nossa sociedade ocidental, um enorme tabu, um medo e, em muitas dimensões, um bloqueio. No entanto, e como referi atrás, a morte é um processo conjunto com a própria vida, é dela que a vida tem a possibilidade de existir. Uma existe com a outra e são indissociáveis. “Cada um de nós tem a sua própria morte, transporta-a consigo num lugar secreto desde que nasceu, ela pertence-te, tu pertences-lhe.”, escreveu José Saramago no seu livro ‘As Intermitências da Morte’.

Quando pensamos e reflectimos sobre Escorpião, compreendemos que o grande caminho que ele nos apresenta e nos oferece é o da Morte, não a física, pois essa está-nos a todos e a tudo fadada, mas sim ao processo profundo que ela representa. Muito mais vasto e complexo do que um simples libertar da matéria, este processo é um desafio que nos coloca num lugar de transformação, de elevação e de profundo resgate, não da vida terrena, mas sim do nosso próprio espírito, do seu potencial e da sua luz. É esta ideia e conceito que encontramos em múltiplas histórias, mitos e lendas. É este conceito que vemos à nossa volta, na natureza.

Como referi acima, Escorpião traz-nos processos de profundidade, processos emocionais e de transformação. No entanto, é preciso compreender o que ele realmente nos oferece e, para isso, precisamos de explorar alguns conceitos para conseguirmos entender o grande caminho que este signo nos oferece e como ele representa um ponto de viragem dentro do Zodíaco, um lugar onde é muito fácil nos perdermos ou simplesmente lá ficarmos, presos a nós mesmos.

Se tivermos de pensar na grande essência de Escorpião, para mim, sem dúvida, é a do Desejo. É ele que nos move e nos leva para lá de nós mesmos. É através do desejo, de tudo o que ele nos mostra e ensina, do que nos faz sentir e buscar, que Escorpião se manifesta. As águas que nos habitam, as emoções que nos preenchem as células, são activadas por esta força que nos move. O Desejo não é um sentimento ou uma emoção, mas sim um lugar onde ambos se encontram e nos dão a força necessária para abraçarmos um caminho para além do que conhecemos, para além do que controlamos, para lá do que a matéria permite. Sem desejo, sem a sua força, sem a sua intensidade, somos uma massa amorfa, que até pode sentir ou emocionar-se, mas que não se motiva, não se move.

Escorpião é conexão, intimidade, profundidade. Ele ultrapassa a “simples” ligação de Balança, a compreensão e o espelho. O Eu não se reflete apenas no Outro, ele funde-se com o Outro e renasce em si mesmo.

É este impulso que o desejo representa e que em nós activa que nos leva à intensidade que é tão característica de Escorpião. Para este signo, tudo é intenso, tudo é profundo, não há meios termos, não há meias medidas. É dessa intensidade, aliada ao desejo, que inspiramos e activamos em nós o enorme processo de transformação que, de tempos a tempos, necessitamos de viver. É esse caminho que nos leva até uma profundeza do nosso ser, que nos obriga a contactar com as nossas necessidades, com o que de mais denso existe em nós, com os temas dos quais nos precisamos de libertar para podermos abrir brechas e quebrar barreiras que permitam a verdadeira manifestação da nossa Luz.

Por isso, em Escorpião vivemos um profundo processo alquímico, um mergulho no nosso interior que nos leva à confrontação com o que de mais denso, desafiador, feio e bruto existe em nós. É nele que mergulhamos no nosso inferno, nos nossos vícios, nas nossas tentações, nas nossas feridas, nos nossos medos e dúvidas. O propósito não é destruir-nos, mas sim dominá-los, torná-los o grande alimento da nossa transformação, da descoberta e libertação do nosso potencial. Contudo, sem com eles contactarmos, sem nos compreendermos neles, não poderemos ser quem verdadeiramente precisamos de ser.

Carta XIII – A Morte – Radiant Rider Waite Tarot

Escorpião é conexão, intimidade, profundidade. Ele ultrapassa a “simples” ligação de Balança, a compreensão e o espelho. O Eu não se reflete apenas no Outro, ele funde-se com o Outro e renasce em si mesmo. Esse trabalho, que é, ao mesmo tempo, tão belo e tão difícil, pede um desafio muito profundo, o da vulnerabilidade. Para nos conseguirmos entender, precisamos de largar todas as máscaras, capas, armaduras e defesas, precisamos de nos permitir morrer em nós para renascer em quem realmente somos. A vida na Terra trouxe-nos desafios e dificuldades, pediu-nos sobrevivência, ofereceu-nos dor e sofrimento e, por isso, precisámos de crescer defendendo-nos, tendo sido até a isso ensinados. Em Escorpião somos chamados a um dilema, o de compreendermos que não podemos evoluir e crescer sem largarmos o que nos prende, o que nos carrega o caminho, o que nos impede a leveza do Espírito.

Por isso, em Escorpião encontramos uma escolha e não um vaticínio, algo que vemos e compreendemos bem com a carta do Tarot que contém a sua energia, o Arcano XIII – A Morte. Nele vivemos uma decisão que precisamos de tomar, que o Universo e a vida nos colocam, a de largarmos um poder terreno de forma a poder encontrar o nosso verdadeiro poder, o do espírito. É isso que vemos na imagem, com a criança (a figura do Dependurado, na verdade) a ser a única que encara a Morte e a aceita, oferecendo-lhe flores, enquanto as outras adultas tiveram de largar o seu poder terreno ou, no caso da rapariga, embora desprovida desse poder material, ajoelhada e resignada, ainda não consegue olhar para a figura no cavalo. Nas versões pré-Rider-Waite-Smith, nomeadamente no Tarot de Marselha, onde é conhecida como O Arcano sem Nome, encontramos a clássica figura da morte, saturnina, do esqueleto com a foice, rasgando e ceifando a terra de onde saem uma cabeça coroada, outra duma mulher e diversos membros.

Carta XIII – O Arcano Sem Nome – Tarot Camoin – Jodorowsky (Estilo Marselha)

A Morte é um processo poderoso, que tanto é literal como simbólico, que está intimamente ligado a esta energia zodiacal. Os antigos Xamãs, nos seus processos iniciáticos, muitas vezes tinham de passar por travessias pelo submundo, o domínio de Escorpião, que tanto poderiam ser feitos por experiências de isolamento, como, em alguns casos, mesmo por sepultamento. O propósito seria levar a uma confrontação com o mundo interior e despoletar um processo de transformação profunda, de morte duma vivência anterior e o renascimento para um novo ser.

É esse processo também que vemos na história da Paixão de Jesus, a sua iniciação como o Cristo. A própria ideia da Paixão, a palavra, a intensidade que a paixão representa, são um tema profundamente escorpiónico, muito ligado ao conceito do desejo. Jesus é traído, preso, julgado, humilhado, violentamente castigado e torturado. Faz um caminho onde carrega a sua cruz, um símbolo que representa a própria encarnação, manifestado no nosso mapa pelos dois eixos que o sustentam, até ao local onde será crucificado e, consequentemente, morto. É nesse processo que Jesus, morrendo para a existência terrena, desce aos infernos e vence o Diabo, ressuscitando ao terceiro dia, vencendo, assim, a morte e elevando-se para o seu verdadeiro propósito, o de se tornar o Cristo, defensor, protector e orientador da humanidade, o detentor da grande mensagem do Amor.

O Caminho de Escorpião é, assim, o Caminho da Morte, aquela que nos leva num processo de iniciação ao nosso submundo e nos revela o nosso verdadeiro potencial. A semente é apenas uma ideia de uma planta que dará inúmeras folhas, flores e frutos. Só quando ela é semeada, colocada dentro da terra, do submundo, onde contacta com as águas profundas, as águas de Escorpião, que activam os nutrientes que nela estão guardados, originados de todas as plantas, folhas, frutos e animais que, entretanto, morreram, putrificaram e foram decompostos, é que ela pode revelar tudo o que ela poderá ser. Contudo, nesse processo existe uma espécie de escolha, algo que é sublime e que, obviamente, para uma planta é puramente natural e “instintivo”, mas que para nós é crucial – a semente tem de “escolher” quebrar a casca, deixar de ser semente, largar o conhecido e arriscar germinar, desenvolver-se, rasgar a terra e dirigir-se para a luz, manifestado todo o seu potencial.

O que há de crucial neste processo é que a planta pode morrer, pode não vingar, pode não conseguir dar sequer folhas, mas se ela não escolher quebrar a casca, nunca conseguirá saber se é possível. É este o desafio que Escorpião nos coloca, por vezes de tempos a tempos, o de escolhermos morrer em quem somos e arriscar um pouco mais sermos quem realmente necessitamos de ser. É neste caminho de desapego, de libertação, que todo o caminho de Escorpião se processa, numa iniciação do nosso próprio Eu, a escolha de largarmos o que nos prende à matéria para nela podermos vencer e tornarmo-nos na melhor versão de nós mesmos. Na verdade, nós vivemos todo este processo desde antes de virmos à Terra, pois ele representa até mesmo a profunda escolha da nossa Alma de abraçar um desafio neste plano, de revelar o seu próprio potencial. Se pensarmos ainda de forma mais profunda, todos nós somos formados da morte de quem esteve aqui antes de nós, de todos aqueles que abriram os caminhos e possibilidades. Por isso, também, é neste tempo que celebramos o Samhain, o festival celta que representa o fim do ano e o início de um novo ciclo.

Escorpião é, por isso, uma ponte, um caminho pela sombra, pelas trevas, pelo nosso inferno, do qual não podemos fugir nem nos esconder. Ele é como o processo de burilar a pedra, tirar-lhe tudo o que está a mais, até revelar o diamante. Contudo, o diamante só pode ser apreciado num fundo escuro, é ele que revela o corte perfeito e o brilho extraordinário da pedra preciosa. Da mesma forma, só através do trabalho nas nossas próprias sombras, sobre os nossos medos, sobre as nossas feridas, podemos revelar e manifestar o nosso potencial e o nosso poder e, assim, projectarmo-nos para a luz do nosso ser, o trabalho que Sagitário nos irá permitir e possibilitar fazer.

"O Rapto de Proserpina", Peter Paul Rubens, Museu do Prado, óleo em canva (1636-1637)
O Propósito de Escorpião

O Zodíaco é um caminho, uma jornada de compreensão de quem somos, da vida, da natureza, do Universo e do Divino. Cada signo é uma etapa, um processo, um arquétipo que se desenvolve e se integra com todos os outros de formas múltiplas, com o propósito de tecer este grande fio que é a vida. Os signos não funcionam de forma isolada, mas cada um contém em si um propósito único que integramos, cada um de nós, de forma singular e precisa, moldando quem somos em cada momento.

Quando o Sol transita no Signo de Escorpião, ele activa um trabalho consciente sobre o seu arquétipo, oferecendo-nos a sua vibração e levando-nos até às profundezas de algo que, em cada momento, estamos a vivenciar. Escorpião é a energia do submundo, das trevas, da morte, não num sentido assustador e destruidor, aquela ideia de inferno criada no imaginário religioso, mas sim num lugar precioso, único e intenso, necessário para podermos resgatar o melhor de nós, libertarmo-nos do que nos impede de manifestar a nossa luz, aquela que Leão, o signo fixo que lhe precede, nos mostrou.

O próprio animal, o Escorpião, tem um exoesqueleto que necessita, de tempos a tempos, de mudar, pois ele cresce e a sua carapaça, que até ali o protegeu, começa a tornar-se a sua prisão e, se ele nada fizesse, seria mesmo a sua sepultura. Da mesma forma, ao longo do nosso percurso de vida, vamos, como referi acima, levantando barreiras e colocando armaduras, defesas necessárias para a nossa própria sobrevivência, muitas vezes. Contudo, há momentos, e o Signo de Escorpião recorda-nos isso, em que é preciso retirar essas capas, máscaras e armaduras, pois elas começam a bloquear a nossa própria vida.

É nesse caminho que o propósito de Escorpião se revela, o de nos levar a um lugar profundo do nosso ser, a um lugar de vulnerabilidade profunda. É preciso caminhar pelo vale da sombra da morte que são os nossos medos, as nossas feridas, as dores e os sofrimentos passados, e através deles reencontrarmo-nos num dos desafios maiores deste signo, o desapego, o largar, o perdão. Escorpião propõe-nos esse resgate da nossa essência, e ainda que não seja na sua vibração que tal acontece, sem ela não é, de todo, possível.

Desapegar, perdoar, largar o que nos faz mal, morrer para os nossos velhos vícios e medos, é um profundo acto de amor que nos permite uma das coisas mais belas que podemos vivenciar neste plano, a conexão profunda com outro ser humano. No fundo, Escorpião busca essa conexão, essa fusão, esse sentimento de ser o outro não deixando de sermos nós mesmos, algo que neste plano conseguimos através dum lugar de intimidade, de prazer, de entrega e profunda vulnerabilidade.

Escorpião recorda-nos que somos matéria e espírito, luz e sombra, bem e mal, que tudo reside em nós e que o que prevalece é aquilo que alimentamos. É nessa consciência, também, que compreendemos que, muitas vezes, a maior dor dá origem ao maior prazer, mas que, na realidade, foi tudo isso que viemos experienciar neste plano. De que servirá conhecer todas as coisas dos céus e da Terra se não souber delas usufruir, se delas não beber, se nelas não mergulhar, não me conectar e não encontrar um prazer profundo? Por isso, Escorpião ensina-nos a vivência do desejo, da paixão, da conexão profunda, levando-nos por um caminho de morte de quem temos sido que tem como propósito o resgate daquilo que podemos verdadeiramente ser. É um caminho escuro, desafiador, difícil, sem dúvida, que não nos revela a luz que buscamos, pois não é esse o seu propósito, mas ele é aquele lugar onde a semente se encontra, pacientemente, à espera do tempo certo para, primeiro, germinar, criar raízes, aprofundá-las e, depois, pacientemente, rasgar a terra para ser a manifestação terrena da sua essência.

Referências Bibliográficas:

LOURENÇO, Frederico. Bíblia – Volume I – Novo Testamento: Os Quatro Evangelhos. Quetzal, 2018

 

Nota Final:

Há alguns anos lancei um projecto de Workshops chamado “Os 12 Caminhos”, onde, a cada mês, falei sobre o signo desse período, trabalhando as suas ideias e os seus propósitos. Foi sob a égide dessa ideia que agora lanço este projecto de 12 artigos, de Março de 2026 a Fevereiro de 2027, um por cada signo, onde exploro um pouco do seu propósito, mas onde integro a vivência da sua energia no tempo que vivemos. Estes são tempos de tomadas de consciência, de novos caminhos que se abrem e de novas posturas que nos são solicitadas. Por isso, ao longo dos próximos 12 meses, vamos dar passos pelos caminhos de cada signo na descoberta da sua dimensão mais sublime e do seu propósito, enquadrado no desafio que este tempo nos apresenta. Pode encontrar aqui todos os publicados.

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